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sábado, 3 de abril de 2010

Um conto sobre (des)encontros

ANDANTES

Se sei que o momento mais difícil de uma relação é quando acaba, o mais emocionante é quando recomeça. Fiquei sozinha nesse Café. Charles se foi. Acendendo um cigarro observo pessoas à minha volta. Nem mesmo essa fumaça é capaz de expulsar o perfume abandonado em minhas mãos. Todo perfume tem memória, e esse, sozinho, é capaz de contar da nossa relação a história. Insustentável história de um cara que exibe clássica pinta de executivo, e eu – contraponto - despreocupada “free-lance”.
Não costumo fumar, mas acendo quando acho que mereço. Estava triste, sofri uma perda. Cabia um cigarro, sem culpa. No Café crianças jogam no computador, enquanto solitários – página a página - mexem na internet para matar o tempo. Numa mesa do fundo um casal conversa, ri e troca beijos. Parecem felizes. Já eu, não atino o que fazer. Falta coragem de levantar e descobrir que simplesmente não tenho aonde ir.
Eu - Suzy, fotógrafa, 24 anos - talvez seja louca -- se loucos são os insatisfeitos com a realidade comum, os que não aceitam que cumprir rotinas seja a definição de viver. Passei a curtir uma sensação especial de liberdade, quando eu e Charles decidimos morar em casas separadas. Hoje sou livre. Posso dormir ou não dormir. Jantar ou não jantar. E ficar de luz acesa até quando bem entender. Sobretudo – e isso é o melhor de tudo - posso ficar triste sem ter que dar explicações. E como é difícil, e inútil, e cansativo, explicar a tristeza.
Tenho vontade de ir atrás de Charles para dizer que não é nada disso (seja lá o que for que ele pense que seja isso) e prometer alguma coisa que reverta a situação. Uma pena eu não ser uma mulher daquelas que correm atrás, que dizem coisas que funcionam, que juras fazem e garantias empenham, mesmo que jamais se cumpram. E quem disse que juras de amor são para se cumprir? Outra em meu lugar se jogaria aos seus pés, e no meio da multidão aprontaria uma loucura, para chamar de vez sua atenção e provar que não era nada daquilo. Nada daquele papo cabeça, daquela filosofia besta que desenrolamos no café.     
Mas não tenho talento para tanto. Nem com texto decorado conseguiria. E além do mais... ele pertence a um planeta diferente. Ou será que sou eu? Acho que sou de um lugar onde a felicidade se faz de coisas novas, especiais. Tão especiais que nem sei que mistério é esse a que tanto aspiro.
Preciso domar minha ansiedade. O cigarro acabou. Tomo um copo inteiro de água quase gelada. Resolvo andar, porque me faz bem. Caminhando observo as pessoas e imagino seus problemas. Será que elas são facilmente felizes ou imensamente exigentes, como eu?
Está me fazendo bem andar a pé pelo centro do Rio, assim sem motivo, em plena tarde de segunda; quando tantos que hipnotizados com trabalhos e afazeres se envolvem em uma correria louca. Talvez, para ser feliz seja necessário se envolver em alguma correria; mas... e se esta for uma fórmula contrária, feita só para esquecer a infelicidade? Talvez a felicidade seja só isso: não pensar.
Enquanto penso em não pensar, observo pessoas que se movem freneticamente, sem se dar conta de quem passa ao lado. Mecanicamente caminham, como únicas, como solitárias, invisíveis. Entro em um edifício qualquer. De uma janela no 17º andar olho aos meus pés a Rio Branco. Multidões, como um bando de formigas, formam um bloco na beira da calçada. Sinal vermelho dos pedestres. Ali todos se encontram, mas não se acham. Essa forçada convergência não é motivo para que se admirem. Adivinho que não se olham. E que jamais se tocam. No máximo se esbarram. Caminham sós. Continuam sós. Tantos e ninguém. O sinal abre, e rapidamente atravessam a avenida. Blocos humanos, em esquinas de sinais, agem de forma sincrônica, numa harmonia eletrônica, dirigidos por luminosos que abrem e fecham. Verde-amarelo-vermelho, comandando a ação dos que seguem sem olhar para os lados, sem se importar com quem está por perto.
Estou há meia hora dentro de um prédio onde entrei sem ser vista. Vista, quem sabe, talvez. Mas não notada. Não houve quem comigo se importasse, mesmo que por motivos burocráticos ou de segurança. Simplesmente subi. Contei nove pessoas no elevador. Sem precisar que o ascensorista pedisse, ditavam números: onze, oito, vinte e dois, vinte e um. Falei dezessete. Poderia ter dito qualquer número, mas escolhi o 17; um número que ninguém havia falado. Algumas pessoas me olharam rapidamente. Temi que estivessem adivinhando que eu não tinha nada a fazer no dezessete. Mas tudo que sabiam de mim é que eu havia falado dezessete. Não se importavam que meus cabelos agora são ruivos, que meu lábio hoje é rosa e que minha sandália verde combina com o cinto que segura o meu “jeans délavé”. Não notaram que não estou vestida de executiva, e que não se trabalha nesse prédio sem um belo tailleur. Talvez tenham percebido apenas o decote da minha blusa de seda branca. E se deram por satisfeitos.
Ainda absorta em meus pensamentos, ouço o ascensorista olhar para o alto e bradar:
17! Saio intrigada com o fato de que quase todos, no elevador, olhavam o tempo todo para o alto. Concluo definitivamente: nem mesmo minha blusa notaram.
Espiando lá em baixo, tento compreender o movimento da Rio Branco. São 16 horas. Daqui do alto me suponho no papel de uma deusa, de um ser superior, cujas mãos pudessem comportar poder sobre vidas e destinos. Então, se assim fosse, o que eu faria? Pararia a Rio Branco? Faria as pessoas lá embaixo repararem melhor umas nas outras? Já sei... faria todos se abraçarem, se unirem em um protesto pacífico contra todo tipo de guerra e violência. Ah, mas nada disso seria necessário. Tão poderosa assim, eu – direto - poria fim às guerras e a toda forma de dor e injustiça. Proclamaria o amor. Decretaria a paz, dando força a todo sentimento bom e, assim, destruiria o mal. Isto alcançaria não só a Rio Branco, mas todo o Rio, o Brasil, o mundo inteiro.
E se não for possível ser feliz sem dor? E se a angústia for necessária à plenitude da existência? Imagino que existir sem angústia é existir sem emoção e sentido, como a vida sem a morte, o som sem o silêncio. E se para tudo há um oposto que o complementa, no lugar de acabar com a angústia o melhor seria aprender o seu manejo. E o poder, que me imagino tendo, serviria para multiplicar as sementes da paz. Entretanto, minha sincera vontade nesse momento seria usar algum poder que me trouxesse Charles de volta, mas não como antes. Já que posso escolher livremente, gostaria de tê-lo liberal em relação às minhas manias e predileções.
Acho que estou egoísta, e amar é o contrário disso. Charles é meu contrário, e esse tipo de amor só emplaca quando aprendemos a renunciar, a abrir mão. Não sei se dá para ser moderna, valente, politizada ... e amar.      Ele não quer, definitivamente não quer, que vivamos em casas separadas. Sem perceber preferi me separar dele à minha nova casinha. Pensei que sair da casa seria como separar de mim mesma. E agora não quero mais a casa, mas ele.
Nunca pensei, forte como sempre me soube, parar um dia no 17º andar de um prédio desconhecido só para ruminar dores de separação. De nariz colado na vidraça meus olhos acham a maçaneta dessa grande janela que me separa do abismo. Aqui penso que sou livre, tão livre que posso atirar-me lá embaixo. Nada me impede. Ninguém pode ser protegido de si mesmo. Mas o medo é maior que tudo. Maior que a curiosidade de saber o que é se espatifar no asfalto dessa avenida. Maior que o imã que me atrai. Agradeço meu medo. Sinto que vou chorar. Mas antes disso acontecer, resolvo sair do prédio.
Desço em um elevador ainda mais lotado, porém mais silencioso. Agora ninguém cita qualquer número. Todos vão para o térreo. Mas também não avisam. Acho que não precisa. Gente compenetrada, cansada de mais um dia de trabalho. Eu, frila, sinto que me falta um contrato a cumprir, um horário a obedecer. Talvez assim não tivesse tempo de pensar. Quem não sabe pensar, não sabe sofrer. Charles não sofre.
A porta se abre. O povo sai quase que em um só bloco. Todos, como sempre, apressados. Também isto me diferencia. Subo a Rio Branco. Contemplo a bela arquitetura do Teatro Municipal. Do outro lado, a Biblioteca Nacional. Caminho pelas escadarias da Câmara e depois me sento em um barzinho para tomar um chope. Peço uma água, não muito gelada. Eu devia comer alguma coisa, mas não quero nada. A comida disfarçaria a dor de uma solidão que quero sentir até o fim. Preciso dar o máximo de atenção ao meu sofrimento, pois talvez a solução esteja em algum ponto cego desse meu drama interno, e esse ponto me escapa se não me mantenho atenta.         
Ando pela Lapa, Arcos da Lapa, e entro na sala Cecília Meireles. Um pianista ensaia um andante que me atrai. Aproximo-me para ouvir melhor, como que hipnotizada por aquele teclado suave e reconfortante. Sento-me em uma poltrona na última fila e de olhos fechados recosto a cabeça em um braço macio.
De repente me sinto bem, muito bem. Tenho a sensação de sentir o perfume de Charles. Mantenho-me de olhos fechados para não me fugir à memória essa fragrância que dá tanta saudade. Alguém me beija os lábios.
Sem entender, mas já desfrutando e me entregando a essa sensação, tão surpreendente quanto agradável, escuto a voz de Charles dizer: caminhemos.
(Autor: Walmir Monteiro. Email: monteiro.walmir@gmail.com)