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domingo, 1 de abril de 2012

GESTALT-TERAPIA E FILOSOFIA


        
**Georges Daniel Janja Bloc Boris

            Esta conferência parte de uma dupla constatação: por um lado, minha crença na gestalt-terapia como uma abordagem psicoterápica viável, mas, por outro lado, o reconhecimento de uma prática freqüentemente superficial e tecnicista. Acredito que isto se deva, em grande parte, a um parco conhecimento da fundamentação teórico-filosófica, o que leva, muitas vezes, a uma dificuldade de ‘leitura’ dos processos psicoterápicos vivenciados. Para tanto, acredito ser necessária a retomada de nossa fundamentação teórico-metodológica. Assim, gostaria de partir de uma breve revisão do processo de construção da gestalt-terapia:
 1. Psicanálise. Fritz foi psicanalista durante várias décadas. Após algum tempo na África do Sul, participa do Congresso Internacional de Psicanálise, em 1936, na Tchecoslováquia, onde apresenta o trabalho “Resistências Orais” (mal recebido) e se decepciona com Freud e Reich. Em 1942, em Durban, publica “Ego, Hunger and Aggression: A Revision of Freud’s Theory and Method” (subtítulo apenas suprimido em 1969, na edição americana, o que revela sua inclusão no seio da psicanálise). Nesta obra, destaca a importância da ingestão de alimento físico e mental e sua assimilação (fome); esboça uma teoria do desenvolvimento a partir da agressão oral; enfatiza a importância do tempo presente e as questões das polaridades, do corpo e da síntese de novas experiências; trata da integração entre a vida pessoal e profissional do psicoterapeuta, pela qual batalhou sempre; destaca a necessidade conhecimento sobre semântica; propõe uma terapia de concentração (Shepard, 1977).
            Destaque-se que esta obra ainda não foi publicada, por razões obscuras, em português, mas que se trata de um texto fundamental para a compreensão do que vem a ser a gestalt-terapia, sendo um dos escritos mais consistentes de Fritz. Goste de destacar a necessidade de revisão de nossos vínculos e de nossa diferenciação com a psicanálise, por exemplo, quanto à questão da transferência.
 2. Pensamento Diferencial (Dialético) e Filosofia Oriental. Nos anos 20, Fritz entra em contato com o filósofo Friedländer, em Berlim, e com sua teoria da ‘indiferença criativa’, que se assemelha ao taoísmo. Esta teoria afirma que “cada evento está relacionado a um ponto-zero, a partir do qual uma diferenciação em opostos ocorre. Estes opostos apresentam em seu contexto específico uma grande afinidade entre si. Permanecendo alertas no centro, podemos obter uma habilidade criativa de ver ambos os lados de uma ocorrência e completar uma metade incompleta” (Perls, 1969, p. 15). Esta influência vai se manifestar no nosso trabalho com as polaridades. Portanto, são necessárias uma revisão de nossa metodologia psicoterápica e uma melhor compreensão das práticas orientais.

3. Holismo, Teoria Organísmica e Psicologia da Gestalt. Por volta de 1926, Fritz entra em contato com a psicologia da gestalt, através de sua futura mulher, Lore Posner (depois, Laura Perls), e com a teoria organísmica, de Kurt Goldstein. Em sua autobiografia (Perls, 1979), Fritz reconhece sua pouca profundidade sobre a psicologia da gestalt, admitindo sua maior ênfase à diferenciação figura-fundo e à idéia de situação inacabada. Sua maior relação se dá com a teoria organísmica, cuja “premissa é que é a organização de fatos, percepções, comportamentos ou fenômenos, e não os aspectos individuais de que são compostos, que os define e lhes dá significado específico e particular” (Perls, 1977, p. 18).
 Em 1951, nos EUA, Fritz publica, com Hefferline e Goodman, e a ajuda de Laura, aquela que é considerada a ‘bíblia’ da gestalt-terapia, “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality”, também não publicada em português. (Pode-se perguntar porque as obras mais importantes e consistentes de Fritz não são publicadas no Brasil). Os limites de Fritz e a publicação desta obra vão se refletir na sua prática grupal, nos anos 50 e 60: uma psicoterapia individual pelo (centrada no psicoterapeuta) grupo. Fritz parecia fazer um trabalho não compreensivo das potencialidades psicoterápicas do grupo. Nos anos 70 e 80, alguns seguidores de Fritz (Feder & RonalI [orgs.], 1980) passam a trabalhar com os níveis intrapessoal, interpessoal e grupal (e não apenas o nível individual, como fazia Fritz) e a elaborar teórica e praticamente as regularidades e fases grupais (dependência, contra-dependência e interdependência).
Assim, acredito ser necessária uma melhor compreensão dos fenômenos e processos grupais, sugerindo a concepção dos grupos como comunidades cooperativas vivenciais (além dos aspectos psicoterápicos).
 4. Fenomenologia e Existencialismo.
 a) Fenomenologia. Esta proporciona a metodologia básica de todas as abordagens existenciais. Fritz, infelizmente, em 1946, vai para os EUA e enfatiza a divulgação da gestalt-terapia como criação sua e negligencia teoricamente as raízes metodológicas da mesma.
 . Brentano (1838-1917). Mestre de Husserl e precursor da fenomenologia, propõe um empirismo diferente do empirismo inglês (que observa vários fatos e abstrai e generaliza as notas comuns): toma “um único caso” e busca ver o que nele é essencial (em que consiste, sem o qual não é), obtendo a essência do fenômeno. Isto se manifesta na gestalt-terapia quando ficamos com o que está, com a pessoa que temos à nossa frente e não com a sua classificação, a partir de uma generalização. O nome de Brentano também está associado à psicologia do ato (ou processual), em oposição ao estruturalismo (psicologia dos conteúdos): a psicologia deve estudar os atos ou processos mentais (psíquicos) da pessoa e não os conteúdos ou objetos (físicos). Isto se manifesta na gestalt-terapia na preponderância do como sobre o porquê. Brentano trata da intencionalidade dos fenômenos psíquicos, num prenúncio da fenomenologia, desenvolvida por Husserl.
 . Husserl (1859-1938). Matemático, Husserl aproxima-se da filosofia através de Brentano. Em sua época, Marx, Freud e Nietzsche ainda não tinham a força que viriam a ter. A filosofia se volta para as ciências positivas, as matemáticas, enfatizando a objetividade e abandonando na especulação e a intuição. A psicologia tentava ser uma ciência exata, adotando o método das ciências naturais, eliminando a subjetividade e a intuição.

            Husserl critica a psicologia da época por adotar esta metodologia sem perceber que seu objeto é diferente. Diz que temos um acesso indireto à natureza (objeto das ciências naturais), a partir de fatos hipotéticos, que permitem uma reconstrução e, portanto, uma explicação, isto é, a criação de leis e causas. A vida psíquica, por sua vez, é um dado imediato, ao qual temos acesso apenas através da descrição, permitindo a compreensão do fenômeno ou do processo. A partir disso, propõe uma Fenomenologia que reúna os dados da experiência em sua totalidade (fenômeno) e o pensamento racional (logos).
                 Ora, os fenômenos nos são dados pelos nossos sentidos, mas estes são dotados de um sentido ou essência. Para tanto, Husserl propõe uma intuição originária, da essência ou dos sentidos, ou “retorno às coisas mesmas”, que define como “a visão do sentido ideal que atribuímos ao fato materialmente percebido e que nos permite identificá-lo”. Isto se revela na gestalt-terapia através de uma atitude não interpretativa, na busca do sentido do fenômeno pelo cliente, através de sua identificação e assimilação das partes alienadas, por exemplo, no trabalho com sonhos e fantasias.
                Husserl propõe, também, o principio da intencionalidade: a consciência é sempre “consciência de alguma coisa”, estando “dirigida para” um objeto, que é sempre “objeto para um sujeito”, isto é, a existência intencional dos objetos na consciência. A ênfase ao que está presente à consciência é uma amostra deste princípio na gestalt-terapia.
          Baseado também na totalidade consciência-objeto, Husserl sugere a análise intencional, que não significa que o objeto esteja contido na consciência, mas que só tem seu sentido para uma consciência. Esta difere do senso comum, pois não existe objeto em si, mas objeto percebido, pensado, imaginado etc. Consciência e objeto não são entidades separadas, mas formam uma relação co-original. Para tanto, é necessária uma redução ou abstenção fenomenológica (“epockhé”), uma colocação entre parênteses da realidade tal como a concebe o senso comum (como existindo em si, independente de todo ato de consciência), ou seja, uma suspensão dos “a priori”, pressupostos e pré-conceitos. Isto se revela na gestalt-terapia em uma atitude de empatia, de não avaliação, de ênfase no óbvio.
 . Merleau-Ponty (1908-1961). O psicólogo, antropólogo e filósofo francês tem como tema fundamental a relação entre o homem e o mundo. Analisa as investigações psicológicas das décadas anteriores e busca eliminar a interpretação causal da relação entre corpo e alma, vendo esta relação como uma dualidade dialética de comportamento, expressa em níveis e significados diferentes. Afirma que a consciência é sempre um eu consagrado ao mundo. Seu conceito central é a “carne”, constituidora da inserção da consciência no mundo, dotada de um instrumento para a projeção de um mundo cultural, a ‘linguagem’, um sistema particular de vocabulário e sintaxe, revelador do ser ou de nossa ligação com o ser. Vê o mundo e o homem como sempre ‘abertos’, ‘inacabados’ em seu significado, reenviando sempre para além de suas manifestações determinadas. São dotados de ‘ambigüidade’. De acordo com Rezende (in: Forghieri [org.], 1984), Merleau-Ponty propõe critérios para a constituição de uma psicologia fenomenológica:
- humana: pois estuda o homem em não os animais ou um mundo inferior;
- estrutural: estuda as diversas experiências humanas na integração de diversos níveis, mundos e formas (estruturas);
- dialética: reconhece a pluridimensionalidade existente no interior da existência, em oposição ao psicologismo, que reduz os sentidos do humano a apenas alguns aspectos;
- simbólica: pois o mundo é o mundo do símbolo, caracterizado pela polissemia (vários significados) e pela encarnação (tornar ‘carne’) do sentido. Nenhum sentido esgota a polissemia do homem;
- existencial: pois não é uma teoria apenas sobre o humano, mas um estudo sobre seu existir concreto (comportamento); acompanha não só as etapas já vividas, mas apreende atualmente (presente) o sentido do que está sendo e do seu vir-a-ser (futuro). A fenomenologia de Merleau-Ponty, finalmente, preocupa-se com a essência das coisas, mas recolocando a essência na existência; melhor dizendo, preocupa-se com a essência (do) existente.
 b) Existencialismo. Proporcionou maior concretude à metodologia fenomenológica através de sua aplicação às questões da existência humana.
 . Kierkegaard (1813-1855). “Pai do existencialismo”, este filósofo cristão desenvolveu suas idéias a partir de sua existência pessoal, rejeitando qualquer sistematização e superenfatizando a subjetividade e a existência pessoal. Isto se revela na gestalt-terapia em sua negligência à objetividade, à existência coletiva e à necessidade de teorização sistemática.
 . Nietzsche (1844-1900). Filósofo “maldito” e, portanto, influência pouco explorada na gestalt-terapia, é “pai” da vertente existencialista materialista, tendo seu nome ligado às idéias do “Super-Homem” (homem auto-atualizado), de “vontade de potência” (plenificação e retomo da vida) e do “trágico” (integração entre os aspectos “dionisíaco” - de Dionísio, deus da música, da embriaguez e da ultrapassagem dos limites - e “apolíneo” - de Apolo, deus da bela forma, da escultura, dos limites individualizantes e da lucidez) (Fonseca, 1988). Estes aspectos podem ser percebidos na gestalt-terapia na crença na capacidade de auto-atualização humana e a expressão da totalidade caos-ordem nos grupos vivenciais.
 . Buber (1878-1965). Filósofo judeu que desenvolveu a categoria do diálogo (Buber, 1977; 1982) como a integradora entre a vivência e a reflexão e propiciadora da criação de comunidades humanas. Trata das atitudes básicas da existência humana: a atitude Eu-Tu, caracterizada pelo envolvimento e dotada de reciprocidade, imediatez, presença e responsabilidade (plenamente enfatizada pela gestalt-terapia); e a atitude Eu-Isso, caracterizada pela separação ou distanciamento e necessária para a produção teórico-científica (negligenciada ou mesmo rejeitada na gestalt-terapia). Assim, a gestalt-terapia como uma psicoterapia baseada no encontro existencial seria dotada de dois movimentos: relação (Eu-Tu) e distanciamento (Eu-Isso), sem os quais não se caracteriza como tal, uma vivência da teoria e uma teorização da vivência.

. Heidegger (1889-1976): filósofo que desenvolveu a concepção de “Dasein”, o “ser aí”, determinado no tempo e no espaço, singular concreto, que pergunta pelo sentido do Ser, o homem. Suas características seriam a facticidade (um ser de fato, dotado das coisas do mundo), o “ser com” (o fato de conviver com outros “Dasein”) e a temporalidade (através da qual realiza a sua essência). Suas categorias básicas ou “existentialia” seriam o entendimento (negligenciado pela gestalt-terapia), o sentimento (enfatizado pela mesma) e a linguagem (destacada por Fritz, mas pouco enfatizada pela gestalt-terapia). A autenticidade seria exatamente a realização destes “existentialia” (Penha, 1984).
 . Sartre (1905-1980). O grande nome do existencialismo é pouco citado por Fritz, mas poderíamos nos referir à sua noção de “projeto” (o homem como próprio construtor de sua essência) e de “responsabilidade” (habilidade de resposta).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 FEDER, B. & RONALL, R. (orgs.) Beyond the Hot Seat: Gestalt Approaches to Group. New York: Brunner/Mazel, 1980.
FONSECA, A.H.L. da. Grupo: Fugacidade, Ritmo e Forma. Processo de Grupo e  Facilitação na Psicologia Humanista. São Paulo: Ágora, 1988.
PERLS, F. S. Ego, Hunger and Aggression: The Beginning of Gestalt Therapy. New York: Random House, 1969.
_____. A        Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
_____. Escarafunchando Fritz: Dentro e Fora da Lata do Lixo. São Paulo: Summus, 1979.
REZENDE, A. M. de. “Fenomenologia e Dialética” in: FORGHIERI, Y. C. (org.) Fenomenologia e Psicologia. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1984.
SHEPARD, M. Fritz Perls: La Terapia Guestaltica. 1. ed. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1977.
 

* Conferência apresentada ao I Encontro Norte-Nordeste de Gestalt-Terapia, em Recife, de 29/11 a 02/02/1990.
** Psicólogo (UFC, 1981), gestalt-terapeuta (treinamento com Gercileni Campos, 1987), professor e supervisor em psicologia clínica (UNIFOR, 1985), mestrando em educação (UFC, dissertação “O Processo de Cooperação na Psicoterapia de Grupo em Gestalt-Terapia”).