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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Psicologia Existencial: explicação clara e muito simples.

É uma psicologia fundamentada na Fenomenologia, filosofia que rompeu com a escola clássica, grega, divergindo em vários pontos entre os quais sobre o conceito de essência.

Para a filosofia antiga a essência é algo interno que dificilmente se revela, ficando oculta sob as diversas manifestações da exterioridade que encobre a verdade do sujeito.
Para a Fenomenologia a aparência NÃO esconde a essência, mas a revela, porque a aparência É a própria essência. Se uma pessoa esconde um pensamento, ou um sentimento, se ela não fala disso ou fala outra coisa no lugar disso, o que temos aí? Temos a revelação daquilo que é a essência da pessoa naquele momento: a essência de ocultar um sentimento. No caso ela revela que não quer revelar, e isto é uma revelação. A pessoa não é uma paixão escondida, ela é a que esconde a paixão. Assim, a Fenomenologia valoriza o que aparece e não o que "deveria" aparecer. Ela enfatiza a experiência vivida da subjetividade. O que é isso? uma psicologia que olha o fato, o fenômeno, aquilo que aparece. Buscamos compreender a pessoa no lugar em que ela está, sem interpretações acerca do "como deveria ser". Então, a responsabilidade pessoal é posta em relevo, já que o foco sempre será a pessoa tal como ela se percebe e se anuncia. O interpretar se baseia em modelos pressupostos. O compreender se baseia na realidade presente que é aceita pelo psicólogo de forma incondicional. A diferença é que na psicanálise temos sempre alguém fora de nós a quem atribuir nossas responsabilidades, na existencial as responsabilidades sobre nossas escolhas (sempre conscientes) são sempre nossas.
Quanto maior a consciência, maior a liberdade; quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade. E a liberdade nos traz a ansiedade (ou a angústia) de nos sabermos únicos responsáveis por nossas escolhas conscientes. E isto não precisa nos trazer desespero e nos manter nele, porque essa angústia é libertadora a partir de um fato que ela me mostra: se sou responsável por minhas escolhas, também sou responsável por aquilo que será feito de mim daqui por diante, e isto é libertador. Ninguém detém o poder de me impedir de ser feliz, assim como a minha felicidade não está nas mãos de ninguém.

Tudo isso faz aumentar a minha responsabilidade acerca do tanto de empenho que preciso aplicar na direção dos meus projetos e desejos. A existencial chega para nos mostrar que estamos em nossas próprias mãos, mais do que poderíamos imaginar. Nossa liberdade é absoluta, como disse Sartre, mas ele explicou que a liberdade se realiza num contexto de facticidade, e isto quer dizer que há aspectos "fáticos" que precisam ser considerados, ito é, há coisas que não mudam porque fazem parte do mundo em-si.

Se sou francês, branco, classe média-alta, sexo masculino e sofro de uma patologia estrutural... se sou heterossexual, tenho pais falecidos e aos 60 anos ainda não tive um filho natural... nada posso fazer acerca disso. Tudo que aqui citei são facticidades (coisas que não posso mudar) e a minha liberdade é absoluta dentro deste universo. Mas vejam que a minha realidade não é essa. A minha realidade é o que faço com a minha facticidade, porque experiência não é o que lhe acontece, mas o que você faz com aquilo que lhe acontece.
Walmir S. Monteiro
monteiro.walmir@gmail.com

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Carta a Dorine - a propósito da morte

CARTA A D. - Luíz Horácio
“Se eu morrer agora, você retornará ao Rio de Janeiro?”
Mal tínhamos acordado e minha mulher, após um beijo, traz à tona essa questão. Como se trata de uma quase filósofa e a morte é a grande inspiradora da filosofia a princípio tomei aquela indagação como provocação, ela sabe o estrago que me faz falar e pensar na morte, e também uma tentativa de filosofar. A questão precisava ser quase simplória devido às limitações do seu patético interlocutor. Fosse o que fosse, não teve êxito. O medo que o tema me causa, o medo da morte é inato, empurrou minhas mãos trêmulas ao controle remoto e logo liguei a TV em busca de uma bobagem qualquer.

Ela não insistiu e eu num silêncio/trincheira inventado naquele instante lembrava do melancólico livro Carta a D., que tínhamos lido e debatido semanas antes, sob coincidentes emoções.

A morte não combina com nada, e quando confrontada com o amor a incompatibilidade se torna insuperável, por ter experimentado de ambos meus medos se redobravam, Depois da pergunta de minha mulher me perseguiu por horas e horas uma frase de Carta a D.“Nós desejaríamos não sobreviver um a morte do outro.”

Impactado com a frase conclui que deve ser essa a única maneira de um amor durar para sempre. Amor ou vontade de vida, conforme Schopenhauer.

Mas “como construir esse para sempre?” Partindo da certeza do meu amor por minha mulher e das sensações incomparáveis que ela me causa, se tornava óbvio objetivar a continuidade do prazer. Sei que no frigir dos ovos somos todos egoístas e tudo que buscamos é com a intenção de que seja para sempre. Que o automóvel não enferruje, que o vaso jamais quebre, que as fotografias nunca se apaguem e aqueles que amamos estejam sempre a nossa disposição. Poucos admitem, mas a verdade é essa. Esse mundo não me interessa,o mundo da razão, razão que nos presenteou com a certeza da morte, me desagrada completamente. Por outro lado, me fascina o mundo da minha imaginação. Sua existência depende de mim, se tenho os planos é por que a construção é viável. Meu objetivo é trapacear, enganar a morte, desviá-la daqueles que eu quero bem, que na verdade guardam pedaços meus e caso morram, eu também morro. Se a fantasia não me impediu de sofrer pelo menos me fez entender que algumas coisas podem ser para sempre. E só pode ser pra sempre tudo aquilo que não exigir espaço. Mas o para sempre é algo que não surge livre da dor. Falo de meu grande amor que foi precedido da minha dor e solidão frutos ácidos da auto depreciação e preguiça de acreditar na fantasia. A solidão é um artifício muito utilizado pelos covardes da minha laia. Nos escondemos, congelamos nossa afetividade e se não amamos não corremos o risco da rejeição, da perda, da frustração. E assim permitimos o tempo andar sobre nós. Até um dia... O dia em que percebemos que podemos permanecer assim para sempre. Sem dor, sem medo, imóveis. Como as pedras. A pedra escondida é a materialização do para sempre, pior, muito pior que estátua. Minha fantasia exigia movimento e eu não sabia, talvez por isso me doesse tanto estar parado. Pouco importando se frente ao mar ou deserto.

Porém, em certo entardecer meu mundo começou a rodar no sentido oposto. Naquele instante eu vi a mulher que também me viu. Alguns dias se sucederam até revê-la e então trocamos algumas palavras, o suficiente para eu me dar conta que desde minha infância sonhava com uma mulher como aquela. Hoje o sonho é também meu despertar e quando sofro é simplesmente por que ela não está comigo. E como sofro!!!! Infelizmente o amor nunca é para sempre, visto que é vivo e tudo que é vivo precisa morrer. Não eu não invejo o amor de Dorine e André, mesmo que o amor deles tenha durado para sempre. Agora eu tenho a receita e posso responder a minha mulher: “Não, quando você morrer não voltarei ao Rio de Janeiro.Não irei a lugar algum. Pregarei na porta de nossa casa placa igual a de Gorz; Avisem a polícia” É isso. Não eu não tenho 17 anos, tenho muito mais e não acredito em nada, nada mesmo que não seja produto da fantasia, do imaginado, do sonhado. Mas acreditar não basta é preciso viver a realidade com fantasia.

Amor ou vontade de vida. Em setembro de 2007 Dorine e Gorz suicidaram-se, cada um com sua respectiva injeção letal, a doença dela (aracnoidite) atrapalhava a vontade de vida do casal. Viveram juntos quase sessenta anos. Dorine sofria há vários anos de uma doença incurável, fruto de um erro médico - “você vai eliminar esse produto em dez dias” , anunciou o radiologista.Enganava-se, o líquido(lipiodol), utilizado para fazer contraste numa radiografia de coluna, alcançou o cérebro , Dorine sofria dores terríveis.

Carta a D., escrito entre março e junho de 2006 com Dorine já doente, é uma carta de amor, é uma história de amor, é uma história sobre os sobre-saltos do viver? É uma história sobre a literatura, sobre o silêncio? É tudo isso e mais: é também o mea-culpa, pedido de perdão, remorso de Gorz. Logo na abertura ele confessa: “Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traîte, passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver. Por que, então, deixar de fora essa maravilhosa história de amor que nós tínhamos começado a viver sete anos antes?

Em Le Traîte chega ao requinte de chamá-la de “coitadinha.“Tem mais; Carta a D. também é o relato de uma tragédia provocada por um erro médico, enquanto isso a vida segue abusando das repetições, André e Dorine não suportaram, não importa se para os gatos ou para os médicos, ambos escondendo suas cagadas embaixo da terra. Falo com conhecimento de causa, já me pegaram duas vezes, fizeram uma vítima fatal. Carta a D. é uma pergunta; a pergunta que incomodava Gorz: “por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa e excluímos as demais?” A pergunta continua a espera da resposta.

Gorz entendia que a filosofia não servia para explicar o amor. Abrir parênteses: quem leu Metafísica do Amor, de Schopenhauer, sabe que Gorz está com a razão. Fechar parênteses. O amor é o deslumbramento de uma pessoa pela outra, pelo que elas vêem e sentem de mais inexplicável. Amor implica em união, Dorine dizia: “Nós seremos o que fizermos juntos.”

Gorz precisava de Dorine, me atenho a ele porque a carta é escrita por ele, deduzo que a recíproca tenha sido verdadeira. Dorine duvidava da aplicabilidade das teorias de Gorz, mas não negava-lhe o apoio fundamental. “Amar um escritor é amar que ele escreva , dizia você. “Então escreva!.” Gorz rebate: “Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir.” Não, sensível leitor, não se trata de auto-ajuda, é triste, é demasiado humano, pena que o humano ande tão fora de moda e o amor atualmente seja tratado como animal em extinção. Eu disse amor, note bem. Não confundir com atração física tão-somente ou certos jogos de interesses que todos conhecemos muito bem e não saem da ordem do dia.

O autor André Gorz, filósofo e jornalista (Les Temps Modernes e Le Nouvel Observateur) sofreu influência de Karl Marx e Jean Paul Sartre. O leitor atento pode confirmar com a leitura de “Estratégia Operária e Neocapitalismo”, “O Socialismo Dificil”, “Critica da Divisão do Trabalho” e “Adeus ao Proletariado”. Filósofo importante, fez da ecologia um dos seus temas favoritos junto com o anticapitalismo que em dados momentos nos faz lembrar Theodor W. Adorno em suas criticas radicais à cultura atual onde o humano é preterido em nome de uma neo barbárie. Dorine,inglesa, nascida Doreen Leir era uma atriz de teatro. Se encontraram na Suiça, dois anos depois estavam morando juntos.
Dorine e André inventaram um amor e um mundo ; o amor ainda hoje mantém contato com a realidade atual; o mundo de combate a doença no entanto e de alerta aos inevitáveis erros médicos não pode ser esquecido. Dorine e André já estavam mortos antes de suicidarem-se, o ato físico foi tão somente o ápice de uma morte espiritual que se deu com o avanço da doença de Dorine. André, porém, se manteve vigilante: “Estou atento à sua presença como estive desde o início, e gostaria de fazê-la sentir isso. Você me deu toda a sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que nos resta.”
Em Carta a D. André Gorz combina amor e sofrimento na medida exata, embora intensos, no entanto este resenhista ranheta não faz pouco caso das intenções do autor, discorda apenas do momento escolhido para tão significativa declaração. Bem, mas o suicídio dele foi a grande declaração de amor, você deve estar pensando, amoroso leitor. Para não me tornar ainda mais chato prefiro encarar Carta a D. como a última declaração de amor, nesse caso presumo a existência de inúmeras outras,próprias dos grandes amores.

Gorz contraria Adorno, em Carta a D. o autor não desaparece na obra.

O AUTOR
André Gorz (Viena,1923 - Vosnon,2007), pseudônimo de Gerhard Horst, é autor de uma das reflexões mais importantes sobre o capitalismo e o mundo do trabalho no século XX. Com livros publicados em diversos países, foi um pioneiro na defesa da militância ecológica como uma política, tanto em sua obra teórica como eu seu trabalho na imprensa. Dedicou os últimos anos de vida a cuidar da doença da mulher, Dorine, período em que publicou uma série de ensaios de grande relevância, a começar por Adeus proletariado (1980) que marca o rompimento com o marxismo.

TRECHO
Vinte e três anos se passaram desde que fomos viver no campo. A princípio na “sua” casa, que liberava uma energia meditativa. Nós a saboreamos por apenas três anos. O canteiro de obras de uma central nuclear nos enxotou dela. Encontramos outra casa, bastante antiga, fresca no verão, quente no inverno, com um terreno enorme. Você poderia ter sido feliz ali, onde não havia nada além de uma campina, que você transformou num jardim de sebes e arbustos. Plantei duzentas árvores. Durante alguns anos, ainda viajamos um pouco, mas as vibrações e os solavancos dos meios de transporte, fossem quais fossem, causavam-lhe dores de cabeça e em todo o corpo. A aracnoidite a obrigou a abandonar, pouco a pouco, a maioria das suas atividades favoritas. Você consegue esconder os sofrimentos; nossos amigos sempre a acham “em plena forma”. Você não parou de me encorajar a escrever. Ao longo dos vinte e três anos passados na nossa casa, publiquei seis livros e centenas de artigos e entrevistas.Nós recebemos dezenas de visitantes vindos de todos os continentes, fui entrevistado dezenas de vezes. Eu certamente não estive à altura da resolução que tinha tomado havia trinta anos: a de viver o presente, atento mais que tudo à riqueza que é a nossa vida comum. Agora eu vivo de novo, e com um sentimento de urgência, os instantes em que tomei essa resolução. Não tenho nenhuma obra mais importante em elaboração. Não quero mais - segundo a fórmula de Georges Bataille - “deixar a existência para mais tarde”. Estou atento à sua presença como estive desde o início, e gostaria de fazê-la sentir isso. Você me deu toda sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que nos resta.


Luíz Horácio
Jornalista,escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed. Conex e Nenhum pássaro no céu-ed. Fábrica de Leitura, Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre

sábado, 12 de junho de 2010

Heidegger elogia Sartre por sua obra máxima O SER E O NADA

Na última capa de O SER E O NADA, Martin Heidegger diz, a propósito da principal obra de Jean-Paul Sartre, que... "pela primeira vez deparo com um pensador independente que demonstra a fundo uma compreensão imediata da minha filosofia, de uma forma como nunca havia testemunhado antes". Estas palavras são encontradas na biografia de Heidegger escrita por Safranski, onde achamos a indicação de que o filósofo alemão aceitou expressamente a visão de Sartre em relação a suas idéias e a ênfase sartriana dada à alteridade pelo termo (ser-para-outro). 
Este registro do biógrafo provém do trecho de uma carta que Heidegger endereça a Sartre, datada de 28 de outubro de 1945, na qual expressa as impressões aqui transcritas da última capa de O SER E O NADA sobre as interpretações ali contidas de sua filosofia. (HEIDEGGER apud SAFRANKI, 2000, p.409).


SAFRANSKI, R. "Heidegger – Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal". Trad. Lya Lett Luft. São Paulo: Geração Editorial, 2000


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AGORA VEJA O QUE SARTRE E HEIDEGGER PENSAM SOBRE O TEMA DA "MORTE".
Clique no corpo do texto para exibi-lo melhor.











sábado, 29 de maio de 2010

JOGRAL EXISTENCIAL

SENHORAS E SENHORES, PEÇO UMA ATENÇÃO ESPECIAL,
PORQUE AGORA VAMOS FALAR DA PSICOLOGIA EXISTENCIAL.
A QUAL COMEÇOU COM KIERKEGAARD, CARA DE NOME ENGRAÇADO,
QUE ELIMINOU UM PARADIGMA QUE COLOCAVA EM CADA LADO....
IDEALISMO E REALISMO COMO SE FÔSSEM CULPADOS
TANTO DO EXCESSO DE SONHOS, QUANTO DA AUSÊNCIA DE FÉ.

MAS QUANDO HUSSERL CONCEBEU A FENOMENOLOGIA
TODO MUNDO APRENDEU OU APRENDERIA
QUE CADA COISA EM SI TEM SUA PRÓPRIA IMPORTÂNCIA
MAIS QUE MAMÃE E PAPAI, MAIS QUE A PRÓPRIA INFÂNCIA
PORQUE O OUTRO É NO MÁXIMO UM MERO SÓCIO NA BUSCA
POR MAIS CRIATIVIDADE, ORIGINALIDADE, E SUA VERDADE NÃO ME OFUSCA

VINDO HEIDEGGER APÓS, COM O CONCEITO DE DASEIN
DIZIA QUE O SER-AÍ É PODER APRENDER...
QUE O MOVER CRIATIVO DÁ SENTIDO À EXISTÊNCIA
E TUDO QUE VOCÊ CRIAR CONSTRUIRÁ SUA ESSÊNCIA.
 


DE REPENTE, PORÉM JEAN-PAUL SARTRE CHEGOU
COM SIMONE DE BEAUVOIR, PRA TE AJUDAR A PENSAR
COM CRÍTICA E SINCERIDADE... EM RELAÇÃO AO QUE SOMOS.
ISTO É, O QUE NOS TORNAMOS.
NÃO SOMOS RESULTADO DOS PAIS NEM DA SORTE OU DO AZAR
MUITO MENOS DA INFÂNCIA QUANDO MAL CONSEGUÍAMOS FALAR
SOMOS RESULTADOS DE NÓS MESMOS, DAQUILO QUE ESCOLHEMOS
E NEM SEMPRE ACEITAMOS, PORQUE NEM SEMPRE PODEMOS.
O PROBLEMA É QUE NEM SEMPRE NOS DISPOMOS A ASSUMIR
PORQUE É MAIS FÁCIL SUMIR, FUGIR, OU NEGAR.

MAIS NEGÓCIO É RETRAIR, MENOS NEGÓCIO ENCARAR
 MUITO MELHOR DISFARÇAR
FAZER DE CONTA QUE NÃO ESTAMOS NEM AÍ
ENTRAR NA CONDIÇÃO EM-SI E FINGIR-SE DE MORTO
PORQUE NEM SEMPRE TEMOS A MÍNIMA ESTRUTURA
DE ASSUMIR UM PROJETO, O PROJETO PRINCIPAL
QUE É A PRÓPRIA EXISTÊNCIA.
E SE NEM MESMO CUIDAMOS DA NOSSA PRÓPRIA APARÊNCIA
PIOR AINDA ACONTECE COM NOSSA PRÓPRIA ESSÊNCIA
ACHANDO QUE EXISTIR NÃO É MAIS QUE SER
E QUE ENTRE A GENTE E O ANIMAL
A DIFERENÇA NÃO É SÓ A CONSCIÊNCIA
MAS O MEDO QUE TEMOS DA MORTE
COMO SE A FÔSSEMOS EXPERIMENTAR.
- NINGUÉM EXPERIMENTA A MORTE, DIZ SARTRE
PORQUE ASSIM VIVO ESTARIA.
MAS COMO SOMOS MAIS DO QUE VIVOS                                      
PRÓPRIO ESPELHO EM QUE VEMOS
ESSA MESMA CABEÇA QUE PENSA
COM A MESMA MENTE QUE ESCOLHE
E OS MESMOS OLHOS QUE VÊEM
A MESMA FACE QUE CORA
E O MESMO QUEIXO QUE CAI
ABAIXO DA MESMA TESTA QUE TRAZ
EM LETRAS GARRAFAIS...
QUE DESSE MESMO NARIZ
DEVÍAMOS SER OS ÚNICOS DONOS
- DONOS E JUIZES -
E ASSUMIR DE VEZ
A PRÓPRIA ESCOLHA QUE FEZ

É ASSIM QUE RESUMIMOS A EXISTENCIAL
UMA ABORDAGEM CORAJOSA, UM DIFERENCIAL
À MESMICE DETERMINISTA E À MÁQUINA COMPORTAMENTAL
 SABEMOS QUE NEM TODOS FAZEM PARTE DO FÃ-CLUBE SARTRIANO
EM QUE HEIDEGGER, HUSSERL E PONTY REINTERPRETAM FRANZ BRENTANO.
MUITOS AQUI. PODEMOS VER,
PREFEREM FREUD, JUNG OU BECK, E POR ISSO RECONHECEMOS:
QUE BOM ABRIR ESSE LEQUE !
PORQUE É NA DIVERSIDADE QUE ACHAMOS A RIQUEZA

DE UMA CIÊNCIA QUE, VASTA, TRAZ MAIS DÚVIDAS QUE CERTEZAS.
E POR FALAR EM CERTEZAS, CERTOS ESTAMOS QUE VOCÊ
AO OUVIR ESSAS PALAVRAS DA EXISTENCIAL FICA FREGUÊS.
SE NÃO FREGUÊS, AMIGO, SE NÃO AMIGO, INTERESSADO
MAS ACIMA DE TUDO, CONSCIENTE DE QUE FEZ UMA ESCOLHA
TALVEZ DIFERENTE, TALVEZ TRADICIONAL
MAS INDEPENDENTE DO QUE SE ESCOLHE
O QUE É FUNDAMENTAL É ASSUMIR A ESCOLHA
E NÃO FUGIR PRO QUINTAL
QUE NÃO SE CHAMA INCONSCIENTE
SE CHAMA MÁ-FÉ
OU CONSCIÊNCIA NÃO REFLEXIVA POSICIONAL
UM ESTÁGIO NO EM-SI
ATÉ CONSEGUIR CORAGEM
DE ENFRENTAR A VIDA
QUE FOI FEITA PARA-SI.

AQUI TERMINAMOS COM UM BEIJO E UM ABRAÇO
E UM CONVITE A VOCÊ A CONHECER O QUE FAÇO.
FAÇO A EXISTENCIAL - QUE VALORIZA O COMPREENDER
NO LUGAR DO INTERPRETAR
POIS NÃO É POR ISSO QUE CREMOS QUE AS COISAS VÃO MUDAR.
O QUE MUDA A REALIDADE É A INTENCIONALIDADE, É A MINHA CONSCIÊNCIA
QUE NA QUALIDADE DE ESCOLHA TEM SUA MELHOR EVIDÊNCIA
CONFIRMANDO O QUE DISSE SARTRE A PROPÓSITO DE SUAS IDÉIAS
QUE NADA ESCAPA DA VERDADE QUE A EXISTENCIAL ENSINOU:
QUE CONSCIÊNCIA É INTENÇÃO E O FUTURO NÃO EXISTE NÃO.
TUDO É UM ETERNO PRESENTE QUE A GENTE ESCOLHE E FAZ
TORNANDO MINHA VIDA TÃO BOA QUANTO SOU CAPAZ
 

POIS A LIBERDADE É CERTEZA QUANDO AUMENTA A CONSCIÊNCIA
E À RESPONSABILIDADE SEGUE A ANGÚSTIA
E A EXISTÊNCIA PRECEDE A ESSÊNCIA.

F I M
Autoria: Walmir Monteiro





domingo, 4 de abril de 2010

Um conto sobre (des)encontros

ANDANTES

Se sei que o momento mais difícil de uma relação é quando acaba, o mais emocionante é quando recomeça. Fiquei sozinha nesse Café. Charles se foi. Acendendo um cigarro observo pessoas à minha volta. Nem mesmo essa fumaça é capaz de expulsar o perfume abandonado em minhas mãos. Todo perfume tem memória, e esse, sozinho, é capaz de contar da nossa relação a história. Insustentável história de um cara que exibe clássica pinta de executivo, e eu – contraponto - despreocupada “free-lance”.
Não costumo fumar, mas acendo quando acho que mereço. Estava triste, sofri uma perda. Cabia um cigarro, sem culpa. No Café crianças jogam no computador, enquanto solitários – página a página - mexem na internet para matar o tempo. Numa mesa do fundo um casal conversa, ri e troca beijos. Parecem felizes. Já eu, não atino o que fazer. Falta coragem de levantar e descobrir que simplesmente não tenho aonde ir.
Eu - Suzy, fotógrafa, 24 anos - talvez seja louca -- se loucos são os insatisfeitos com a realidade comum, os que não aceitam que cumprir rotinas seja a definição de viver. Passei a curtir uma sensação especial de liberdade, quando eu e Charles decidimos morar em casas separadas. Hoje sou livre. Posso dormir ou não dormir. Jantar ou não jantar. E ficar de luz acesa até quando bem entender. Sobretudo – e isso é o melhor de tudo - posso ficar triste sem ter que dar explicações. E como é difícil, e inútil, e cansativo, explicar a tristeza.
Tenho vontade de ir atrás de Charles para dizer que não é nada disso (seja lá o que for que ele pense que seja isso) e prometer alguma coisa que reverta a situação. Uma pena eu não ser uma mulher daquelas que correm atrás, que dizem coisas que funcionam, que juras fazem e garantias empenham, mesmo que jamais se cumpram. E quem disse que juras de amor são para se cumprir? Outra em meu lugar se jogaria aos seus pés, e no meio da multidão aprontaria uma loucura, para chamar de vez sua atenção e provar que não era nada daquilo. Nada daquele papo cabeça, daquela filosofia besta que desenrolamos no café.     
Mas não tenho talento para tanto. Nem com texto decorado conseguiria. E além do mais... ele pertence a um planeta diferente. Ou será que sou eu? Acho que sou de um lugar onde a felicidade se faz de coisas novas, especiais. Tão especiais que nem sei que mistério é esse a que tanto aspiro.
Preciso domar minha ansiedade. O cigarro acabou. Tomo um copo inteiro de água quase gelada. Resolvo andar, porque me faz bem. Caminhando observo as pessoas e imagino seus problemas. Será que elas são facilmente felizes ou imensamente exigentes, como eu?
Está me fazendo bem andar a pé pelo centro do Rio, assim sem motivo, em plena tarde de segunda; quando tantos que hipnotizados com trabalhos e afazeres se envolvem em uma correria louca. Talvez, para ser feliz seja necessário se envolver em alguma correria; mas... e se esta for uma fórmula contrária, feita só para esquecer a infelicidade? Talvez a felicidade seja só isso: não pensar.
Enquanto penso em não pensar, observo pessoas que se movem freneticamente, sem se dar conta de quem passa ao lado. Mecanicamente caminham, como únicas, como solitárias, invisíveis. Entro em um edifício qualquer. De uma janela no 17º andar olho aos meus pés a Rio Branco. Multidões, como um bando de formigas, formam um bloco na beira da calçada. Sinal vermelho dos pedestres. Ali todos se encontram, mas não se acham. Essa forçada convergência não é motivo para que se admirem. Adivinho que não se olham. E que jamais se tocam. No máximo se esbarram. Caminham sós. Continuam sós. Tantos e ninguém. O sinal abre, e rapidamente atravessam a avenida. Blocos humanos, em esquinas de sinais, agem de forma sincrônica, numa harmonia eletrônica, dirigidos por luminosos que abrem e fecham. Verde-amarelo-vermelho, comandando a ação dos que seguem sem olhar para os lados, sem se importar com quem está por perto.
Estou há meia hora dentro de um prédio onde entrei sem ser vista. Vista, quem sabe, talvez. Mas não notada. Não houve quem comigo se importasse, mesmo que por motivos burocráticos ou de segurança. Simplesmente subi. Contei nove pessoas no elevador. Sem precisar que o ascensorista pedisse, ditavam números: onze, oito, vinte e dois, vinte e um. Falei dezessete. Poderia ter dito qualquer número, mas escolhi o 17; um número que ninguém havia falado. Algumas pessoas me olharam rapidamente. Temi que estivessem adivinhando que eu não tinha nada a fazer no dezessete. Mas tudo que sabiam de mim é que eu havia falado dezessete. Não se importavam que meus cabelos agora são ruivos, que meu lábio hoje é rosa e que minha sandália verde combina com o cinto que segura o meu “jeans délavé”. Não notaram que não estou vestida de executiva, e que não se trabalha nesse prédio sem um belo tailleur. Talvez tenham percebido apenas o decote da minha blusa de seda branca. E se deram por satisfeitos.
Ainda absorta em meus pensamentos, ouço o ascensorista olhar para o alto e bradar:
17! Saio intrigada com o fato de que quase todos, no elevador, olhavam o tempo todo para o alto. Concluo definitivamente: nem mesmo minha blusa notaram.
Espiando lá em baixo, tento compreender o movimento da Rio Branco. São 16 horas. Daqui do alto me suponho no papel de uma deusa, de um ser superior, cujas mãos pudessem comportar poder sobre vidas e destinos. Então, se assim fosse, o que eu faria? Pararia a Rio Branco? Faria as pessoas lá embaixo repararem melhor umas nas outras? Já sei... faria todos se abraçarem, se unirem em um protesto pacífico contra todo tipo de guerra e violência. Ah, mas nada disso seria necessário. Tão poderosa assim, eu – direto - poria fim às guerras e a toda forma de dor e injustiça. Proclamaria o amor. Decretaria a paz, dando força a todo sentimento bom e, assim, destruiria o mal. Isto alcançaria não só a Rio Branco, mas todo o Rio, o Brasil, o mundo inteiro.
E se não for possível ser feliz sem dor? E se a angústia for necessária à plenitude da existência? Imagino que existir sem angústia é existir sem emoção e sentido, como a vida sem a morte, o som sem o silêncio. E se para tudo há um oposto que o complementa, no lugar de acabar com a angústia o melhor seria aprender o seu manejo. E o poder, que me imagino tendo, serviria para multiplicar as sementes da paz. Entretanto, minha sincera vontade nesse momento seria usar algum poder que me trouxesse Charles de volta, mas não como antes. Já que posso escolher livremente, gostaria de tê-lo liberal em relação às minhas manias e predileções.
Acho que estou egoísta, e amar é o contrário disso. Charles é meu contrário, e esse tipo de amor só emplaca quando aprendemos a renunciar, a abrir mão. Não sei se dá para ser moderna, valente, politizada ... e amar.      Ele não quer, definitivamente não quer, que vivamos em casas separadas. Sem perceber preferi me separar dele à minha nova casinha. Pensei que sair da casa seria como separar de mim mesma. E agora não quero mais a casa, mas ele.
Nunca pensei, forte como sempre me soube, parar um dia no 17º andar de um prédio desconhecido só para ruminar dores de separação. De nariz colado na vidraça meus olhos acham a maçaneta dessa grande janela que me separa do abismo. Aqui penso que sou livre, tão livre que posso atirar-me lá embaixo. Nada me impede. Ninguém pode ser protegido de si mesmo. Mas o medo é maior que tudo. Maior que a curiosidade de saber o que é se espatifar no asfalto dessa avenida. Maior que o imã que me atrai. Agradeço meu medo. Sinto que vou chorar. Mas antes disso acontecer, resolvo sair do prédio.
Desço em um elevador ainda mais lotado, porém mais silencioso. Agora ninguém cita qualquer número. Todos vão para o térreo. Mas também não avisam. Acho que não precisa. Gente compenetrada, cansada de mais um dia de trabalho. Eu, frila, sinto que me falta um contrato a cumprir, um horário a obedecer. Talvez assim não tivesse tempo de pensar. Quem não sabe pensar, não sabe sofrer. Charles não sofre.
A porta se abre. O povo sai quase que em um só bloco. Todos, como sempre, apressados. Também isto me diferencia. Subo a Rio Branco. Contemplo a bela arquitetura do Teatro Municipal. Do outro lado, a Biblioteca Nacional. Caminho pelas escadarias da Câmara e depois me sento em um barzinho para tomar um chope. Peço uma água, não muito gelada. Eu devia comer alguma coisa, mas não quero nada. A comida disfarçaria a dor de uma solidão que quero sentir até o fim. Preciso dar o máximo de atenção ao meu sofrimento, pois talvez a solução esteja em algum ponto cego desse meu drama interno, e esse ponto me escapa se não me mantenho atenta.         
Ando pela Lapa, Arcos da Lapa, e entro na sala Cecília Meireles. Um pianista ensaia um andante que me atrai. Aproximo-me para ouvir melhor, como que hipnotizada por aquele teclado suave e reconfortante. Sento-me em uma poltrona na última fila e de olhos fechados recosto a cabeça em um braço macio.
De repente me sinto bem, muito bem. Tenho a sensação de sentir o perfume de Charles. Mantenho-me de olhos fechados para não me fugir à memória essa fragrância que dá tanta saudade. Alguém me beija os lábios.
Sem entender, mas já desfrutando e me entregando a essa sensação, tão surpreendente quanto agradável, escuto a voz de Charles dizer: caminhemos.
(Autor: Walmir Monteiro. Email: monteiro.walmir@gmail.com)