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terça-feira, 6 de maio de 2014

A FALA AUTÊNTICA E O INCONSCIENTE FENOMENOLÓGICO

(Breve reflexão diante de propostas da Clínica do Lebenswelt de Tatossian e Moreira)
Walmir Monteiro
Não é que não exista o inconsciente. O que não se concebe no Lebenswelt é qualquer cisão entre consciente e inconsciente, nem entre individual e social ou interior e exterior. Na proposta monista fenomenológica tudo é simultâneo e se entrelaça no quiasma, entre o universal e o singular, numa constante relação de implicação. Para bem dizer, os processos inconscientes de modo algum se desprendem dos processos conscientes, e para um dito ainda melhor, consideramos que ambos processos se fundem de tal modo que não se torna possível identificá-los. Somos, portanto, consciência e inconsciência em uma só tomada, fusionados sob qualquer visão, prisma ou perspectiva.
Sartre afirmou que tudo que está na mente é consciente, e rejeitou de modo enfático a ideia de causas inconscientes, atribuindo má-fé a esta concepção freudiana. Ele rompeu com a psicanálise por esta retirar a responsabilidade do indivíduo ao invocar a ação de estados mentais inconscientes, que para ele não existem e defende que a consciência é necessariamente transparente para si mesma, com todos os aspectos da nossa vida mental sendo intencionais, escolhidos, e de nossa responsabilidade, coisa incompatível com o determinismo psíquico de Freud.
Já Merleau-Ponty propõe a noção de “fala autêntica” enquanto expressão do inconsciente em psicoterapia, criando o seu próprio conceito de inconsciente. O conceito gestaltista de figura e fundo e a metáfora onda/mar são úteis à compreensão da noção de inconsciente em Ponty, assim como as reflexões do ator em torno de “O visível e o invisível” quando diz que o invisível não é contraditório do visível que possui algo de invisível, sendo o visível prenhe do invisível. Para Merleau-Ponty o inconsciente funciona como pivô existencial. Ele é e não é percebido. O inconsciente para ele não se opõe à consciência, mas se impõe na percepção, no quiasma da experiência sensível de interseção corpo-mundo, e é compreendido como a atmosfera que entrelaça o corpo e o mundo; jamais como estrutura linguística, mas como articulação visível-invisível – processo de percepção.
Como exemplo de processo inconsciente, em seus termos e conceitos, Merleau-Ponty aponta a “fala autêntica” em psicoterapia, que é a fala de quem não pensou antes naquilo que irá falar. (Amatuzzi, 1989). Também a fala do psicoterapeuta será autêntica se significa a formulação de sua reação total e integral à fala do paciente. A fala autêntica para Merleau-Ponty é a fala original que jamais havia sido formulada anteriormente, não sendo representação consciente de alguma coisa, mas uma percepção que faz parte da experiência sensível.
Ver:
Clínica do Lebenswelt – psicoterapia e psicopatologia fenomenológica.
Tatossiane Moreira. Ed. Escuta