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domingo, 28 de outubro de 2012

O "acontecimento", Deleuze


"Então não se perguntará qual o sentido de um acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido. O acontecimento pertence essencialmente à linguagem, mantém uma relação essencial com a linguagem; mas a linguagem é o que se diz das coisas."
"Em todo acontecimento, há de fato o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é designado quando se diz: pronto, chegou a hora; e o futuro e o passado do acontecimento só são julgados em função desse presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e pré-individual, neutro, nem geral nem particular, eventum tantum...; ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel que o representa, sempre desdobrado em passado-futuro, formando o que convém chamar de contra-efetuação. Em um dos casos, é minha vida que me parece frágil demais para mim, que escapa num ponto tornado presente numa relação determinável comigo. No outro caso, sou eu que sou fraco demais para a vida, a vida é grande demais para mim, lançando por toda a parte suas singularidades, sem relação comigo nem com um momento determinável como presente, salvo com o instante impessoal que se desdobra em ainda-futuro e já-passado."

ZOURABICHVILI, F. - O Vocabulário de Deleuze, Traduçao André Telles. Rio de Janeiro 2004, p. 06.

sábado, 8 de setembro de 2012

CRACOLÂNDIA: ABANDONO E DROGADICÇÃO



Por: Walmir dos Santos Monteiro
           
         - Vamos te levar para um lugar.
         - Mas eu quero esse lugar aqui.
         - Vai ser um lugar legal.
         - Você não achou aqui legal?

         Este breve e inicial diálogo entre uma Assistente social e uma menina, travado em plena “Cracolândia paulista”, me lembrou a história de Jean Genet, conforme contada e analisada por Sartre[1].
         “A Cracolândia é um lugar legal”. Dizia aquela menina de não mais que 11 anos. O nome Cracolândia lembra infância, liberdade e diversão. Como uma Disneylândia má e traiçoeira, Cracolândia nos lembra um veneno chamado crack. E toda droga, da mais leve até a mais pesada, sustenta o paradoxo do veneno doce, que te adoça enquanto te mata[2].
         A terra do Disney e a terra do crack sustentam curiosas semelhanças e diferenças. Ambas fomentam a ilusão. A Disneylândia diverte os abonados, a Cracolândia os abandonados. A Disneylândia é o sonho, a Cracolândia o pesadelo. Na Disneylândia se fala uma língua que nem todos entendem, na Cracolândia há uma linguagem incompreensível, surda, entorpecente, impiedosa.
         Se Jean Genet vivesse por aqui e em nossos tempos, certamente se afundaria na Cracolândia. Quem foi Genet? Um menino abandonado pela mãe ao nascer, que viveu perambulando pelas ruas de Paris até ser adotado aos 7 anos por um casal de camponeses, mas desde cedo Jean decidiu encarar o mundo de modo desafiante. Rompeu com os pais adotivos e saiu daquela casa que não lhe servia mais de parâmetro e orientação. Jean queria as ruas, queria o mundo, buscou a marginalização, um modo de ratificar e autenticar seu abandono, seu não pertencimento, optando por uma identidade destrutiva e afrontadora. É como se assumisse o seu nascimento como um gesto de recusa por parte da mãe, quando dela foi expulso no exato momento em que foi posto no mundo. Jean confrontou-se com a sociedade e naturalmente foi por ela repelido, uma rejeição social que teve seu nascedouro na recusa materna, tornando-o maldito desde o seu nascimento. Sartre teve por hipótese que Jean ao ser enviado para uma família no campo aprendeu o respeito absoluto à propriedade, assimilando que somente se pode ser herdeiro por meio de uma legitimidade que ele não possuía. Sentia-se, pois, inoportuno, excedente.
         A cracolândia é um espaço de propriedade e identidade, é como se a criança de rua pudesse finalmente assimilar algo como sendo seu. Um território demarcado como maldito, lugar dos malditos. E neste sentido há um resgate não da família, mas da familiaridade, e o crack se impõe como um veículo de fuga, de transcendência e de enfrentamento. A droga anestesia a trágica percepção da realidade de isolamento social que se impõe a uma personalidade em formação. Carente de bases e de instrução, carente principalmente de aceitação, o menino sofre a condição de solitário. O crack substitui o pai, a mãe, o afeto. E também o torna defensivo, agressivo, lutador em prol de si mesmo, ou do que resta de si mesmo.
         O homem é capaz de criações admiráveis, como o trem-bala japonês J. R. Magley que chega a romper impressionantes 580 quilômetros por hora; a construção de prédios como o Burj Dubai nos Emirados Árabes de inacreditáveis 512 metros de altura e 141 andares, projetar minúsculos aparelhos eletrônicos que são gigantescos em suas múltiplas capacidades; sem esquecer a surpreendente Medicina de alta complexidade que atinge feitos inimagináveis, além das conquistas da Biologia Molecular e outros exemplos que ilustram o incontestável poder humano em toda sua ousadia, inteligência e imaginação.
         Mas a contradição é que seremos capazes de decifrar toda a sequência do genoma humano, mas não de exterminar do mundo a fome, o desemprego e a corrupção. Ainda estamos longe da conquista de pequenas e essenciais coisas, como a capacidade de agir sempre com respeito, educação e cordialidade diante de nossos semelhantes, e também de nos livrarmos de uma série de vícios que nos escravizam.
         A humanidade hoje é muito mais conhecida por sua avidez por novidades do que por seu respeito aos valores humanos; é mais rapidamente identificada por sua voracidade ao consumo do que por qualquer preocupação com a preservação do meio-ambiente.
         É, pois, nesse cenário que vive o homem atual: numa sociedade de consumo que se dá a conhecer como “sociedade consumida”, já que (nela) tudo vira produto, e ela própria também se vê num processo autofágico, onde todos são a um tempo consumidores vorazes e produtos expostos ao consumo, na típica sociedade onde só possui valor aquilo que pode entrar para a categoria de produto.
         Assim, riquezas imateriais como respeito, ética, honestidade e solidariedade não alcançam valor de mercado, e então se tornam mercadologicamente inúteis.
         Ao lado disso, crescem os setores da sociedade que buscam inocular em nosso meio mais valores humanos e sociais. Tais setores são minoritários, pouco acatados na prática, embora obtenham respeito aos seus discursos. Tornou-se, assim, politicamente correto elogiar Institutos do Terceiro Setor, o Greenpeace, o WWF, e iniciativas similares como as relacionadas à reciclagem do lixo e cuidados com a água potável.
         Mas o debate sobre a toxicomania nos leva à percepção de que faltam organizações que lutem pela defesa “ecológica” do homem contra a poluição das drogas, por exemplo. Parece-nos um tanto contraditória a atitude de bradar contra a destruição das florestas, rios, peixes e flores e esquecer-se de incluir nessa lista o homem. Não faz o homem parte dessa linda natureza? Se não desejamos que sirvam lixo aos peixinhos porque também não protestar contra a ingestão de drogas? Não é também o homem um ser vivo merecedor de iguais cuidados?
         Nossas reflexões, por outro lado, nos levam a compreender a drogadicção como uma busca do ser, uma necessária passagem, um caminho indispensável (para alguns) ao encontro do ser, de seu próprio sentido de vida. Na teoria organísmica entendemos o sintoma como um modo de o sujeito buscar equilíbrio, e para a fenomenologia-existencial o sintoma não é algo a ser eliminado, mas analisado para que compreendamos a subjetividade de alguém que dele necessita para seguir em frente, para ser, para adquirir sentido e identidade.
         Sartre (1943/2000) ao propor reflexões sobre o corpo diz que o primeiro problema é que consideramos o corpo como uma coisa separada, dotada de leis próprias, e quando tento unir minha consciência ao meu corpo, o corpo que vem à minha consciência não é o meu, mas o dos outros, já que os órgãos que vejo são os dos outros. O meu corpo, tal como é para mim, não me aparece no meio do mundo, todavia, mesmo os meus membros externos são vistos como exteriores a mim. Quando toco minha perna, ou quando a vejo, estou presente a ela sem que ela seja eu. Assim, aquilo que faço existir é a coisa perna, e não a perna como possibilidade que sou de andar, de me mover, de correr. Em certo sentido é assim que o drogadicto faz: submete o seu corpo à droga como submeteria ao relento um objeto qualquer de sua propriedade, que ele não quisesse mais. É como se dissesse do alto de uma compreensão dualista cartesiana: este corpo não sou eu. É como se ele quisesse tornar possível separar-se do corpo, alienando-o, abandonando-o e por fim usando-o para resgatar-se na dimensão de um eu que não abarca a corporeidade.
         A ontologia fenomenológica apresenta o Em-si e o Para-si como seres que respectivamente pertencem ao mundo das coisas e ao mundo dos homens, sendo o Em-si a classe de seres providos de essência e desprovidos de consciência; já o Para-si é a classe de seres providos de consciência e desprovidos de essência já que a sua essência se faz e se refaz permanente e cotidianamente em cada uma de suas escolhas e atitudes. Uma das características existenciais do homem (Para-si) é que a angústia, seu fundamento, toma conta do seu ser, e isto se dá – entre outras coisas - porque ele tem consciência da sua finitude, do absurdo da existência, e que é o único responsável por suas escolhas e que são as suas escolhas que o tornam quem é.
         Diante da angústia surge uma tentação: entrar na condição em si e recusar a consciência, a liberdade, a responsabilidade, enfim, a minha existência. Ao entorpecer-me destruo minha capacidade de escolha responsável e elimino minha plena consciência. Perdendo a capacidade de decidir igualo-me ao ser Em-si. Mesmo por algumas horas, livro-me da angústia da minha existência e igualo-me às coisas, aos animais, aos vegetais. Isto é drogadicção.
         Este processo pode ser dar de modo gradual. Enquanto o sujeito consegue fazer um uso eventual, casual e recreativo da droga, ele é apenas um usuário. Mas pode chegar uma fase de plena perda do poder de decisão e aí o sujeito se vê claramente arrastado pela sua compulsão e se esquece das rédeas, perde o controle. Como um cavalo cujo montador descobre que as rédeas se soltaram de suas mãos e nada consegue fazer para resolver a situação. O animal corre cada vez mais velozmente e ele nada faz além de contemplar essa corrida louca, rumo ao abismo.
         A compulsão é um processo de escravização ao hábito. Conhecemos o que são hábitos, saudáveis e não saudáveis, mas o que caracteriza a compulsão não é exatamente a qualidade do hábito, mas a incapacidade de gerenciá-lo, de criticá-lo, de controlá-lo.
         Lavar as mãos é um hábito bem saudável, mas há pessoas escravas do “lavar as mãos”, elas são portadoras de um transtorno obsessivo-compulsivo que as obriga a lavar as mãos repetidas vezes, sob pena de sofrerem consequências graves, até mesmo trágicas, se interromperem esse ritual diário.
         O mesmo homem que exalta a primazia da liberdade e que é capaz de grandes feitos tecnológicos e científicos curva-se à droga e à bebida, e troca sua existência e liberdade por um pouco de pó ou por uma pedra de crack que o conduzem a um estado coisificado.
         Sabemos que o maior desafio social das comunidades é por qualidade de vida para todos. Desta forma, a liberdade de ser, de se expressar e de viver a vida com qualidade e dignidade, passou a ser primazia. E isto não é novo, surgiu com o Humanismo no século XIV. Muito antes disso, porém, o cristianismo já demonstrava o tanto de privilégios destinados ao homem, quantas possibilidades, mas também quantas responsabilidades.
         Nossos debates sobre o problema da toxicomania e suas consequências humanas e sociais circulam em torno de pontos sobejamente conhecidos, mas sem a necessária transcendência que nos faça agir com a eficácia e a urgência que o tema merece.
         Algumas questões sobre as drogas, seus usos e abusos são consensuais e bem conhecidas. Entre elas constam que:
  1. As drogas jamais acabarão.
  2. Depois de instalada a dependência é muito difícil a sua eliminação.
  3. Maconha e álcool são portas de entrada para drogas mais pesadas.
  4. Anfetaminas, remédios para emagrecimento, fazem mais mal do que bem.
  5. É preciso prevenir, porque a melhor saída para as drogas é jamais entrar.
Embora devamos combater o uso e o tráfico de drogas, sabemos de antemão que elas jamais acabarão. E para isso precisamos compreender que droga como aqui nos referimos é qualquer tipo de substância entorpecente, capaz de interferir no funcionamento do sistema nervoso e alterar a conduta.
Neste sentido, desde a cafeína até o rapé, passando pelo tabaco, pela taurina e pelos espumantes – tudo é droga. Contudo, a diferença se estabelece na quantidade e na capacidade de fazer uso de tais substâncias de um modo independente, isto é, sem se tornar adicto (escravo) delas.
Mas, como em uma roleta russa, não temos como saber de antemão quem desenvolverá dependência e quem conseguirá manter um uso sempre responsável dessas substâncias capazes de alterar o comportamento e desenvolver relações compulsivas.
Lidamos com índices de recuperação baixíssimos, exatamente porque se trata de uma patologia de prognóstico sombrio. E neste sentido são altas as taxas de óbito por overdose ou por doenças decorrentes de uma debilitação progressiva do organismo, isto sem falar, nas contaminações por HIV em função do uso de seringas contaminadas e a prática sexual sem proteção devido ao rebaixamento da censura e do cuidado preventivo que acompanham a drogadicção.
A maconha há muito tem sido considerada uma droga inofensiva, e de fato sabemos que ninguém morre por overdose de maconha. Contudo, além das pesquisas que mostram a responsabilidade dessa droga alucinógena na deflagração da psicose em pacientes predisponentes, e além da aliança que os estudos fazem entre maconha, adinamia, preguiça e falhas da memória recente, tem-se por certo que a maconha é porta de entrada para o uso de outras drogas, como a cocaína, por exemplo. Em nossa prática clínica, em um universo de cerca de 400 dependentes de cocaína, detectamos que 90% tinham começado pela maconha.
E em relação ao álcool, talvez um dos maiores problemas na redução do alcoolismo seja a grande simpatia que essa droga desfruta nos meios sociais. As pessoas se envergonham de fumar, mas não de beber. Posar segurando garrafas de cerveja ou abraçando uma torre de chope tornou-se algo glamoroso. Fica difícil fazer prevenção a uma droga tão letal quanto simpática.
Há um combate, em forma de campanhas, dirigido ao tabagismo que não se repete com o alcoolismo. Por alguma razão, o álcool é quase que “louvado” em nossa sociedade, sendo que governos e profissionais de saúde e educação deveriam enfatizar mais a necessidade de prevenção ao alcoolismo.
Pesquisas[3] dão conta da redução do tabagismo, revelando que o número de fumantes no Brasil está abaixo de 15% da população brasileira. A incidência de homens fumantes – ainda maioria – reduziu-se a uma taxa média de 0,6% ao ano. Em 1989, os brasileiros fumantes representavam 35% da população brasileira. Em 2012 são 14,8%. Porto Alegre é a capital com o maior número de fumantes no país, com 22,5% da população local. Na outra ponta da tabela está Maceió, com 7,8% dos habitantes. No Rio, os consumidores de cigarro são 14%.
A mesma pesquisa também mediu o consumo de álcool abusivo entre os brasileiros, e o índice se mantém inalterado desde 2006 com 17% da população. A incidência do consumo abusivo – quatro ou mais doses de álcool em um único evento nos últimos 30 dias – é maior entre os homens (26,2%), quase três vezes mais do em mulheres (9,1%).
Esta pesquisa comprova que quando se dá verdadeira atenção a qualquer problema de saúde que atinge a população, conseguindo unir toda a sociedade e influenciando a opinião pública, os resultados positivos são inevitáveis (caso do tabagismo), mas quando não se faz prevenção, e pelo contrário se fortalece a tendência de glamorização de determinada droga (caso do alcoolismo) o resultado é a estagnação mostrada pela pesquisa. E a propósito dessa dita estagnação, é preciso sinalizar que segundo esse levantamento, o uso denominado abusivo não diminuiu nem aumentou, mas, certamente, aumentou significativamente, em termos gerais, o consumo de bebida alcoólica no país nesse período pesquisado.
Uma das características comportamentais do homem pós-moderno é o desejo de soluções instantâneas. Parece que a tecnologia com suas fantásticas inovações e criações nos convenceu de que tudo pode ser resolvido em um instante, basta que se pague por isso. Neste sentido o desejo de emagrecer não tolera o esforço da reeducação alimentar e da disciplina da prática de exercícios. Por que tanto esforço se posso comprar uma caixa de anfetaminas e emagrecer rapidamente? Ilusão. É fato que emagrece, mas também é fato que destrói a saúde. Não se consegue manter a ingestão de tanta droga por tanto tempo e acaba-se engordando tudo de novo.
Fala-se muito em prevenção, mas faz-se pouca prevenção, ou quase nenhuma. Os discursos são politicamente corretos, mas a prática é a da omissão. A sensação que passa é que não se sabe fazer prevenção, no lugar disso surgem aqui e ali campanhas inócuas cuja base é propagar o clássico e ineficaz “diga não às drogas” em campanhas que em geral querem ensinar que drogar-se faz mal, mas isso todo mundo sabe. Necessário se faz que as bases da drogadicção sejam trabalhadas. São elas:
1.Uma legislação que limite a propaganda de bebidas alcoólicas da mesma forma que foi feito com o tabaco e deu certo, pelo menos constam expressivos números de redução do consumo de cigarros de tabaco;
2.Limites à prescrição de anfetaminas e a efetiva proibição da circulação em território nacional (Lei Federal) do fepronporex e anfepramona, entre outras substâncias nocivas já proibidas em diversos países. No Brasil uma medida eficaz seria defini-la como substância de uso exclusivo em hospitais apenas para tratamento de obesidade mórbida (quando o peso de uma pessoa ultrapassa o valor 40 no cálculo do IMC[4]). Isto significa que sua venda seria banida das farmácias, sendo a sua prescrição proibida em tratamentos ambulatoriais;
3. Ações governamentais para uma atenção especializada a moradores de rua, especialmente crianças e adolescentes envolvidos com o consumo de crack, inalantes e outras drogas. Uma das mais felizes iniciativas para o tratamento dessa questão são os “consultórios de rua” que surgiram no fim da década de 1990, em Salvador (BA), para atender a população em situação de risco e vulnerabilidade social, principalmente crianças e adolescentes usuários de álcool e outras drogas. Tal experiência tornou-se referência para novos projetos "Consultório na Rua" previstos no Plano “Crack, é possível vencer”, o qual consolida sua atuação para o encaminhamento de usuários que vivem nas áreas de maior risco social nos espaços urbanos. No “Consultório de Rua”, uma equipe formada por médicos, psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos, presta atendimento aos dependentes químicos diretamente na rua, com o suporte de um ambulatório móvel. A estratégia de abordagem é inspirada na ONG francesa “Médicos do Mundo”, que atende moradores de ruas e prostitutas em ônibus equipado como se fosse uma clínica. Após um mapeamento para descobrir onde estão concentrados os usuários de drogas, os profissionais fazem a chamada aproximação, intervenção com a população local, com uma equipe disposta a realizar um trabalho paciente, de aproximação, de estreitamento do vínculo, mostrando às pessoas que a equipe está lá para ouvi-las, orientá-las e cuidar delas no que for possível, mas que a população também tem a sua parte, o seu papel, nessa missão. Necessário se faz uma ação global e integral de amplo alcance social que vise a inclusão dessas pessoas, propiciando meios de escolarização, profissionalização e reinserção no mercado de trabalho. É claro que surgirão muitos resistentes a qualquer ajuda, e estes deverão ser alvo de um trabalho ainda maior para a consolidação da comunicação e do vínculo entre a equipe e o cidadão.
Por outro lado, é importante compreender que toda pessoa tem o direito de fazer suas escolhas e neste sentido a oferta de apoio médico e social pode ser recusada. Não cabe à equipe julgar o mérito dessa decisão que é privativa à pessoa.
No caso de crianças, adolescentes e outros incapazes é dever do estado defendê-los e promover ações que os beneficiem, mesmo que ainda não estejam em condições de total compreensão dessa necessidade.
Mas no caso dos adultos, as negociações levam em consideração se a pessoa quer ou não receber informações e orientações dos profissionais, lembrando que o foco do projeto não é que os usuários parem de usar drogas ou aceitem participar de um tratamento, mas que isso seja uma consequência do trabalho feito com eles na rua, uma vontade que deve partir do indivíduo e não da equipe profissional.
4.Programas sistemáticos em prevenção ao uso indevido de drogas criados por especialistas e voltados a crianças e adolescentes de 12 a 18 anos, aplicados nos colégios das redes pública e particular.
Fala-se pouco em prevenção e parece que o poder público somente age diante de certas situações quando elas se encontram em um estágio insustentável, tornando impossível a continuidade da omissão, sob pena de incontornável agravamento social e político da situação.
Em segundo lugar é necessário que se disponha de pessoal realmente qualificado para todas as ações desde a prevenção até o tratamento terapêutico, passando pelas abordagens realizadas pelos “consultórios de rua”. Observamos que na maioria das vezes em que se vão implementar ações em dependência química, o improviso e o amadorismo dão o tom. Precisamos ser mais profissionais.
Além disso, as famílias dos dependentes de crack e de outras drogas precisam ser alvo das nossas ações e atenções. De acordo com conclusões de uma pesquisa sobre o perfil dos usuários de crack no Abrigo de Paciência no Rio de Janeiro[5], a maioria dos usuários são homens entre 15 a 25 anos que além de apresentar um histórico familiar de moradia nas ruas, são pessoas que sofrem com a falta de estrutura familiar e estão à margem da sociedade.
As pesquisas revelam perfis de acordo com o local em que as mesmas são realizadas. A busca de conhecimento da realidade dos usuários em regiões de maior poder econômico revela que embora o crack seja a droga mais usada por moradores de rua, o seu uso não é mais restrito a redutos pobres e marginais: usa-se crack em todas as camadas sociais. Toda a sociedade, portanto, está envolvida nessa temática. Acabaram-se os guetos, ampliaram-se os grupos de risco, ninguém está a salvo.
Nossa esperança é que cresçamos enquanto cidadãos para uma nova compreensão dos temas aqui lançados, pondo de lado preconceitos, fundamentalismos e fantasias que impedem uma ação reflexiva, centrada; ao mesmo tempo lúcida, compreensiva e contundente, porque o problema avança, e ele é da nossa estrutura, da nossa conjuntura, da nossa subjetividade social.
O curioso paradoxo é que lutamos contra uma artificialidade e um mal que surgem da nossa natureza e do nosso bem, do nosso querer viver a aventura da vida, da nossa necessidade de encontrar sentido. Lutamos contra um mal que sabemos histórico, perene e imanente. Não lutamos contra substâncias e objetos, mas contra nós mesmos, contra a nossa incapacidade de identificação e conscientização do verdadeiro preço desse voo compulsivo em direção à destruição do ser que desejamos construir.


[1] “Saint Genet: ator e mártir”. Jean-Paul Sartre. Ed. Vozes
[2] Monteiro, W. Solitude. In: Crônica Existencial (2007)
[3] Ministério da Saúde (2012)
[4] Para fazer o cálculo do IMC basta dividir seu peso em quilos pela sua altura ao quadrado (em metros). O número que será gerado deve ser comparado aos valores da Tabela IMC, para se saber se você está abaixo, em seu peso ideal ou acima do peso.
[5] Jornal O Globo, 22/05/2012

domingo, 1 de abril de 2012

GESTALT-TERAPIA E FILOSOFIA


        
**Georges Daniel Janja Bloc Boris

            Esta conferência parte de uma dupla constatação: por um lado, minha crença na gestalt-terapia como uma abordagem psicoterápica viável, mas, por outro lado, o reconhecimento de uma prática freqüentemente superficial e tecnicista. Acredito que isto se deva, em grande parte, a um parco conhecimento da fundamentação teórico-filosófica, o que leva, muitas vezes, a uma dificuldade de ‘leitura’ dos processos psicoterápicos vivenciados. Para tanto, acredito ser necessária a retomada de nossa fundamentação teórico-metodológica. Assim, gostaria de partir de uma breve revisão do processo de construção da gestalt-terapia:
 1. Psicanálise. Fritz foi psicanalista durante várias décadas. Após algum tempo na África do Sul, participa do Congresso Internacional de Psicanálise, em 1936, na Tchecoslováquia, onde apresenta o trabalho “Resistências Orais” (mal recebido) e se decepciona com Freud e Reich. Em 1942, em Durban, publica “Ego, Hunger and Aggression: A Revision of Freud’s Theory and Method” (subtítulo apenas suprimido em 1969, na edição americana, o que revela sua inclusão no seio da psicanálise). Nesta obra, destaca a importância da ingestão de alimento físico e mental e sua assimilação (fome); esboça uma teoria do desenvolvimento a partir da agressão oral; enfatiza a importância do tempo presente e as questões das polaridades, do corpo e da síntese de novas experiências; trata da integração entre a vida pessoal e profissional do psicoterapeuta, pela qual batalhou sempre; destaca a necessidade conhecimento sobre semântica; propõe uma terapia de concentração (Shepard, 1977).
            Destaque-se que esta obra ainda não foi publicada, por razões obscuras, em português, mas que se trata de um texto fundamental para a compreensão do que vem a ser a gestalt-terapia, sendo um dos escritos mais consistentes de Fritz. Goste de destacar a necessidade de revisão de nossos vínculos e de nossa diferenciação com a psicanálise, por exemplo, quanto à questão da transferência.
 2. Pensamento Diferencial (Dialético) e Filosofia Oriental. Nos anos 20, Fritz entra em contato com o filósofo Friedländer, em Berlim, e com sua teoria da ‘indiferença criativa’, que se assemelha ao taoísmo. Esta teoria afirma que “cada evento está relacionado a um ponto-zero, a partir do qual uma diferenciação em opostos ocorre. Estes opostos apresentam em seu contexto específico uma grande afinidade entre si. Permanecendo alertas no centro, podemos obter uma habilidade criativa de ver ambos os lados de uma ocorrência e completar uma metade incompleta” (Perls, 1969, p. 15). Esta influência vai se manifestar no nosso trabalho com as polaridades. Portanto, são necessárias uma revisão de nossa metodologia psicoterápica e uma melhor compreensão das práticas orientais.

3. Holismo, Teoria Organísmica e Psicologia da Gestalt. Por volta de 1926, Fritz entra em contato com a psicologia da gestalt, através de sua futura mulher, Lore Posner (depois, Laura Perls), e com a teoria organísmica, de Kurt Goldstein. Em sua autobiografia (Perls, 1979), Fritz reconhece sua pouca profundidade sobre a psicologia da gestalt, admitindo sua maior ênfase à diferenciação figura-fundo e à idéia de situação inacabada. Sua maior relação se dá com a teoria organísmica, cuja “premissa é que é a organização de fatos, percepções, comportamentos ou fenômenos, e não os aspectos individuais de que são compostos, que os define e lhes dá significado específico e particular” (Perls, 1977, p. 18).
 Em 1951, nos EUA, Fritz publica, com Hefferline e Goodman, e a ajuda de Laura, aquela que é considerada a ‘bíblia’ da gestalt-terapia, “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality”, também não publicada em português. (Pode-se perguntar porque as obras mais importantes e consistentes de Fritz não são publicadas no Brasil). Os limites de Fritz e a publicação desta obra vão se refletir na sua prática grupal, nos anos 50 e 60: uma psicoterapia individual pelo (centrada no psicoterapeuta) grupo. Fritz parecia fazer um trabalho não compreensivo das potencialidades psicoterápicas do grupo. Nos anos 70 e 80, alguns seguidores de Fritz (Feder & RonalI [orgs.], 1980) passam a trabalhar com os níveis intrapessoal, interpessoal e grupal (e não apenas o nível individual, como fazia Fritz) e a elaborar teórica e praticamente as regularidades e fases grupais (dependência, contra-dependência e interdependência).
Assim, acredito ser necessária uma melhor compreensão dos fenômenos e processos grupais, sugerindo a concepção dos grupos como comunidades cooperativas vivenciais (além dos aspectos psicoterápicos).
 4. Fenomenologia e Existencialismo.
 a) Fenomenologia. Esta proporciona a metodologia básica de todas as abordagens existenciais. Fritz, infelizmente, em 1946, vai para os EUA e enfatiza a divulgação da gestalt-terapia como criação sua e negligencia teoricamente as raízes metodológicas da mesma.
 . Brentano (1838-1917). Mestre de Husserl e precursor da fenomenologia, propõe um empirismo diferente do empirismo inglês (que observa vários fatos e abstrai e generaliza as notas comuns): toma “um único caso” e busca ver o que nele é essencial (em que consiste, sem o qual não é), obtendo a essência do fenômeno. Isto se manifesta na gestalt-terapia quando ficamos com o que está, com a pessoa que temos à nossa frente e não com a sua classificação, a partir de uma generalização. O nome de Brentano também está associado à psicologia do ato (ou processual), em oposição ao estruturalismo (psicologia dos conteúdos): a psicologia deve estudar os atos ou processos mentais (psíquicos) da pessoa e não os conteúdos ou objetos (físicos). Isto se manifesta na gestalt-terapia na preponderância do como sobre o porquê. Brentano trata da intencionalidade dos fenômenos psíquicos, num prenúncio da fenomenologia, desenvolvida por Husserl.
 . Husserl (1859-1938). Matemático, Husserl aproxima-se da filosofia através de Brentano. Em sua época, Marx, Freud e Nietzsche ainda não tinham a força que viriam a ter. A filosofia se volta para as ciências positivas, as matemáticas, enfatizando a objetividade e abandonando na especulação e a intuição. A psicologia tentava ser uma ciência exata, adotando o método das ciências naturais, eliminando a subjetividade e a intuição.

            Husserl critica a psicologia da época por adotar esta metodologia sem perceber que seu objeto é diferente. Diz que temos um acesso indireto à natureza (objeto das ciências naturais), a partir de fatos hipotéticos, que permitem uma reconstrução e, portanto, uma explicação, isto é, a criação de leis e causas. A vida psíquica, por sua vez, é um dado imediato, ao qual temos acesso apenas através da descrição, permitindo a compreensão do fenômeno ou do processo. A partir disso, propõe uma Fenomenologia que reúna os dados da experiência em sua totalidade (fenômeno) e o pensamento racional (logos).
                 Ora, os fenômenos nos são dados pelos nossos sentidos, mas estes são dotados de um sentido ou essência. Para tanto, Husserl propõe uma intuição originária, da essência ou dos sentidos, ou “retorno às coisas mesmas”, que define como “a visão do sentido ideal que atribuímos ao fato materialmente percebido e que nos permite identificá-lo”. Isto se revela na gestalt-terapia através de uma atitude não interpretativa, na busca do sentido do fenômeno pelo cliente, através de sua identificação e assimilação das partes alienadas, por exemplo, no trabalho com sonhos e fantasias.
                Husserl propõe, também, o principio da intencionalidade: a consciência é sempre “consciência de alguma coisa”, estando “dirigida para” um objeto, que é sempre “objeto para um sujeito”, isto é, a existência intencional dos objetos na consciência. A ênfase ao que está presente à consciência é uma amostra deste princípio na gestalt-terapia.
          Baseado também na totalidade consciência-objeto, Husserl sugere a análise intencional, que não significa que o objeto esteja contido na consciência, mas que só tem seu sentido para uma consciência. Esta difere do senso comum, pois não existe objeto em si, mas objeto percebido, pensado, imaginado etc. Consciência e objeto não são entidades separadas, mas formam uma relação co-original. Para tanto, é necessária uma redução ou abstenção fenomenológica (“epockhé”), uma colocação entre parênteses da realidade tal como a concebe o senso comum (como existindo em si, independente de todo ato de consciência), ou seja, uma suspensão dos “a priori”, pressupostos e pré-conceitos. Isto se revela na gestalt-terapia em uma atitude de empatia, de não avaliação, de ênfase no óbvio.
 . Merleau-Ponty (1908-1961). O psicólogo, antropólogo e filósofo francês tem como tema fundamental a relação entre o homem e o mundo. Analisa as investigações psicológicas das décadas anteriores e busca eliminar a interpretação causal da relação entre corpo e alma, vendo esta relação como uma dualidade dialética de comportamento, expressa em níveis e significados diferentes. Afirma que a consciência é sempre um eu consagrado ao mundo. Seu conceito central é a “carne”, constituidora da inserção da consciência no mundo, dotada de um instrumento para a projeção de um mundo cultural, a ‘linguagem’, um sistema particular de vocabulário e sintaxe, revelador do ser ou de nossa ligação com o ser. Vê o mundo e o homem como sempre ‘abertos’, ‘inacabados’ em seu significado, reenviando sempre para além de suas manifestações determinadas. São dotados de ‘ambigüidade’. De acordo com Rezende (in: Forghieri [org.], 1984), Merleau-Ponty propõe critérios para a constituição de uma psicologia fenomenológica:
- humana: pois estuda o homem em não os animais ou um mundo inferior;
- estrutural: estuda as diversas experiências humanas na integração de diversos níveis, mundos e formas (estruturas);
- dialética: reconhece a pluridimensionalidade existente no interior da existência, em oposição ao psicologismo, que reduz os sentidos do humano a apenas alguns aspectos;
- simbólica: pois o mundo é o mundo do símbolo, caracterizado pela polissemia (vários significados) e pela encarnação (tornar ‘carne’) do sentido. Nenhum sentido esgota a polissemia do homem;
- existencial: pois não é uma teoria apenas sobre o humano, mas um estudo sobre seu existir concreto (comportamento); acompanha não só as etapas já vividas, mas apreende atualmente (presente) o sentido do que está sendo e do seu vir-a-ser (futuro). A fenomenologia de Merleau-Ponty, finalmente, preocupa-se com a essência das coisas, mas recolocando a essência na existência; melhor dizendo, preocupa-se com a essência (do) existente.
 b) Existencialismo. Proporcionou maior concretude à metodologia fenomenológica através de sua aplicação às questões da existência humana.
 . Kierkegaard (1813-1855). “Pai do existencialismo”, este filósofo cristão desenvolveu suas idéias a partir de sua existência pessoal, rejeitando qualquer sistematização e superenfatizando a subjetividade e a existência pessoal. Isto se revela na gestalt-terapia em sua negligência à objetividade, à existência coletiva e à necessidade de teorização sistemática.
 . Nietzsche (1844-1900). Filósofo “maldito” e, portanto, influência pouco explorada na gestalt-terapia, é “pai” da vertente existencialista materialista, tendo seu nome ligado às idéias do “Super-Homem” (homem auto-atualizado), de “vontade de potência” (plenificação e retomo da vida) e do “trágico” (integração entre os aspectos “dionisíaco” - de Dionísio, deus da música, da embriaguez e da ultrapassagem dos limites - e “apolíneo” - de Apolo, deus da bela forma, da escultura, dos limites individualizantes e da lucidez) (Fonseca, 1988). Estes aspectos podem ser percebidos na gestalt-terapia na crença na capacidade de auto-atualização humana e a expressão da totalidade caos-ordem nos grupos vivenciais.
 . Buber (1878-1965). Filósofo judeu que desenvolveu a categoria do diálogo (Buber, 1977; 1982) como a integradora entre a vivência e a reflexão e propiciadora da criação de comunidades humanas. Trata das atitudes básicas da existência humana: a atitude Eu-Tu, caracterizada pelo envolvimento e dotada de reciprocidade, imediatez, presença e responsabilidade (plenamente enfatizada pela gestalt-terapia); e a atitude Eu-Isso, caracterizada pela separação ou distanciamento e necessária para a produção teórico-científica (negligenciada ou mesmo rejeitada na gestalt-terapia). Assim, a gestalt-terapia como uma psicoterapia baseada no encontro existencial seria dotada de dois movimentos: relação (Eu-Tu) e distanciamento (Eu-Isso), sem os quais não se caracteriza como tal, uma vivência da teoria e uma teorização da vivência.

. Heidegger (1889-1976): filósofo que desenvolveu a concepção de “Dasein”, o “ser aí”, determinado no tempo e no espaço, singular concreto, que pergunta pelo sentido do Ser, o homem. Suas características seriam a facticidade (um ser de fato, dotado das coisas do mundo), o “ser com” (o fato de conviver com outros “Dasein”) e a temporalidade (através da qual realiza a sua essência). Suas categorias básicas ou “existentialia” seriam o entendimento (negligenciado pela gestalt-terapia), o sentimento (enfatizado pela mesma) e a linguagem (destacada por Fritz, mas pouco enfatizada pela gestalt-terapia). A autenticidade seria exatamente a realização destes “existentialia” (Penha, 1984).
 . Sartre (1905-1980). O grande nome do existencialismo é pouco citado por Fritz, mas poderíamos nos referir à sua noção de “projeto” (o homem como próprio construtor de sua essência) e de “responsabilidade” (habilidade de resposta).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 FEDER, B. & RONALL, R. (orgs.) Beyond the Hot Seat: Gestalt Approaches to Group. New York: Brunner/Mazel, 1980.
FONSECA, A.H.L. da. Grupo: Fugacidade, Ritmo e Forma. Processo de Grupo e  Facilitação na Psicologia Humanista. São Paulo: Ágora, 1988.
PERLS, F. S. Ego, Hunger and Aggression: The Beginning of Gestalt Therapy. New York: Random House, 1969.
_____. A        Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
_____. Escarafunchando Fritz: Dentro e Fora da Lata do Lixo. São Paulo: Summus, 1979.
REZENDE, A. M. de. “Fenomenologia e Dialética” in: FORGHIERI, Y. C. (org.) Fenomenologia e Psicologia. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1984.
SHEPARD, M. Fritz Perls: La Terapia Guestaltica. 1. ed. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1977.
 

* Conferência apresentada ao I Encontro Norte-Nordeste de Gestalt-Terapia, em Recife, de 29/11 a 02/02/1990.
** Psicólogo (UFC, 1981), gestalt-terapeuta (treinamento com Gercileni Campos, 1987), professor e supervisor em psicologia clínica (UNIFOR, 1985), mestrando em educação (UFC, dissertação “O Processo de Cooperação na Psicoterapia de Grupo em Gestalt-Terapia”).

quarta-feira, 7 de março de 2012

O exemplo de Jean Genet


JEAN GENET
Embora traduzida em grande parte para o português, a obra de Jean Genet (1910-1986) é infelizmente ainda pouco lida no Brasil, seu teatro relativamente pouco encenado, sua vida pouco conhecida. Aliás também na França. Não sei bem a que se deve o “esquecimento”. É verdade que seus livros são, se não desviadores, desconcertantes, aventuras perigosas, principalmente para o leitor sensível à sua prosa, que mimetiza e recria poeticamente um mundo cão, da vida no limite, da luta pela sobrevida nas margens da sociedade. É fato que a leitura de seus romances, peças, textos militantes, por diferentes razões, raramente deixa indiferente. Como escreve Juan Goytisolo, amigo do escritor: “Conocer íntimamente a Genet es una aventura de la que nadie puede salir indemne. Provoca, según los casos, la rebeldía, una toma de conciencia, afán irresistible de sinceridad, la ruptura con viejos sentimientos y afectos, desarraigo, un vacío angustioso, incluso la muerte.”1
A alta qualidade de sua poesia, seu grande talento literário, me parecem inegáveis. Justamente o que é traiçoeiro. Não se deixar completamente enfeitiçar por sua bela prosa, manter a distância necessária para que não haja uma identificação mimética ritual com o regime do limite, no qual se desloca boa parte da obra genetiana, constitui assim uma real dificuldade quando se aborda esta última. Não se trata, no entanto, de obra homogênea. Genet soube transpor magistralmente suas errâncias e experiências das margens em formas literárias capazes de expor com rigor o curso degradado da experiência dos degenerados e renegados da sociedade, e com tal exposição procurou marcar sua oposição a ele. Só que isso não se dá de igual maneira nos romances, nas peças, no último livro. Há então que se distinguir até que ponto em seus escritos a oposição à sociedade burguesa e ao imaginário capitalista é mais que oposição abstrata; até que ponto é superada a visão de seus romances, que marcam a primeira fase do autor, nos quais as normas burguesas e as condições sociais negativas na qual se encontram inseridas suas personagens parecem ser como que “aceitas” enquanto pressupostos necessários à revolta e à subversão.
Num de seus inéditos ensaios “brasileiros” dos anos 60, Gérard Lebrun argumentava – na linha do amigo Foucault, que então colocava no papel os textos que viriam a compor Les mots et les choses – que o ponto nevrálgico dos romances de Genet, todos publicados nos anos 40, não estaria no imaginário de uma mitologia privada, como defendia Sartre em sua canonização de Saint Genet, mas ao contrário na abolição desse mesmo universo representativo através da destruição deliberada da linguagem puramente denotativa, da linguagem das pessoas “normais”2. O que explica, por assim dizer, que Genet reivindicasse para si todos os atributos que lhe colava a sociedade – ladrão, vagabundo, pederasta, prostituto, covarde e traidor – usando-se para tanto do mesmo idioma consagrado por aqueles que desde sempre o condenaram, a saber, o francês mais clássico, cuja inspiração maior, no seu caso, seria a poesia de Ronsard. Não obstante a justeza de tal argumento, Sartre não deixava de ter certa razão quando afirmava que o ideal de uma arte gratuita para Genet “ne vaudrait pas une heure de peine”, ou seja, que cada um de seus livros seria presidido por uma forte preocupação moral.
Filho bastardo, tendo o ingresso à sociedade burguesa lhe sido desde cedo negado, não lhe restou outro desejo senão que o de negar em si próprio o homem da ordem dominante. Por isso, em vez de aceitar passivamente, quieto e submisso, o que lhe fora dado como destino, reivindicou-o conscientemente para si e fez de tudo para levá-lo às últimas consequências. Por aí se entende o lugar central dado à “traição” em suas obras, pela qual ele chega a se desgarrar de seu corpo, de sua vida e de sua própria sensibilidade. É a traição que lhe torna possível arruinar seus amores, desconstruir em permanência sua identidade e se conferir “uma nova dignidade na infâmia, que lhe permite se desprezar mais diligentemente”4. Melhor dizendo: a traição é o meio pelo qual Genet se liberta da máscara caracterial e destroi a personalidade socialmente aceitável, desprezando em sua própria pessoa toda e qualquer remanescência de subjetividade burguesa.
Tal negação no entanto não se dirige às estruturas, ao prático-inerte, pois fica presa ao nível empírico de personagens contingentes. Sem falar que, salvo engano, parece haver algo de patologicamente autodestrutivo aí. Seja como for, essa compreensão primeira, poder-se-ia dizer visceral, da brutalidade normalizada da sociedade burguesa, compreensão sobre a qual se calca sua oposição a esta última, só será devidamente politizada mais tarde, através do contato com Alberto Giacometti. Se nos romances que marcam sua fase inicial o mundo vivido e recriado poeticamente pelo autor é um mundo estático, marcado pela contradição de personagens a um tempo filhos de suas obras e prisioneiros de um destino trágico, inevitável, e pelo fato mesmo devendo ser assumido “livremente” como tal, sob a influência de Giacometti a visão de Genet evoluirá pouco a pouco no sentido de uma remise en question radical da ordem “natural” das coisas. O que num primeiro momento se dará nas peças teatrais, dos anos 50, e em seguida nos textos militantes, dos 70, e no último livro, publicado logo após sua morte em 1986, cuja forma a um tempo fragmentária e épica logra anular todo traço de positividade, segurança ontológica, congelamento social e resolução forçada de contradições e antagonismos. O que visa Genet a partir de certo momento em sua vida é espessar o fundo noturno sobre o qual na modernidade tardia se desenrolaria o fio da história. Resta a saber se essa noite espessa é prenhe de algo diferente ou se ao contrário turva toda e qualquer visão de superação do status quo.
Faz-se necessário, quando se fala em identidade, questão ainda muito em voga, trazer à tona algo que é geralmente escamoteado nas interpretações da obra de Genet. As leituras culturalistas desta, nas quais a homossexualidade do autor aparece como ponto central na compreensão da obra, erram completamente o alvo. Assim como o fato de escrever em francês, no caso de Genet, não indica mais do que a pertença não necessariamente identitária a uma comunidade linguística, de modo algum a uma suposta essência francesa ou latina, também o homossexualismo (o termo de “homoerotismo” me parece no seu caso mais adequado), presente em toda sua obra, não tendo sido vivido pelo autor como identidade sexual, vale dizer, como “homossexualidade”, não deve ser tomado como chave explicativa de seus livros. Numa palavra: Genet não faz literatura gay. Se numa carta a Sartre definiu o homossexualismo como o desejo de não ver o mundo se perpetuar tal qual é, como prática contra o “mais do mesmo”, no mais das vezes preferia não se declarar a respeito, chegando mesmo a dizer, talvez cansado de perguntas ligando sua obra à sua escolha sexual, que toda cena erótica presente em seus livros poderia ser de igual maneira cenas contendo, no lugar de homossexuais, jovens casais heterosexuais, sem que com isso fosse alterada no que quer que seja a carga erótica das mesmas. Porque em Genet, que nunca defendeu abstratamente o sadomasoquismo como o fizeram alguns autores pós-estruturalistas, não há obscenidade – mesmo em Nossa Senhora das Flores –que não venha acompanhada de ternura. Ele canta o amor livre, não o sexo selvagem e desenfreado.
O que boa parte dos críticos, principalmente aqueles ligados aos cultural studies e às gender issues, não consegue enxergar, é que em Genet a identificação – sexual ou outra – é quase sempre negada ou subvertida no nível da forma. Genet explorou como poucos na língua francesa as combinações rítmicas, a equivocidade sonora e semântica, os parônimos e as polissemias. Sua escrita se engendra e progride através de tal exploração; as palavras, os sons e os significados seguem provocando uns aos outros5. O que não impede que tal “método” exigisse do artista que sua poesia em prosa fosse elaborada ao extremo, seu lirismo extremamente consciente. Como diz o próprio num de seus romances: “A poesia é uma visão do mundo obtida por um esforço, algumas vezes esgotante, da vontade tensa, resistente. A poesia é voluntária. Ela não é um abandono, uma entrada livre e gratuita pelos sentidos; ela não se confunde com a sensualidade.” Se o estilo a um tempo suave e sofisticado era para ele o mais apropriado para exprimir emoções profundas e inomináveis, a expressão destas tinha de ser altamente controlada para que se atingisse o resultado desejado. E o resultado é um lirismo e um humor bastante sutis.
É jogando sutilmente com a sintaxe francesa que Genet procura feminizar coisas e atividades tipicamente masculinas – como um fuzil, um canhão, as práticas militares – e com isso desestruturá-las como que do interior, chacoalhando assim o prático-inerte da segurança patriarcal estabelecida. Tome-se como exemplo o uso ambíguo da palavra “sentinela” no início de Um prisioneiro apaixonado7. Cito a passagem em questão no original, pois traduzida, a ambiguidade desejada pelo autor se perde completamente: “En se déplaçant la nuit, sur l’herbe et sur les feuilles, les sentinelles en armes ne faisaient aucun bruit. Leurs silhouettes voulaient se confondre avec les troncs d’arbres. Elles écoutaient. Ils, elles, les sentinelles.”8 O artigo plural “les” em francês designa “os” ou “as”. Na primeira frase, Genet o emprega em contexto indeterminado, precedendo um substantivo também ambíguo, “sentinelles”, que designa a um tempo o masculino e o feminino, e em seguida evita habilmente a locução adjetiva – escreve “en armes” (com armas) e não “armés” (armados) ou “armées” (armadas). Tais artifícios fazem com que o leitor suponha, pela normalidade da coisa, se tratar de homens armados. A terceira sentença porém – “Elas escutavam” – desfaz num só golpe a certeza inicial do leitor, e a quarta – “Eles, elas, as sentinelas” – reintroduz a ambiguidade originária do substantivo. Note-se também a presença repetitiva do morfema “elas”: “Elas escutavam. Eles, elas, as sentinelas.”
Estes e outros arranjos formais, encontrados nas várias obras do autor, tornam possível a revelação da feminidade intrínseca de um termo em geral usado para designar objetos ou atitudes masculinas, de maneira que quebram por assim dizer o referente masculino, no caso, a virilidade referencial do termo “sentinela”. Paradoxalmente, ao sexualizá-las ao máximo, Genet liberta as palavras do vínculo sexual e identitário.
Embora não encarnasse uma qualquer identidade social fixa, ainda que reivindicativa (homossexual, no caso), tampouco chegava a ser um camaleão filosófico à maneira dos foucauldianos, correndo na esteira da contínua redescrição irônica de si mesmos. “Ne me demandez pas qui je suis et ne me dites pas de rester le même”, escrevia Foucault no fim dos anos 60, marcando a recusa de se fixar numa identidade estável, monolítica, o horror em suma de ser localizado e investido por instâncias do poder. Apesar de também recusar a prisão da identidade, Genet pressentira já nos anos 70 a armadilha por trás da falsa liberdade da troca de peles pós-moderna. Em La nuit venue (1976), cenário de filme inédito, a vida do homem ocidental é retratada como uma busca incessante e angustiante de prazer. No entanto, ou por isso mesmo, os indivíduos que no filme não passariam de organismos selvagens desenfreados não mais desejariam o que quer que seja10. Função do imperativo superegóico ao gozo puro através do consumo ilimitado, a cultura do divertimento dirigido, dita “do lazer”, acaba por matar o desejo, anulando-o ou contornando-o todo o tempo, e com ele a capacidade de se imaginar algo melhor que o mar de bugigangas desoladoras no qual se afogam justamente os sonhos e os potenciais humanos rebeldes.
Nos anos 70, Genet disse de seus primeiros livros que o estilo era manifestamente diferente do que viria a fazer mais tarde, mas que o indivíduo que os escrevera era o mesmo. Como entender a coexistência da negação de uma identidade estável – principalmente após o livro de Sartre – e a reivindicação de um certo continuum ontológico que perpassaria toda a obra? Vejamos esta outra declaração: “A revolta de minha infância, a revolta de meus quatorze anos não era uma revolta contra a fé, era uma revolta contra minha situação social, contra minha condição de humilhado.” À primeira vista, parece inegável que a vida toda Genet tenha se revoltaltado contra a sociedade burguesa, não podendo se reconhecer no seio desta a não ser na injustiça absoluta de ter desde criança sido jogado à margem da vida. Razão pela qual se sentia em casa na companhia de marginalizados de toda ordem. O que não o impedia de frequentar também o andar de cima: era visto nos bistrots de Montmartre e nos festivais de Cannes tanto quanto nos guetos e bairros mais pobres das grandes cidades européias. Nunca foi proprietário; quando não estava preso – em geral por roubo de livros – vivia em quartos apertados de pequenos hotéis baratos nas proximidades de uma estação. Nunca teve bens além de uma pequena mala com manuscritos e roupas velhas. Quase todo o dinheiro que ganhava com suas obras vertia a seus amigos marginais: imigrantes, ex-carcerários, artistas menores...
A duplicidade constitutiva do sujeito Genet, a um tempo poète et voyou, como outrora Villon, “explica” por assim dizer sua ambiguidade (para não dizer volubilidade) caracterial: podia ser, com uma mesma pessoa, afável e distante, amante e cruel, amigo fiel e traidor. De certo modo, vem desse caráter constitutivamente dual, embora fosse por ele vivido como uma espécie de jogo, a força, mas também a fraqueza, do personagem. Segundo Sartre, apesar de ter sido aceito pela sociedade por seu talento literário e a despeito de seus crimes, Genet jamais renegaria suas fidelidades, jamais abdicaria de sua condição de “excluído” e marginal. Em toda sua obra aliás se pode notar de forma explícita a recusa de reconhecer no leitor um semelhante. É fato também que seu último livro – Um prisioneiro apaixonado – escandalizou a intelectualidade francesa e a opinião pública tanto quanto seus primeiros romances, suas peças ou seus textos e entrevistas em apoio a grupos e movimentos considerados terroristas pela doxa dominante. É preciso nesse contexto ver se e como a maleabilidade de Genet, o uso (crítico? lúdico? cínico-esclarecido?) dos disfarces e máscaras sociais impostas, se reflete mais tarde, em sua dramaturgia. É preciso se perguntar ademais se a volubilidade do sujeito no regime do limite, se virando como pode em sua fuga da identificação, não gira num mau infinito de oportunismos e pequenos crimes cá e lá que evita no fim das contas ao sujeito o fardo da necessidade de se decidir, de realmente tomar parte e enfrentar o mundo e suas contradições.
Reformulando então: a vida inteira Genet se revoltaria contra a sociedade burguesa, não podendo se reconhecer no seio desta a não ser como marginal. Sem dúvida. Acontece que nos romances genetianos a revolta contra a ordem burguesa e suas normas não se traduz em ação, pois para gozar plenamente da subversão das mesmas ele pressupõe não somente a existência da ordem, da lei e da norma, mas igualmente, principalmente, sua preservação e perpetuação. De certa maneira, o Genet da primeira fase, romanesca, é uma encarnação da “bela alma” hegeliana, incapaz de traduzir prática e concretamente sua revolta com a sociedade dominante. Zeloso na conservação de sua pureza abjeta, desfrutando da imagem algo mítica que a duras penas criou de e para si mesmo – de ladrão pederasta apátrida, ainda por cima “santificado” –, ele se permite assim julgar o Outro (o burguês in abstracto) quase que candidamente do alto da visão moral da abjeção e do crime que se contenta com seu ser-assim. Sartre de certa forma percebeu isso em seu desnudamento do escritor.
Com efeito, em Genet os anos de aprendizagem e peregrinação coincidem, mas a démarche de fundo é algo semelhante à de um romance de formação, no caso, de um sujeito que reencontra no mundo das letras o sentido perdido na prosa do mundo. Pequenos furtos já quando criança, descoberta precoce da atração homossexual, assunção da condição de ladrão e pederasta, punições diversas por causa disso, engajamento na Legião Estrangeira para evitar a punição, subsequente deserção da mesma, prostituição, mendicância e errância através da Europa, revolta crescente contra a sociedade que o condenou, descoberta do talento de escritor durante um dos longos períodos passados encarcerado, enfim o reconhecimento da république des lettres, que o tira da prisão e lhe permite viver e ser aceito na condição de “escritor marginal”... Tantas etapas da “formação” do sujeito que inicialmente se opõe à sociedade, reflete sobre sua emergência junto com a sociedade, em oposição a ela, e termina encontrar seu lugar ao sol no seio da mesma.
Só que Sartre mostrou, para total desespero de Genet, que o “poeta maldito” se integrou à ordem vigente malgrado sua recusa absoluta em se integrar. Um pouco à maneira de um herói romântico, fortalecido “pelas privações do deserto dos homens”12, transitando com desenvoltura entre bas-fonds e altas esferas da cultura, dividido entre lenda e realidade, Genet viveria excentricamente da contradição do arrivista unanimemente reconhecido nos meios artísticos mundo afora e que no entanto conserva todo o atraso de sua condição de marginal e criminoso: se gabava de não tomar banho e de ter chulé e de conhecer de cor poemas inteiros de Mallarmé; continuava a efetuar pequenos furtos apesar de ter dinheiro; desacatava sempre que podia todo tipo de autoridade e aceitava de bom grado a fama que lhe propiciava seus livros.
Claro, sua poesia só florescia na medida em que se nutria do esterco do submundo do crime, o que não impedia Genet de se orgulhar das contradições de sua condição atípica. Difícil não ver aí algo de profundamente romântico. Como lembra Antonio Candido: “a força do Romantismo foi ter somado ao mundo visto de cima um mundo visto de baixo, associando Mefistófeles a Fausto, a cozinha da feiticeira à transformação ideal, a noite de Valpurgis ao amor de Margarida”13. O veio romântico de Genet mereceria um estudo a parte, que levasse em consideração a influência sem tamanho que exerceu sobre o escritor a poesia de Nerval, de Baudelaire e de Rimbaud, tanto no nível da forma como do conteúdo14. Primeiramente num sentido evidente, de que exprimia melhor que qualquer outra a complexidade contraditória de cada um, a divisão do ser, componente própria ao homem moderno: “Je suis autre” (Rousseau apud Baudelaire), “Je suis l’autre” (Nerval), “Je est un autre” (Rimbaud). Para além da evidência, porém, um pouco como com Joyce15, o emprego frequente de epifanias, por exemplo, típico daquela poesia de grande intensidade traumática, teria servido a Genet não somente para confrontar os traumas dolorosos de sua juventude, mas como meio adequado para uma revelação do mundo e de seu estar-no-mundo que apontasse de certa maneira na direção de um amadurecimento pessoal, que coincidiria com o reconhecimento literário.
Numa passagem de seu monumental estudo sobre Flaubert, comentando a lucidez ensandecida do Rei Lear, Sartre defende que a tentativa (logo abortada, mas pouco importa) de abolição pelo personagem shakespeariano dos adereços da realeza coloca em evidência o animal nu, a partir do qual seja quiçá possível a instituição de uma ordem à altura do homem. Para o filósofo francês, “o humanismo verdadeiro, em vez de esconder nossa animalidade, nossas necessidades exasperadas pela penúria, deveria ao contrário delas partir e jamais se afastar”16. À vista disso, não é de se estranhar o interesse de Sartre pela obra de Genet. Não é somente que este tivesse assumido livre e heroicamente as condições sociais que eram as suas, o destino que lhe fora imposto, ilustrando de maneira exemplar um dos temas maiores da filosofia existencialista. É isso também. Todavia, a razão principal do interesse de Sartre me parece residir noutro lugar.
Em seus primeiros escritos, nos cinco romances que marcaram sua fase inicial, Genet narra como desde cedo havia exercido uma reabilitação do ignóbil, na qual as matérias mais vis, como o uniforme sujo de prisioneiros ou o catarro de Stilitano no Diário do Ladrão, eram transfiguradas em algo belo e desejável. Em suma, tudo o que repugnasse o senso comum e a repressora moral burguesa, que desde sempre o havia rejeitado. A atenção à natureza nos seus aspectos mais sórdidos, aos impulsos e ao corpo, sobretudo ao corpo maltrapilho e fétido do sujeito marginalizado, dava vazão a uma compreensão do mundo mais abrangente que a do senso comum, repleto de preconceitos e dissimulações de toda ordem. Numa palavra: os personagens e grupos sociais retratados por Genet representariam linhas de fuga ao ethos burguês ocidental. Linhas de fuga porém que se entrelaçam a todo momento com o crime, a punição, a ruína, a luta de morte e o gozo da transgressão pela transgressão. Por aí também se vê, diga-se de passagem, o interesse de Bataille pelo “caráter sagrado” dos criminosos genetianos.
Apesar de dar vazão a um cogito “somático”, a um sujeito “noturno” e “fraturado”, que foge ao sujeito solar e autoidêntico do iluminismo, não se pode menosprezar o risco, que parece efetivamente grande, comportado tanto na reabilitação do ignóbil como na sacralização do crime, que é o de se hipostasiar a catástrofe e as identidades negativas do capital. O perigo é naturalizar o “animal nu” e as “necessidades exasperadas pela penúria”, em vez de tomá-los como ponto de partida e etapa no processo de posição do homem como ator de sua própria história, sujeito de seu movimento social. A atitude de Genet, pode-se especular, sempre a contrapelo das pessoas normais, talvez não se distinguisse muito da dos antigos cínicos, que se conciliavam com o curso do mundo estabelecido para além das exigências da sociedade, isso justamente através de uma suposta autossuficiência fundamentada num retorno à natureza sensível, à animalidade e às necessidades do corpo. Lembro que Diógenes vivia como um cachorro e se masturbava em plena luz do dia, aos olhos de todos os passantes. Nesse contexto, cabe chamar a atenção, com Vladimir Safatle, para o fato de que “se a physis é apenas o Outro da vida social, então ela será apenas uma abstração capaz de englobar disposições muitas vezes contraditórias entre si, pois variáveis de acordo com a modificação subjetiva da perspectiva de avaliação do que pode se pôr como negação simples do nomos”17. O que mutatis mutandis também parece se aplicar a nosso autor.
Em geral se explica a transição do romance ao teatro em Genet da seguinte maneira. O tipo de literatura praticado em seus romances, cantos da abjeção por assim dizer, estava a se tornar moda, seus livros figurando nas vitrines dos melhores libraires parisienses, ao lado de Laclos e Sade. Como sobreviver a tal rotulação? Como fazer uma literatura a um tempo autônoma e comprometida com a vida, e que não fosse inofensiva? O choque pelo choque, a mera reabilitação moral do ignóbil, já não fazia tremer o status quo como antes. Declarações do tipo: “Là où ça sent la merde / ça sent l’être”18 ; ou: “La poésie est l’art d’utiliser les restes. D’utiliser la merde et de vous la faire bouffer”19 – não surtiam mais efeito. A partir de um momento, era exatamente esse tipo de atitude que se esperava do artista. Artaud, poeta da crueldade, teórico da magia negra e dos “corpos-sem-órgãos”, que passou boa parte da vida enclausurado, padecendo inúmeras sessões de eletrochoque, ou delirando alucinado nas calçadas de St.-Germain-des-Prés, viria a ser quase idolatrado pela Ideologia Francesa da mesma maneira com que o Genet da primeira fase seria glorificado e posto num pedestal, de diferentes maneiras, por Sartre, Bataille e, mais tarde, por Derrida e Sollers. Era preciso então encontrar, ou criar, uma nova linguagem. Como com Artaud, também no caso de Genet a resposta teria sido o teatro, embora para ele a resposta fosse temporária.
A explicação corrente não é de todo falsa, mas penso que a transição do romance para o teatro se deve a uma mudança radical na maneira de encarar o mundo e o poder. É verdade que já havia publicado duas peças antes do livro de Sartre sair e mergulhá-lo numa “crise de identidade” profunda que duraria vários anos20. Para o filósofo, como visto, os romances de Genet seriam exemplares daquela concepção da liberdade que se encontra n’O ser e o nada, do sujeito que assume heroicamente o destino que lhe coube como sendo seu e deixa, no fundo, tudo como está. O amigo Giacometti, como já dito, o tira da sombra e o leva a ver diferentemente as coisas. A negação do sujeito burguês em sua própria conduta e maneira de ser, que deixava o mundo correr seu curso “natural”, doravante se torna indissociável da negação da ordem patriarcal burguesa que exclui de seu espaço, de forma repressora ou tácita, todo aquele que foge à norma do homem-macho-branco-trabalhador-consumidor21.
Genet afirmou no fim da vida, a propósito dos Black Panthers, que “uma revolução tem sobretudo por fim a libertação do homem – aqui do negro americano – e não a interpretação correta e a prática de uma ideologia que se dá quase como transcendência”22. Quando, anos antes, se perguntava: “Qual é [...] a natureza deste espaço, vertiginoso, que separa – na América e em todo o Ocidente cristão – o Homem (que permite o Humanismo!) e o negro?” – sua posição parece próxima à de Sartre. Lembre-se que para o filósofo não é possível afirmar que o humanismo burguês exclua a priori o operário, visto que integra este último, inclusive legalmente, ao defini-lo como semelhante pelo próprio ato que o transforma em mercadoria. Contudo, por detrás do postulado de tal solidariedade, fundada sobre a forma-trabalho, não é difícil enxergar que as verdadeiras raízes do humanismo da classe dominante sejam a violência abstrata e a regra de opressão ligadas à identificação da burguesia à humanidade em geral, por conseguinte contra a anti-humanidade que é a classe operária. Por isso, escreve Sartre, o humanismo burguês “é o pendant do racismo: é uma prática de exclusão”. O que se tornaria claro na brutal explosão repressiva de Junho de 1848, quando pela primeira vez a luta de classes se trava a céu aberto e, por ter sido durante muito tempo dissimulada, “revela com toda a sua brutalidade que é uma luta de morte”. Para que não seja abstrata, então, a negação do humanismo teria que se determinar no ato revolucionário pelo qual o proletariado arrancaria da burguesia o privilégio de dizer em nome de toda humanidade a verdade do homem, “c’est-à-dire la vérité tout court”.
Agora, ao contrário de Sartre, o teatro de Genet não tem nada de engajado, pois não faz tão-somente mimetizar a ordem imaginária existente, como se esta fosse de alguma forma já humana. Pondo em cena a revolta em suas múltiplas dimensões – revolta individual (em Haute surveillance/Severa vigilância e Les Bonnes/As Criadas), coletiva (emLes Nègres/Os Negros e Les Paravents/Os Biombos) e anárquica ou anarquista (em Le Balcon/O Balcão) – o teatro de Genet é indubitavemente um teatro político, mas não do mesmo modo que são políticos os dramas de Shakespeare, Corneille ou Brecht. É que boa parte das normas dramatúrgicas é fundamentalmente transformada por Genet, transformações estas que são indissociáveis de sua experiência pessoal, ao longo de sua vida de errâncias, com diversas instituições sociais disciplinares: reformatório, exército, repressão policial, prisão... Nesse ponto próximo de Foucault, para ele todos os dispositivos modernos de governo dos corpos seriam surdamente teatrais, mas surpreendentemente, no teatro a teatralidade não dissimularia nenhum poder. Donde o interesse súbito pela cena teatral, que é um espaço onde o poder é ausente, mas por isso mesmo um espaço através do qual se pode desvelar a estrutura e o funcionamento das relações de poder dominantes.
Como com os romances, o trabalho com a linguagem no teatro genetiano é de um rigor absoluto: todo e qualquer substrato psicológico é cuidadosamente abolido; o mimetismo primário é substituído pela dimensão coletiva da ação; não há em suas peças personagens principais individualizados, tampouco personagens coadjuvantes. Pouco importa aliás o número de personagens, se um duo ou um trio (como em As Criadas) ou mais de vinte deles (como em Os Biombos); o importante é a função social exercida, a máscara usada por cada personagem. Lacan percebeu muito bem isso: Genet visaria nada mais nada menos que explodir em cena a teatralidade do poder, que julga falsa porque a hierarquia é sempre a razão profunda da representatividade política.
Percebe-se logo, à vista disso, o quão precipitada parece ser a identificação pós-moderna de representação política e midiática e teatralidade. Segundo Anne Vernet, é em cima dessa falsa identificação que Genet concentrará sua crítica: ele inverterá “a dinâmica da estética teatral [tradicional] a fim de fazer aparecer o procedimento em jogo por detrás da teatralização do poder: o papel mimético das funções sociopolíticas. A principal inversão que ele impõe ao jogo teatral consiste em limitar, como Beckett, a isonomia da atuação dos atores [...] Em Genet, é no nível das funções que eles representam que a encenação dos personagens deve fazer aparecer a igualdade que regula suas relações. E, porque contrária ao vivido do real social, esta inversão desvela a coerção hierárquica operando detrás de sua distribuição falsamente democrática.” A falsa teatralidade do poder consiste para Genet em forçar ao máximo a identificação com o símbolo, através da qual a face reprovada da sociedade é magnificada. Em Os Negros, todos os atores são negros e quando interpretam um branco pintam o rosto; os personagens negros na peça sonham com um mundo onde tudo fosse de cor negra: o leite, o açúcar, o arroz, o céu, a esperança... Em As Criadas, duas empregadas domésticas encenam ritualisticamente o assassinato da patroa, uma delas fingindo-se de madame; durante a encenação afloram ressentimentos e desejos recalcados, que se conjugam com sentimentos contraditórios, como o medo e a coragem para a passagem ao ato que poria fim à dominação e à opressão.
O teatro de Genet põe ademais em cena um questionamento profundo acerca da natureza da castração. Pois o que é castrador afinal? A ordem social burguesa? A ordem “natural” das coisas? Toda e qualquer ordem? O acesso ao simbólico em geral? Ou é antes o próprio mimetismo que constitui a natureza castradora de toda ordem? Em O Balcão, peça que retrata o funcionamento normal de um bordel de luxo durante um período de turbulência revolucionária, Genet aborda de forma magistral os temas da castração e da subversão da ordem. O bordel em questão é um palácio de ilusões, repleto de espelhos, através dos quais Madame Irma, a dona do estabelecimento, observa severamente o respeito de uma certa ordem, rígida e monótona, no interior da qual inocentes e medíocres senhores do povo podem por algumas horas gozar das mais excêntricas e secretas fantasias de sexo e poder. Para tanto se travestem com insígnias da ordem social real: a Ladra que quebra a lei, um Juiz que condena, um General que comanda, um Carrasco que executa, um Bispo que perdoa. A ordem mimetizada no interior do bordel deve ser mantida custe o que custar, enquanto que nas ruas crepitam metralhadoras, dando início a uma Revolução que visa subverter as instituições da sociedade real. Os fregueses narram para as prostitutas os acontecimentos ocorridos do lado de fora, enquanto que Madame Irma aguarda a chegada do Chefe de Polícia, seu amante, único com poder de defender as meninas de um possível ataque dos rebeldes. O bordel serve à ordem vigente ao consolidar as figuras dominantes no imaginário popular, fantasiadas lá dentro. O Chefe de Polícia sabe que o bordel continuará o mesmo, antes como depois da Revolução. Sabe que no fundo a Revolução é um jogo. Entretempo, uma das meninas, Chantal, se apaixona pelo líder dos rebeldes, o bombeiro Roger, e se torna o símbolo da Revolução. Com o assassinato das figuras pilares da sociedade – as autoridades jurídica, militar, eclesiástica – seus falsos equivalentes do bordel, o Juiz, o General, o Bispo, são convocados a desfilar para o povo, liderados por uma falsa Rainha, Madame Irma, realizando assim plenamente suas funções sociais. O símbolo escolhido pelo Chefe de Polícia para representá-lo perante o povo é um imenso pênis, que o Bispo propõe de transformar na pomba do Espírito Santo, para que se torne mais aceitável, e o General de pintá-lo com as cores nacionais. Com a rebelião momentaneamente subjugada, Chantal é assassinada e Roger se entrega às fantasias do bordel e pede para representar o Chefe de Polícia, se vestindo de todos os atributos deste último28. Uma das prostitutas faz o gesto de castrá-lo e, naquele exato momento, o Chefe de Polícia verifica se o seu ainda está no lugar. Com este gesto “sua passagem ao estado de símbolo sob a forma do uniforme fálico proposto é doravante inútil”29. No final, Madame Irma diz ao público para voltar para casa, “onde tudo, não duvidem, será ainda mais falso que aqui”. O bordel encerra assim suas atividades, até a noite seguinte. Ouvem-se rajadas de metralhadoras do lado de fora. A Revolução recomeça. A peça termina.
Na peça em questão todos os personagens que “representam funções em relação às quais o sujeito se encontra como que alienado em relação a esta fala da qual ele se acha o suporte, em uma função que ultrapassa de muito sua particularidade”, todos os personagens serão de uma hora para outra “submetidos à lei da comédia”30. Por aí Genet permite a representação do que significa gozar de tais funções. Agora, o sujeito que representa o desejo puro e simples que tem o homem de assumir autenticamente sua própria existência, seu próprio pensamento, o sujeito que representa o homem, o sujeito que combateu para que aquilo que se chamou o bordel reencontre sua norma, sua redução a algo que possa ser aceito plenamente como humano – este sujeito, que não é outro senão que Roger, este sujeito então, conclui Lacan em seu comentário da peça, “só se integra, uma vez passada a prova, à condição de se castrar. Isto é, de fazer com que o falo seja de novo promovido ao estado de significante.”
Tendo a concordar, aqui também, com Anne Vernet que essa leitura, embora tendo lá sua pertinência, não esgota o sentido do teatro de Genet, que é antes de tudo obra de combate contra os protocolos miméticos: “a problemática colocada é a de todo papel, de toda função, da identificação e da coerção mimética bem para além da mera problemática sexista”. Ao mesmo tempo, caberia perguntar até onde Genet é consciente do fato de que é somente mediante sua autoalienação através de protocolos miméticos que o sujeito se torna suficientemente forte para vencer a prisão da imitação, isto é, para tomar distância do objeto de modo a revocar sua autoposição33. Porque a autonomia do sujeito depende desta experiência de descentramento, desta identificação por assim dizer não-narcísica com aquilo que lhe é estranho. Só no nível do entendimento raciocinante aparecem como antagônicos a ipseidade coisificada do eu e a submissão do sujeito a papéis socialmente exigidos. No fundo, e alguém como Adorno percebeu bem isso, há uma cumplicidade entre a rigidez identitária e a disponibilidade para os múltiplos papéis e funções sociais34.
Acho que não é totalmente despropositado afirmar que, como para o frankfurtiano, para Genet não se trata de negar abstratamente a identidade, mas num quadro de resistência, conservá-la, utilizá-la de forma crítica para no momento oportuno subvertê-la e superá-la. Nisso também estava próximo de Sartre: o descentramento que faz o sujeito desaparecer por trás das estruturas prático-inertes implica uma negatividade; o sujeito surge desta negação, por sua vez, condição de uma práxis superadora de tais estruturas.
Na esteira de Adorno, Marcuse disse em algum lugar que não há nem pode haver liberdade sem beleza. Pergunto-me se o inverso também não é válido: a beleza num estado não-livre não teria ela própria algo de falso? Narrando um episódio do verão de 1934, quando percorria a mendigar, solitário, as estradas andalusas, Genet escreve: “Da beleza mesma deste lugar do mundo não ousei me aperceber. A menos que fosse para procurar seu segredo, por detrás dela a impostura da qual será vítima quem nela se fiar. Ao recusá-la eu descobria a poesia.”35 Livro maior de Adorno, as Minima Moralia são atravessadas por uma maneira semelhante de encarar o mundo, explicitada, em termos hegelianos, já nas primeiras páginas do livro: “Até a árvore que floresce sem sombra de sobressalto; até o inocente ‘que beleza!’ torna-se expressão para a ignomínia da existência que é diversa, e não há mais beleza nem consolo algum fora do olhar que se volta para o horrível, a ele resiste e diante dele sustenta, com implacável consciência da negatividade, a possibilidade de algo melhor.”
Com o humor habitual, Genet disse certa feita que nunca havia visto um banqueiro bonito. A beleza tanto buscada seria encontrada anos depois do episódio espanhol, na luta dos Black Panthers e na “Revolução palestina”, embora agora não mais aparecesse tão-omente como promessa de felicidade, mas antes enquanto força da alegria de ser e tomar parte em um movimento de libertação. Nunca em sua vida Genet se sentira tão livre, tão plenamente vivo e em paz consigo mesmo como quando esteve em companhia dos palestinos às margens do Jordão. O que maravilhava Genet nesses movimentos era a existência de indivíduos ainda capazes de dar a vida por uma causa política, de pôr e expor o próprio corpo na linha de fogo. Luminosos ou tenebrosos, é o fato de se levantarem contra o establishment e os poderosos do mundo que os tornava esteticamente atraentes a seus olhos: “Já muito belos, à medida que os feddayin se libertavam da tradição, embelezavam ao ponto de se tornarem luminosos entre os árabes que ficaram exteriores à luta. [...] Os feddayin eram de uma beleza fresca, ingênua, oferecida à inteligência. [...] Esta beleza nova, eles a tem da revolta.” Ou ainda: “Black is beautiful porque traz uma liberdade. Mesmo tendo lugar de dia, a ação dos Panteras estabelecia em torno deles um halo de tenebras, nos brancos.”
Se originalmente a política designa “uma relação ao corpo público”, ao corpo da pólis, Genet mobiliza a metáfora de modo a pensar “a política como um teatro dos corpos”, lembrando-nos de sua “dimensão física e desejante”39. Armados e organizados, negros americanos, palestinos e jovens militantes alemães encarnavam aos olhos de Genet uma prática política, uma prática da política, que não se dissimulava na invisibilidade brutal do poder, mas que se mostrava na exposição dos corpos e das armas. O ponto é que a violência transparente destes grupos revolucionários iluminava a brutalidade política operando tanto no seio das sociedades centrais como entre estas e a periferia. No que concerne a esta última, escreve ele: “A colonização do terceiro-mundo não foi senão que uma série de brutalidades, muito numerosas e muito longas, sem outro fim a não ser aquele, antes atrofiado, de servir a estratégia dos países colonialistas e o enriquecimento das sociedades de investimentos nas colônias.”40 O resultado foi uma miséria e um desespero tão grandes e insuportáveis que só podiam nutrir uma violência libertadora. Uma das teses de Genet, que causou polêmica na época, era que “a própria brutalidade da sociedade alemã” teria tornado “necessária a violência da RAF [Rote Armee Fraktion / Facção Exército Vermelho].”
Sob a denominação de “brutalidade” Genet reunia não somente a dominação colonial e a repressão policial ou militar, mas igualmente fenômenos não imediatamente detectáveis ou sentidos como brutais, mas que de fato “embrutecem” as relações humanas no quotidiano: a arquitetura das moradias de classe média e popular, a burocracia de modo geral, a substituição do nome – próprio ou comum – pela cifra, a pseudocultura ensinada nas escolas e universidades, o bloqueio do acesso livre a um conhecimento de interesse universal, a prioridade dada a carros em vez de pedestres, o trabalho na fábrica, a progressão numérica das penas, a inutilidade do tapa na cara em delegacias de polícia, o bombardeio sistemático de um pequeno país de camponeses pela maior potência militar do mundo, uma Ferrari de um milhão... “O que ainda se chama ordem, esgotamento físico e espiritual, se estabelece de si mesmo, quando reina aquilo que etimologicamente deve se nomear mediocridade.”
Num texto sobre a RAF, Genet defende que a força de suas ações residiria em sua função reveladora. Ao provocar de maneira violenta os governos das democracias liberais do Norte em seu próprio solo político e jurídico, o grupo de Baader forçaria a brutalidade constitutiva da sociedade burguesa a sair da penumbra dos subterrâneos da vida quotidiana e a mostrar a cara feia a céu aberto. Não é só o fato que o assassinato, a tortura física e psicológica de detratores da ordem nunca tenham realmente deixado de ser praticados nessas sociedades. É a própria frieza burguesa, o enrijecimento das relações, a insensibilidade, a apatia e a indiferença generalizadas que se tornam manifestos: escandaliza-se quando um grupo de jovens manda pelos ares uma loja de departamento sem nada dentro que não fosse roupas, ao mesmo tempo em que não se dá a mínima quando uma população inteira de um país do terceiro mundo é queimada viva até os ossos com napalm.
As ações espetaculares da RAF quebravam assim a fachada de normalidade civilizada de sociedades que em sua estrutura não eram tão coesas, igualitárias e pacíficas quanto se imaginava, mas essencialmente frias, divididas e repressoras. Tais ações expunham a um tempo a identidade e a não-identidade de política e teatralidade, antes de tudo o fato da política em questão ser a política de uma sociedade essencialmente assimétrica, política dos (e para os) privilegiados que beneficiam de tal assimetria. O “terrorismo” da RAF mostrava, enfim, que a luta de classes difusa e normalizada no fundo jamais deixara de ser luta de morte. Como escreveram Deleuze e Guattari em outro contexto: “Qual socialdemocracia nunca deu ordem de atirar quando a miséria sai de seu território ou gueto?”
Nesse sentido, Genet também desbancava o diletantismo moral dos brancos escandalizados diante do fenômeno de negros americanos politizados, organizados e armados: “Quando os brancos pregam a não-violência aos negros, estão conscientes que uma situação de violência não cessa de se manifestar desde sempre, desde o tempo dos negreiros? Essa massa de desprezo acumulada há trezentos ou quatrocentos anos, não é violência? [...] Pregar a não-violência nesse caso é recusar aos negros os meios de se defender.”
Entre 1942 e 1961, Genet publicou cinco romances45, cinco peças teatrais46, além de poemas47, um cenário de filme48 e alguns ensaios49. Após este período, entretanto, seu veio criador parecia ter chegado ao fim e com a morte do companheiro Abdallah em 1964 Genet entrou em depressão profunda, destruiu seus manuscritos e renegou tudo o que escrevera até então. Chegou a passar um tempo ao lado dos estudantes da Zengakuren no Japão, durante o inverno de 1966, mas no ano seguinte tentou o suicídio no norte da Itália. O que então o teria trazido de volta à vida, à escrita?
Há razões para se crer que as barricadas do Maio francês tenham tido um papel maior do que se imagina na “volta” de Genet. Segundo o próprio, em Junho de 1968, sua tristeza e sua raiva o fizeram compreender que daquele momento em diante não cessaria de desejar que o “espírito de Maio” se achasse em todo lugar e como que prometera a si mesmo que onde quer que se encontrasse se sentiria “sempre ligado ao movimento que provocará a libertação dos homens”. Assim, quando em 1970 fora convidado pelos Black Panthers para que interviesse em favor de Bobby Seale, um dos chefes do grupo, entrou ilegalmente nos EUA pela fronteira canadense. Em 1970 e 1971 passaria vários meses com os feddayin, então acampados nas montanhas da Jordânia – aí também, na decisão de tal engajamento, pesou o Maio de 68, momento em que veio à tona para o grande público a “questão palestina”, ou melhor, a compreensão do povo palestino como povo oprimido e de sua luta contra a opressão como luta revolucionária.
Sempre suscitando controvérsias, os anos 70 seriam marcados por seu suporte – através de artigos e entrevistas principalmente – a diversas “causas perdidas”, dos Black Panthers e dos palestinos aos sans-papiers na França e ao grupo de Baader e Meinhoff na Alemanha. O interesse de Genet por “causas perdidas” vinha de longe, já se encontrava nas peças, e não é estranho que se engajasse de corpo e alma em favor delas a partir de um certo momento. Numa entrevista com Juan Goytisolo, Genet afirma não ter sido um acaso que tivesse escrito anos antes obras como Os Negros e Os Biombos, onde punha em cena “a necessidade da luta revolucionária dos negros e argelinos”, e que em certo sentido seu militantismo a partir de 1968 se inscreveria “na lógica das coisas”.
No entanto, durante todo este período militante Genet não produziu sequer um texto literário, convicto de que jamais a literatura deveria ser posta a serviço de ideias ou causas políticas. A quebra do silêncio literário, silêncio de mais de vinte anos, se deu com um texto-bomba, inclassificável, sobre os massacres perpetuados em 1982 por diferentes milícias, sob o auspício de forças israelenses, nas proximidades de Beirute, nos campos palestinos de Chatila e Sabra, Genet tendo sido um dos primeiros ocidentais a entrar em Chatila após o crime hediondo. Misto de reportagem, ato de acusação indignado e texto político-literário, “Quatre heures à Chatila” marca por assim dizer a criação de um estilo novo, que se firmaria em seu testamento literário, que é Un captif amoureux. Publicado postumamente em 1986, com este último livro Genet conseguiu o feito de chocar uma última vez a boa consciência francesa. Mesmo em meio ao turbilhão social e à efervescência erótico-revolucionária, representada no livro pelos Black Panthers e pela resistência palestina, Genet procurava dissipar toda e qualquer imagem positiva, da vida como da morte, tão meticulosa era sua recusa em conceder que algo de bom possa advir da permanência ou da estabilidade burguesa e heterossexual.
É notável que em quase todos os livros e escritos de Genet, a crítica dos valores e ideais do Ocidente cristão seja feita a partir do ponto de vista dos de baixo (negros, imigrantes, prisioneiros, homossexuais, empregadas domésticas, ladrões, mendigos, prostitutas) ou a partir de uma ótica periférica (a partir do Oriente Médio e Norte da África principalmente). Tendo dado o passo, cruzado as fronteiras legais que a maioria dos brancos ocidentais nem em sonho dão ou cruzam, Genet foi capaz de criar personagens que nos interessam menos por sua psicologia, que em geral é neutralizada, do que pelas maneiras quase obsessivas com que são a um tempo os portadores e atores de uma história muito finamente imaginada e compreendida54. De costas para a França que desde sempre o rejeitou, o olhar admirativo do poeta cedo se voltou para o grande Sul pobre (“as vestes marroquinas dão a um simples mendigo uma dignidade que um europeu não possuirá jamais”) e a crítica do humanismo dos vencedores se dá em Genet mormente pela transfiguração poética de forças não-idênticas, que aparecem em sua obra através do tratamento de alguns temas recorrentes, como o desgarramento do sujeito, a língua, a beleza e a traição, e que também perpassam as mais de 600 páginas de seu último livro.
Vale lembrar que nos primeiros romances os temas são principalmente a abjeção, a ruína, o mal, a punição, a luta pela sobrevivência, a covardia e a traição, mas também a santidade, o amor, a beleza e a ternura. Escritas em tempos obscuros e incertos, estas primeiras “obras monstruosas e perfeitas”, como notou Sartre, “querem ser de parte a parte consciência e que não haja nelas a mínima zona de obscuridade, de ignorância ou de inércia: elas conterão a um tempo a narrativa e a narrativa da narrativa, os pensamentos e a história dos pensamentos, o procedimento moral, seu método e o balanço dos progressos alcançados, em suma, um poema e o diário de um poema que, à diferença daquele de Gide, acompanhará a criação de comentários éticos”. Acontece que de tão lúcidos e brilhantes, tais romances acabam por ofuscar a postura fundamentalmente conservadora por trás da “rage de nullité” do jovem Genet. Possível razão pela qual o autor procurará dissolver o ideal iluminista da fase inicial na forma a um tempo fragmentária e épica de Um prisioneiro apaixonado – muito embora a criação poética seja ali tão consciente quanto antes.
O tom de incerteza, que é a incerteza do próprio autor à beira da morte (causada por um câncer na garganta), habita a leitura do início ao fim. Por que no fim das contas, pergunta-se ele, me deixei cativar apaixonadamente por estes grupos revolucionários, talvez os últimos do século? A pergunta não é simples e fica como que sem resposta definitiva, o que não impede que o poeta montasse uma estrutura literária complexa para tratá-la. Sem falsa modéstia, Genet dizia querer ser o Homero daqueles grupos rebeldes, principalmente dos palestinos, que segundo ele o ajudaram a viver; queria cantar as glórias daqueles guerreiros, seus feitos memoráveis, suas penas. Grande “reportagem”, Um prisioneiro apaixonado vai entrelaçando anedotas e lembranças de sonhos e vivências, às quais se sobrepõem análises sociológicas, contextualização política, descrições etnográficas, reflexões metalinguísticas, evocação poética dos atos heróicos dos feddayin e considerações metafísicas sobre a vida e a morte. Pode ser lida, segundo o próprio Genet, à maneira do “livro de areia” de Borges: “porque ni el libro ni la arena tienen principio ni fin”. Abre-se uma página ao acaso, e cada parágrafo se lê, cada linha se escoa, como a vida do próprio autor, sobre fundo de noite, que o “condenado”, como se autodefinia, intentara não iluminar mas espessar.
Não há dúvidas que Genet ficaria contente de saber que um ano após sua morte se deflagraria a primeira intifada nos territórios palestinos ocupados e que menos de uma década depois, noutras paragens do grande Sul pobre que tanto o atraía, outros hijos de la noche se sublevariam contra as forças da ordem e os poderes vigentes. Resistências não só contra a opressão, mas igualmente contra o deserto que nos invade por todos os lados e não cessa de se aprofundar. Contra ele uma revolta ativa é necessária. É o que o velho Genet procurou pôr em evidência num momento em que o regime de racionalidade cínica já se tornava dominante nas sociedades do capitalismo avançado.