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sábado, 23 de outubro de 2010

SAÚDE MENTAL - CONSIDERAÇÕES EXISTENCIAIS

                                                        Walmir Monteiro
O presente artigo, a partir dos conflitos entre psicoterapia, psiquiatria, psicanálise e neurociência, atrai toda essa polêmica para uma rediscussão dentro de um novo cenário: a saúde mental. Perguntamos, afinal, o que querem, em relação aos objetivos da saúde mental, a psiquiatria, a neurociência, a psicoterapia e a psicanálise? E focamos especialmente o que pensa em termos de fundamentos, e o que realiza profissionalmente o psicólogo existencial.
Alguns psicanalistas dizem que a psicanálise não pode aderir aos objetivos da saúde mental como posto pelo MS porque isto seria abrir mão de seus preceitos, permitindo uma depreciação da mesma, porque a psicanálise precisa ser afirmada como uma prática singular que não se confunde com outros tipos de tratamento. Ou seja, psicanálise não é tratamento de coisa alguma. E sempre que dizem isso desfilam a reafirmação das diferenças entre ela e a psicoterapia. Só que desconhecem que não há apenas uma forma de psicoterapia, mas quase sempre que autores psicanalistas escrevem sobre  suas diferenças com a psicoterapia tratam toda psicoterapia como comportamental, pelo tanto que aludem à eliminação de sintomas. 
            Demonstrando total desconhecimento da prática existencial afirmam que a psicoterapia (que psicoterapia?) tem em sua origem a proposta de confortar os homens de sua angústia. Entretanto, o tema “angústia” é tratado pela fenomenologia-existencial como o cerne da análise da existência compreendendo-a como um necessário componente da existência humana que não é alvo de tratamento e sim de aproveitamento e contemplação na forma como surge, impondo-se como uma oportunidade do ser mergulhar compreensivamente nos sentidos de suas angústias que não são vistas como sintomas e sim como a própria oportunidade de autoconhecimento e apropriação da sua visão de mundo, do seu modo de ser.
            Também a psicoterapia existencial não se dispõe a tratar ninguém e muito menos afirmar-se como “promessa de apaziguar o mal-estar inerente ao sujeito através da eliminação do sintoma”[1].
            Parafraseando Alberti e Figueiredo ao se referirem aos objetivos da psicanálise também afirmamos que a prática existencial igualmente não visa eliminar a angústia do sujeito, pois é a partir dela que o ser tem a possibilidade de atribuir um sentido a sua vida. A psicoterapia existencial, da mesma forma, não promete dissipar o mal-estar, não promete nenhum bem e sim um meio diferenciado de posicionamento do sujeito frente ao seu (dito) mal-estar. Ainda quando os psicanalistas clássicos dizem que não há na psicanálise o objetivo exclusivo de curar o sujeito de seu sintoma, fazem uma tola e imprópria redução da psicoterapia (qualquer psicoterapia, mesmo a comportamental) porque as psicoterapias em geral não se dedicam a apenas curar sintomas. E quando admitem que certamente há efeitos terapêuticos na psicanálise que “independem dos ideais do analista, mas sua obtenção se dá em razão de que falar faz bem”, referem-se exatamente ao que faz a psicoterapia existencial.
A psicanálise diz - da mesma forma que a psicoterapia existencial - que a psicose tem uma lógica própria, que é uma das formas do sujeito se situar no mundo, um modo específico de constituição e funcionamento de um sujeito. Se os psicanalistas se dedicarem a ler mais sobre a psicopatologia fenomenológica se verão menos distantes da psicoterapia. E provavelmente ficarão mais frustrados, porém menos vaidosos. Uma vaidade ingênua, infantil, oriunda da falta de estudo.
Assim, encontramos diversas semelhanças entre a prática psicanalítica e a prática psicoterápica, embora o discurso da análise clássica tente se impor como um saber à margem do interesse do paciente em mudanças de conduta. Sim, é a clínica psicanalítica que confirma o ditado popular de que “na prática a teoria é outra”.
Importante também observar que a psicanálise tem mudado e continua mudando, e cada vez mais se parece com o método fenomenológico, embora não admita isso. Mas vejam Winnicott, Lacan e muitos outros psicanalistas, examinem como seus discursos são contidos de um entendimento mais fenomenológico que positivista que é o berço da antiga psicanálise.
Diante das neurociências o discurso da psicanálise é o de tentativa de eliminação dos dados biológicos na constituição da personalidade, insistência que – desconfiamos - se dá menos pelo desconhecimento e mais pela obsessão em se impor como um saber autônomo, exclusivo, resistente à natural compreensão de que somos tanto nature como nurture (natureza e orientação). Em relação a isso a fenomenologia-existencial defende que nossas constituições abarcam além da condição humana a condição natural. Sartre diz que o mais importante não é o que fazem de nós (que inclui a condição natural), mas o que fazemos daquilo que nos fazem (condição humana). Somos diferentes da psicanálise porque não ignoramos, infantilmente, a realidade da genética.
Infelizmente a psicologia ainda anda muito contaminada pela vaidade psicanalítica, pelo positivismo, pelo modelo médico arcaico, sem prestar a devida atenção ao que nos ensina a fenomenologia.
E quando a psicanálise diz que “há mais do que um corpo biológico, há um corpo pulsional”, nas entrelinhas está admitindo que há, efetivamente, um corpo biológico. A pergunta que não quer calar é: se se admite o biológico porque também não se admite que esse lado biológico, tem, sim, uma parte de influência na constituição da personalidade?
E o que diz a fenomenologia-existencial das concepções oficiais de “saúde mental”? No Portal do Ministério da Saúde, consta uma definição de “saúde mental” precedida da informação de que para a OMS não existe definição "oficial" de saúde mental. Ou seja, nem mesmo órgãos oficiais se atrevem a afirmar o que é, afinal, saúde mental. O Ministério da Saúde explica que diferenças culturais, julgamentos subjetivos, e teorias concorrentes afetam o modo como a "saúde mental" é definida. Contudo, “oficiosamente” diz que saúde mental se refere ao nível de qualidade de vida cognitiva ou emocional de uma pessoa, incluindo sua capacidade de apreciar a vida e buscar a resiliência psicológica, acrescentando que desfrutar de saúde mental é bem mais do que simplesmente não ter transtornos mentais.

A Política Nacional de Saúde Mental tem como objetivo democratizar e garantir o acesso das pessoas com transtornos mentais aos serviços públicos de saúde que sua cidade oferece incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), os Centros de Convivência e Cultura e os leitos de atenção integral (em Hospitais Gerais). Além do programa “De volta para casa” que oferece bolsas para egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos.
            Na perspectiva existencial acenamos para alguns cuidados que precisamos ter com nossas definições. É fato que para oferecermos serviços de atendimento de saúde ao público que sofre disfunções mentais não precisamos nos alicerçar em rígidas definições. O fato é que ainda pensamos a saúde a partir de um modelo médico-positivista que faz tal exigência. Mas, por que não é possível definir saúde mental?
            Mesmo afirmando que não se pode dar uma definição oficial, a OMS e no caso brasileiro o Ministério da Saúde, capricham nas definições e detalham “o que é saúde mental” dizendo que se trata do “equilíbrio emocional entre o patrimônio interno e as exigências ou vivências externas, e a capacidade que uma pessoa tem de administrar sua própria vida e emoções (...) sem perder o valor do real e do precioso”.
Ora, a definição é conservadora e começa afirmando a existência de um “patrimônio interno”, mas não se estende para explicar de que se constitui esse “patrimônio interno”, desconfiamos que se referem a potencialidades e predisposições genéticas. Mas acrescentam que há saúde mental quando a pessoa busca equilibrar o seu “patrimônio interno” com as exigências externas. Todavia, a minha saúde mental pode muito bem afirmar-se pelo contrário: pela minha disposição em questionar as exigências externas e tentar mudá-las, e nesse caso provocaria um desequilíbrio. Não seria isto mentalmente saudável?
Prosseguem dizendo que saúde mental “é estar de bem consigo e com os outros, aceitando as exigências da vida”. Parece, então, que não consideram o fato de que a dinâmica da vida envolve uma constante transitoriedade entre “estar bem e estar mal” mesmo (e talvez principalmente) consigo mesmo. E quando incluem “aceitando as exigências da vida” ficamos meditando como é perigoso esse “aceitar” como regra de saúde, quando, às vezes, na verdade, o mais saudável é rejeitar. Além disso, é muito ampla essa idéia de “exigências da vida”. Que exigências são essas? Formuladas por quem? Por que são exigências??
Mais para frente afirmam que há saúde mental quando a pessoa lida bem com  suas emoções agradáveis e com suas emoções desagradáveis. Até aí tudo bem, mas é altamente questionável quando fazem duas listas de emoções dizendo que é agradável sentir amor, alegria, coragem, e serenidade (emoções boas) e desagradável sentir ódio, tristeza, medo e raiva (emoções más). Não nos resta dúvida de que, em diversos momentos, as emoções aqui catalogadas como más, são bastante necessárias ao equilíbrio mental. E como é bom, como faz bem – admitamos - uma explosão de raiva em determinados momentos!
            Também fazem uma lista com critérios de saúde mental, na qual constam: Atitudes positivas em relação a si próprio; crescimento, desenvolvimento e auto-realização; integração e resposta emocional; autonomia e autodeterminação; percepção apurada da realidade e domínio ambiental e competência social.
            Não vamos analisar um a um desses critérios, mas dizer que nenhuma jornada humana abarca essa linearidade. Repetimos que o nosso desenvolvimento saudável comporta idas e vindas, progressos e retrocessos, luz e sombra. Nosso desenvolvimento é sinuoso e não linear. Dessa forma não podemos categorizar o estado saudável como um estado na ordem desses critérios. Muitas vezes ser saudável implica em se negar, se auto-questionar, descontruir e romper com a norma de determinadas competências sociais.
Como, então, na perspectiva fenomenológica compreendemos “saúde mental”?
A título de iniciação lembramos que na abordagem fenomenologico-existencial, existem alguns conceitos que podem ser superficialmente entendidos, fazendo surgir práticas equivocadas realizadas em nome da fenomenologia ou da psicologia existencial, que poucos conhecem em profundidade. A existencial possui densos fundamentos filosóficos, não é uma linha psicológica fácil, pelo contrário, demanda muito estudo, muito tempo, muita dedicação para trabalhar a partir de seus princípios e métodos.
Podemos pensar no existencialismo como uma corrente filosófica que apresenta fundamentos para entender o homem em sua estrutura, sua angústia e o seu modo de ser e de se relacionar com o mundo. É, portanto, a teoria que embasa a prática nessa abordagem. Fenomenologia por sua vez, é o caminho que seguimos para encarar as sessões de terapia e vivenciar o nosso encontro com o cliente. É, portanto, a Fenomenologia, o nosso método.
A proposta existencialista é a de conhecer as fundamentações do homem, analisando as questões que ele coloca em pauta e que revelam a  estrutura desse ser-no-mundo. Existir é simplesmente você ser afetado por aquilo que vem ao seu encontro, e o homem só existe enquanto “ser abertura” e “ser-com”, aquele que se relaciona e é afetado pelo mundo, pelos outros homens, seres e coisas. Assim, vemos o ser humano a partir de suas relações e da maneira como ele é afetado por elas, como lida com os fenômenos.
A aparência não esconde a essência do homem, mas a revela. O psicólogo existencial não procurará, portanto, algo por trás do que se diz, mas entenderá o próprio dizer, as pequenas manifestações como sendo em si mesmas, reveladoras do sujeito, buscando analisar o jeito do seu cliente se relacionar com o mundo e de estabelecer vínculos. Coisas que revelam a sua  estrutura. Isto possibilita tanto o esclarecimento de sua essência, como o processo de constituição dessa estrutura de ser, sua identidade.
No momento do encontro com o cliente, não há julgamento, nem valores, uma vez que a teoria entrará num segundo momento (epoché). Cabe ao terapeuta estar presente e disponível a esse encontro, e cabe ao cliente apresentar o que há de importante, evidenciando o que deve ser trabalhado. O papel do analista existencial é seguir esse caminho, iluminando-o e revelando-o.
Nós, psicólogos existenciais nos esforçamos em encontrar o outro onde esse outro está, buscando compreender o que ele entende da forma como entende, para que ele se reconheça e assuma as responsabilidades de suas escolhas e do que continua escolhendo como sua forma de ser, porque o  homem é um ser livre, capacitado a escolhas e ao delineamento de sua própria vida. O homem, sim, é livre para escolher, mas isto não significa que suas possibilidades são ilimitadas. O campo existencial do homem revela limites relacionados a aspectos culturais, condições corporais, historicidade e sua ambiência, sendo que esse conjunto define suas possibilidades de escolha. Mas, por mais que se estreitem os nossos graus de liberdade, sempre teremos uma faixa de escolha e nela desfrutaremos da possibilidade de mudar a nossa existência. 

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[1] PSICANÁLISE E SAÚDE MENTAL: UMA APOSTA (204 p.)Sonia Alberti e Ana Cristina Figueiredo (Orgs) Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006.

domingo, 10 de outubro de 2010

SARTRE: INTELECTUAL DO SÉCULO

                             Existem poucas situações mais risíveis do que as infindáveis discussões entre dois pretensiosos donos da verdade. Podem ser muito divertidas, render diálogos dos mais irônicos, dignos de Woddy Allen. Lembro-me que há alguns anos meu amigo Alencar Arrais, dileto historiador, e eu discutimos durante dias quem teria sido o mais importante intelectual do século XX. Meu interlocutor defendia, concordando com um cânone publicado, creio eu, pela “Folha de São Paulo”, o nome do sociólogo alemão Max Weber. Eu não tinha dúvidas: o intelectual do século XX tinha sido o francês Jean-Paul Sartre. Sei muito bem que a produção de Weber é mais consistente, mas, ainda assim meus argumentos eram, em meu entender, indiscutíveis: além de sua vasta obra filosófica e artística, Sartre tinha a seu favor sua polêmica atuação política, a admirável petulância de recusar o Prêmio Nobel de Literatura e, talvez acima de tudo, o fato de ter sido um inexplicável símbolo sexual. O homem foi a práxis existencialista encarnada em carne, osso, óculos e cachimbo. Contudo, obviamente as discussões entre donos da verdade tradicionalmente não tem fim, como esta não teve. Foi apenas deixada de lado, vencida pela exaustão. Mas vai voltar. O lançamento do livro “O Século de Sartre – inquérito filosófico”, do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, dá-me farta munição para reabrir a nossa insignificante polêmica pessoal.
            “O Século de Sartre” não é uma mera biografia crítica sobre seu personagem título, vai muito além disso. É, sim, um verdadeiro inquérito filosófico sobre o impacto que o pensamento sartriano teve no século XX. É também uma proposta de redescoberta de seu pensamento. Apesar de Sartre nunca ter sido esquecido, tendo lugar cativo entre os gênios de todos os tempos, a decadência das utopias de esquerda que coincidentemente se seguiram a sua morte, ocorrida em 1980, relegou sua filosofia a desconfortável condição de peça de museu: fundamental como instrumento de análise de uma época, mas datada, ingênua e equivocada, quando fora de seu contexto histórico. Sartre que em vida foi uma longa coqueluche intelectual, uma moda que durou quarenta anos, depois de morto, ao contrário de alguns de seus contemporâneos, como Foucault e Camus, nunca entrou em moda. De certo modo, sua morte foi um alivio. Sartre fez barulho demais, incomodou demais, foi camaleônico demais ao longo de sua carreira para ser plenamente inteligível. O melhor seria mesmo deixá-lo no limbo de Dante, pensaram os sobreviventes.
            Não deixa de ser curioso e irônico o fato de que o porta-voz do novo sartrismo, seja Bernard-Henri Lévy, um dos principais nomes dos chamados “novos filósofos” franceses. Geração que fez fama, dentre outras coisas, criticando copiosamente Sartre e suas relações com os maoístas, stalinistas e outras sanguinárias ditaduras de esquerda. A relação entre Sartre e Lévy era tão azeda que o veterano chegou a acusar o novato abusado de ser um agente da CIA disfarçado. Como confessou em uma entrevista ao jornal “El Mundo”, Lévy, antes de se aprofundar em sua obra, considerava Sartre “um escritor chato, um filósofo insignificante e um intelectual que se equivocava sempre”. Porém, sua magnética figura o atormentava a ponto de fazê-lo planejar um livro para que pudesse exorcizá-lo. Foi durante a pesquisa que passou a vê-lo, forçado pela gritante qualidade de suas linhas, como “um escritor de uma modernidade formidável, como um intelectual que nem sempre se equivocou e como um filósofo de grande qualidade. Teve a coragem de tentar recomeçar a aventura filosófica”. Acima de tudo percebeu que, agigantando-se erros que de fato cometeu, transformaram-no em bode expiatório de todos os males do século. A certa altura Sartre não era mais Sartre, e sim o que falavam dele. Em suma, neste livro seu autor faz uma mea culpa e presta homenagem a quem considera o intelectual do século, o último intelectual total, o último filósofo à antiga, o “homem-século”.
                  Talvez quem melhor tenha expressado a real importância de Sartre tenha sido um de seus maiores desafetos, o general De Gaulle. O líder da França livre da Segunda Guerra Mundial sempre foi duramente criticado pelo filósofo. Quando seus conselheiros sugeriram que mandasse prender o arruaceiro, De Gaulle replicou “não se aprisiona Voltaire”.  A partir desta frase, que se converteu em clássico, tornou-se lugar comum dizer que Sartre teve em seu tempo o mesmo papel que Voltaire ocupava no século XVIII e Victor Hugo no século XIX. Lévy vai mais além, defende que “nunca, mesmo no século de Voltaire ou no de Hugo, um escritor ocupou lugar semelhante no imaginário de sua época”. Sartre foi muito além do que se esperava de um intelectual crítico, tornou-se uma potência política. E isto só foi possível graças a De Gaulle. A França do pós-guerra possibilitou o surgimento de um grande contra-poder espiritual para se contrapor a um grande poder temporal.           
                           Este papel só foi assumido por Sartre por ser ele o último intelectual total. Como uma espécie de Da Vinci, homem de mil talentos, foi filósofo, político, escritor, jornalista, dramaturgo, crítico, roteirista de cinema etc. Claro que os “judeus-de-sartre”, o nome que o autor dá a seus adversários, em referencia aos judeus que perseguiam Jesus de Nazaré, sempre poderiam argumentar que ele nunca foi o melhor em nenhum dos gêneros. Camus era melhor escritor, Merleau-Ponty um filósofo mais consistente, a verdadeira mola mestra da lendária revista “Les Tempes Modernes”, o mesmo se pode dizer de Raymond Aron. Mas, se me permitem uma comparação grotesca, Pelé também não: Garrincha driblava mais, Cruyff foi insuperável como gênio tático, Maradona foi mais habilidoso, Puskas tinha o chute muito mais poderoso. Contudo, Pelé foi o Rei por realizar igualmente bem todos os fundamentos de sua arte / esporte. Semelhantemente, o extraordinário em Sartre estava em sua polivalência. Seu desejo de “escrever em tantas línguas que uma se mistura com a outra”. De fato, apenas para citar um exemplo, ao escrever “A Náusea”, ele inventou um gênero literário em que é impossível separar a filosofia da literatura.        
                       “O Século de Sartre” mostra um personagem título múltiplo. Bernard-Henri Lévy fala de vários sartres que coexistiram, nem sempre de forma harmônica. Em um extremo esta o jovem dinâmico que clamava pela liberdade incondicional do ser humano. No outro o idoso enfraquecido simpático ao totalitarismo vermelho. No cerne desse debate interno está a figura espectral de Hegel. Para Lévy toda a carreira de Sartre foi concebida sob os auspícios do hegelianismo. Primeiramente um duelo. Sartre foi um radical “judeu-de-hegel”. O francês desejou mostrar que o modelo filosófico do alemão não era definitivo como se pensava, que a verdade absoluta ainda não havia sido revelada, que “Fenomenologia do Espírito” não é o evangelho que anuncia a vinda do messias do conhecimento humano. Escreveu o gigantesco e genial “O Ser e o Nada” para isso. Afirma que o existencialismo é contrario a história, sempre progressiva, devido à “individualidade irredutível da pessoa”. Retoma as questões fundamentais da vida, da morte, do tempo, da mentira e da verdade etc, deixadas de lado por Hegel e seu comentador Kosèje, e de resto por toda tradição filosófica posterior. Volta ao “Homem”, reabre o caminho da filosofia. Sartre está mesmo convencido de que “O Ser e o Nada” não apenas é superior a “Fenomenologia do Espírito”, como também é sua continuação. Essa saudável petulância fez de Sartre grande.           
                              Depois, entrega as armas. Com o passar dos anos Sartre nega sua obra, segundo Lévy, talvez assustado pela grandiosidade do que realizou. Desafiar à altura o mito invencível de Hegel. Chegou a afirmar que “O Ser e o Nada” é uma obra “absurda”, “escandalosa”. A negação total e absoluta de seu passado glorioso está em “Crítica da Razão Dialética”, livro esmagador, barroco, mal escrito, onde sua conversão ao marxismo grita que “se existe uma História e a de Hegel”. Declara suas idéias mortas. De “judeu-de-hegel” converte-se em “apostolo-de-hegel”. Aceita seu fracasso, ou por outra, fomenta seu fracasso. Inexplicável. O que resta é o Sartre idoso que urina nas causas em “Cerimônia de Adeus”, como foi descrito por sua companheira de vida Simone de Beauvoir. O homenzinho patético desprezado pelo imponente homenzarrão Fidel Castro, em sua visita a Havana. Um velho quase sem voz, cego e “curado de si mesmo”. Um homem célebre começando a ser esquecido por aqueles que o amavam e, ainda pior, ignorado por aqueles que amavam odiá-lo.
                             “O Século de Sartre” não é uma obra para leigos. De modo geral seu texto é divertido, até leve em certas partes, mas entremeado entre os episódios pitorescos existem discussões filosóficas pesadas, densas. Convêm conhecer o mínimo sobre seu personagem título, as lendas que giram em torno de seu nome, para não se perder no meio do caminho. Esse aconselhável conhecimento prévio tornara a leitura muito mais prazerosa e, certamente, proveitosa. Porém, não o isenta de certas irritações. Existem alguns senões. Os mais evidentes são certos capítulos em que o autor faz intermináveis e labirínticos malabarismos retóricos para, inutilmente, tentar convencer o leitor de que Sartre, algumas vezes, não estava realmente querendo dizer o que disse. O descartável capitulo intitulado “O Existencialismo é um Anti-humanismo”, resposta a famosa palestra “O Existencialismo é um Humanismo”, que Sartre proferiu em 1946, talvez seja o exemplo mais gritante; ao lado do fragmento “O que diz, Realmente, As Palavras”, onde Lévy lê as entrelinhas da autobiografia de Sartre. De resto se deve destacar negativamente alguns trechos escritos com uma irritante linguagem floreada, que Sartre certamente não aprovaria. Escorregões perdoáveis diante da excelência do todo.
                         “O Século de Sartre” é um livro fascinante. Demonstra com segurança sua tese e é, realmente, visceral. Percebe-se em cada linha o prazer com que Bernard-Henri Lévy escreveu. A satisfação que sentiu ao perceber que estava errado, que encontrou em Sartre o seu Hegel. Dessa vez com tempo para remediar e capitalizar a descoberta. Enfim, temos agora nas livrarias brasileiras um ótimo argumento que pode, talvez, finalmente fechar o debate sobre quem teria sido o intelectual síntese do século XX. Portanto, caríssimo Alencar Arrais, xeque. É melhor fugir com seu rei.