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domingo, 12 de novembro de 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

quinta-feira, 31 de agosto de 2017


COBRANÇAS SUFOCAM QUALQUER RELACIONAMENTO
(Thamilly Rozendo)

Muitos relacionamentos fracassam por causa da cobrança excessiva, por tentarmos encaixar o outro no que sempre idealizamos, querendo que o outro seja uma cópia exata dos nossos anseios. Assim, não conseguimos ver e respeitar o outro na forma como ele é, não conseguimos apreciar aquilo que o difere dos padrões que criamos. Uma pena, porque dessa forma nos impedimos de conhecer a magia do novo, impedimos a experiência de amar alguém que seja diferente de nós.
Você não irá encontrar alguém perfeito e, provavelmente, se desistir de seu relacionamento por causa das diferenças, é bem provável que ao se relacionar novamente, encontrará novos problemas. O segredo do relacionamento feliz é não exigir que o outro mude, mas aceitar as diferenças e aprender a lidar com elas.
Se as diferenças detectadas não forem graves ao ponto de travar a sua liberdade e a sua dignidade, não razões para lutar contra elas. Repito: todas as pessoas são de algum modo diferentes. Você não pode querer olhar para o outro como se mirasse num espelho.
Qual o problema se você gosta de cappuccino gelado e ele, quente? Se você gosta de ver um filme de romance e ele, de comédia policial? Qual o problema se ele não é daqueles caras que falam “eu te amo” todo dia? Ou que mandam flores para você no seu trabalho?
E se o modo de ele amá-la é passando a maior parte do tempo com você? E se for o contrário? E se a forma de demonstrar que a ama é pagar a entrada do cinema?
E se o jeito dele te agradar for pedir ao garçom um suco de laranja antes mesmo de lhe perguntar, porque sabe que é o seu preferido.
E daí que ele gosta de jogar vídeo game aos domingos, ou futebol com os amigos? E daí que ele às vezes é meio esquecido? E se a maneira dele amar é preparar um jantar a dois em casa mesmo, sair com você num sábado à noite qualquer para tomar um sorvete, perguntar aos amigos se pode levar a namorada ao churrasco da faculdade e fazer questão da sua companhia sempre? E daí?
Ele pode não postar fotos com legendas bonitinhas e não mandar aqueles textos enormes no Facebook para todo mundo ver. Talvez seja um pouco desligado e não comente todas as suas fotos.
Mas, às vezes, na maioria das vezes, a maneira de amá-la é dizendo o quanto você está linda quando acorda com o seu pijama velho e o cabelo desarrumado. Quando deixa aquele bilhetinho despretensioso com poucas palavras no seu livro favorito. Talvez a forma de amar você seja dando um beijo na sua testa na frente dos amigos, ou enquanto esperam o elevador.
Às vezes, sufocamos um relacionamento com tantas cobranças, deixamos de valorizar o modo como o outro nos ama por querermos que esse alguém nos ame exatamente como nós amamos. Esquecemos que o amor não é uma teoria singular, não há uma definição única. Amor é algo tão particular, que cada um ama do seu jeito e exterioriza o que sente de forma diferente. Não é algo a ser comparado e, quando agimos dessa forma, anulamos o amor que está nas entrelinhas, descartando aquilo que é nobre e sincero.
Quando a gente entende isso, o amor se torna mais leve, torna-se mais bonito, porque descobrimos que o novo é belo e não assustador como parece. E, então, às vezes, assim sem querer, melhoramos muita coisa em prol do outro, não porque ele nos pede incessantemente, mas porque queremos.

O amor é um aprendizado constante, uma escolha diária. O amor é simplicidade. Relacionamento baseado em cobranças acaba se desgastando e o amor perde a sua leveza. Precisamos saber reconhecer o novo valorizando a pessoa com quem nos relacionamos. Lidar com as diferenças exige maturidade e não é uma tarefa fácil. É o  modo como escolhemos nos relacionar que sustenta o amor, contorna as dificuldades, suporta as tempestades e nos dá a realização afetiva.

terça-feira, 4 de julho de 2017

O AGRESSOR PSICOLÓGICO

“A violência psicológica transforma você, na sua mente, em um inútil”.
-Ana Isabel Gutiérrez Salegui-
Eles estão em qualquer ambiente ou lugar. Na vida familiar, nos relacionamentos de casal, nos amigos, na escola, na universidade, no trabalho. Não existe escapatória. Ali estão e não é possível evitar a sua presença. O que podemos fazer é identificá-los a partir de traços característicos. Por isso é importante estar alerta e saber interpretar quais poderiam ser as verdadeiras intenções de uma pessoa. Embora não existam critérios definidos entre psicólogos e pesquisadores do tema, o agressor psicólogo está longe de ser um doente mental. Na maioria dos casos simplesmente prejudica por exercer o poder que tem sobre o outro. Por isso existem características marcantes que o definem.
Estas são cinco delas.
1. A intolerância e o agressor psicológico - O agressor não aceita as diferenças. O seu mundo é o único mundo possível e não valoriza o dos outros. Nos seus relacionamentos com o sexo oposto sempre considera o outro inferior. São casos de machismo ou feminismo levados ao extremo. Aproxima-se somente daqueles que se identificam com ele, assumindo distância dos demais e adotando atitudes de rejeição. Deixa-se levar pelos preconceitos sociais. Por isso é comum vê-lo discriminando e tendo pouca consideração para com quem é diferente.
2. Rigidez - O agressor é narcisista: pensa e age como se fosse dono da verdade. As razões dos outros não lhes interessam. Tende a impor suas ideias sem se importar com o contexto onde se encontra. Na hora de estabelecer acordos, não cede um milímetro porque acha que seus pontos de vista devem ser aceitos. Um agressor psicológico acredita dominar todas as situações e ter sempre razão. Os outros estão sempre enganados e suas ideias discrepantes estão erradas pelo fato de serem discrepantes. É um líder negativo que sempre tem a intenção de aparecer, manipular e ser o centro da atenção.
3. Pensamento dicotômico - Para uma pessoa com esta configuração psicológica dualista, só existe o branco e o preto. Não admite nuances de nenhum tipo. O fato anterior a impede de perdoar, de considerar as circunstâncias de alguém que tenha se enganado ou, simplesmente, que seja incapaz de reconhecer seus próprios erros. Para este agressor cai como luva a frase “a distância entre o amor e o ódio é só um passo”. Assim concebe a vida: como dois extremos que, quando se tocam, provocam choques terríveis. Para ele as coisas são boas ou ruins; existe a verdade ou a mentira; ganha ou se perde. Reage de acordo aos princípios com os quais compreende a vida.
4. Hipersensibilidade - É o tipo de pessoa que tem dificuldade para lidar com suas emoções. Quando fracassa, custa a recomeçar. Se triunfa, então acha que alcançou o céu com as mãos. Todo extremo é enganoso, diz a sabedoria popular. Mas o agressor psicológico vê com bons olhos o extremismo. Não faz autocrítica real e se julga de forma superficial. Costuma se deprimir com facilidade e frequentemente cai em profundos abismos dos quais ninguém tem capacidade de resgatá-lo. O fato anterior é fruto da sua baixa autoestima. Isto faz com que se mantenha em permanente estado de ansiedade e tenha a tendência de se colocar como vítima.

5. Encanto - Enquanto ganham a confiança da sua vítima, se comportam como as melhores pessoas do mundo. É complicado para as pessoas que estão ao seu redor descobrir suas verdadeiras intenções. O agressor psicológico é um ator digno de ganhar todos os prêmios. Surpreende o seu carisma e onde quer que chegue sempre é muito agradável para as pessoas. Mesmo quando tira a sua máscara e deixa exposto o seu verdadeiro rosto, as outras pessoas (principalmente a vítima) se negam a crer que estão diante de um agressor. Acontece que a frustração é tanta que é provável que algumas pessoas nunca consigam aceitar essa terrível e desconcertante verdade. Apesar de todos esses traços, o agressor psicológico costuma ter uma vida cheia de sofrimentos. O seu pior castigo é não poder realmente amar ninguém. Por isso existe solidão e vazio no seu dia a dia. Ele também é vítima de si mesmo.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A FENOMENOLOGIA DO RENASCIMENTO - The phenomenology of rebirthing

Fenomenologia do Renascimento

Walmir Monteiro[1]


Resumo
            O que conduz este artigo é uma verificação daquilo que fundamenta os princípios gerais do rebirthing de Leonard Orr e uma análise teórica da descrição da execução dessa ferramenta terapêutica conhecida entre nós como “Renascimento” tal como foi introduzido no Brasil por Samvara Bodewig. A partir de uma completa descrição conceitual e prática do “Renascimento” verificamos a existência de dois pilares teóricos que lhes concedem formal sustentação teórica e prática. Trata-se da “Fenomenologia” de Edmund Husserl e Merleau-Ponty e do conceito de integração tal como nos ensina a “Gestalt-terapia”. Parece-nos, então, que o “Renascimento”, prática há muito tida como alternativa, na verdade apresenta uma fundamentação, além da simples fisiologia da respiração, quando finca fortemente suas raízes em conceitos fenomenológicos.

Abstract

            What drives this article is an examination of what underlies the principles of "rebirthing" of Leonard Orr and analytical description of the implementation of this therapeutic tool known to us as "Rebirthing" as introduced in Brazil by Samvara Bodewig. From a complete description of the conceptual and practical of Rebirthing verify the existence of two theoretical pillars that grant them formal theoretical and practical support. This is the "Phenomenology" of Edmund Husserl and Merleau-Ponty and the concept of integration as it teaches us to Gestalt therapy. It seems, then, that the Rebirthing, a practice long regarded as an alternative actually has a scientific basis beyond the simple physiology of breathing, when finca strongly rooted in phenomenological concepts.

Objetivo         
            O objetivo deste artigo foi o de analisar as fundamentações do Renascimento, uma técnica de respiração circular e consciente. Circular porque obedece a ciclos de inspiração e expiração. E consciente porque durante todo o tempo o próprio cliente comanda sua própria respiração. Esse processo não objetiva a regressão e alcançar lembranças, memórias ou reflexões acerca de conteúdos mentais. O processo, durante todo o tempo de uma sessão é focado somente na respiração, para que a pessoa experimente novas sensações, emoções e experiências ao soltar todas as tensões da inspiração, permitindo uma expiração relaxada dentro da proposta de uma respiração ampla, consciente e conectada com toda e qualquer sensação física ou mental que deve ser integrada durante o processo.
            O exercício não é indutor e nem se propõe à resolução de coisa alguma, apenas se respira e se permite entrar em contato com aquilo que está presente, tendo como objetivo a integração, já que o organismo é mobilizado em sua necessidade de reorganização para que tudo se acomode em nosso corpo e mente, permitindo certo realinhamento, reorganização, fruto da integração proporcionada pela respiração que nos faz apenas entrar em contato com uma série de coisas que na verdade se modificam sozinhas quando acolho tudo o que sinto em mim, tudo o que sinto na minha respiração.
            Todas as coisas do mundo que me cerca constituem perceptualmente um cogito pré-reflexivo, mas, fora dos moldes cartesianos, Merleau-Ponty afirma que o que descubro e reconheço pelo Cogito “é o movimento profundo de transcendência que é meu próprio ser, o contato simultâneo com meu ser e com o ser do mundo”.[2]. Segundo Merleau-Ponty as percepções somente se tornam possíveis se habitadas por um espírito capaz de reconhecer, de identificar e de manter diante de nós o seu objeto intencional. A coisa vista é em si mesma aquilo que dela penso:
            “Quando estou seguro de ter sentido, a certeza de uma coisa exterior está envolvida na própria maneira pela qual a sensação se articula e se desenvolve diante de mim: trata-se de uma dor da perna, ou é uma sensação de vermelho e, por exemplo, do vermelho opaco em um único plano ou, ao contrário, de uma atmosfera avermelhada. A interpretação que dou de minhas sensações deve ser motivada, e ela só pode sê-lo pela própria estrutura dessas sensações”[3]
            Ver, sentir e interpretar (as coisas exteriores) são ocorrências possíveis e necessárias quando não interferimos, mas apenas permitimos que ocorram e se integrem à nossa compreensão. Esta não interferência se propõe a possibilitar que haja um reconhecimento da coisa a partir do contato efetivo que ela desperta em mim.  O nível reflexivo em que isto se dá, dentro das considerações fenomenológico-existenciais sartrianas, equivale a uma redução fenomenológica, um “colocar entre parênteses, e recusar o que Husserl denomina mit-machen”[4]
            A proposta da técnica do Renascimento é que este “desenvolvimento” se dá via intergração e não produto de algum mentalismo, ou de nossas considerações de consciência. E nisto reafirmamos que respirar profundamente é um modo de suspender a minha ansiedade de interferência e julgamento de bom ou ruim, de bem ou mal, em relação a todas as coisas.
            Durante o exercício, a respiração é prioritária em relação a qualquer outra sensação ou manifestação, já que tudo que ocorre faz parte do processo de integração e por isso não devemos interferir. É desse modo que procuramos (o quanto possível) não interferir e priorizamos a respiração para a ativação (inicial) e a integração (conclusiva).
            O Renascimento e sua técnica de respiração não visam “deixar a pessoa bem”, mas possibilitar a autopercepção corporal que produz a integração. E é a integração que torna as coisas claras para o observador e o prepara para uma condição relaxada, fluida, que acaba por tornar a vida mais leve. Se formos pensar na relação que pode haver entre a respiração consciente e a solução dos nossos problemas poderíamos dizer que o Renascimento (embora não se proponha diretamente) ele trata a tensão do problema, mas não o problema em si.
            Jim Leonard aperfeiçoou um aspecto central no Renascimento ao valorizar mais a integração e menos a liberação, já que o Renascimento começou como uma técnica (catártica) de liberação e nas mãos de Jim evoluiu para deixar de ser uma catarse e se tornar mais meditativo e menos psicológico. O pensamento de Jim Leonard é que liberar significa “se livrar”, mas a melhor proposta do Renascimento, segundo ele, iria na direção do “entrar em contato e acolher as sensações”, aconteça o que acontecer, tornando consciente toda sensação desejada ou indesejada, agradável ou desagradável.

Atenção ao fenômeno: atitude serena.
            No Renascimento o papel do Renascedor, ou do terapeuta, é o de tão-somente observar o processo de respiração circular. A riqueza do movimento de inspiração em seu máximo e confortável alcance e o relaxamento que deve acompanhar a expiração, observando se ambas se compatibilizam e se sincronizam, especialmente no que se refere às suas elasticidades, intensidades e tamanhos, é uma atuação técnica importante. Mas, simplesmente, observar atentamente ao fenômeno, acompanhando todo o decorrer do processo da sessão,  é, na verdade, a principal função do Renascedor.
            O cliente, por sua vez, é instruído a permitir que suas sensações se integrem a partir dos efeitos proporcionados pela respiração circular. E isto ocorre quando não interferimos, mas permitimos que o fenômeno continue ocorrendo tal como surge, tal como se move, tal como é. E que ele se transforme por si mesmo, no seu próprio modo, do seu próprio jeito.
            A Fenomenologia se dedica a descrever o fenômeno tal como ele ocorre em si mesmo. Segundo a etimologia, a Fenomenologia é o estudo ou a ciência do fenômeno. Somos tomados, fisicamente, o tempo todo, por uma série de fenômenos. Desde uma brisa suave que nos toca o rosto, até um fio de cabelo que incomoda os olhos, passando por uma garganta que arde, um lábio que seca ou alguns dedos que estremecem. Tudo é fenômeno.
            Também são fenômenos as coisas que acontecem fora de mim. Tudo o que vejo, tudo o que penso, tudo a que assisto. Quando nos habituamos a nos relacionar com os fenômenos de maneira simples, direta, clara e sem grande pretensões explicativas e curativas, acabamos nos aproximando de nós mesmos e da natureza que impera em nós.
            É desse modo que vemos há alguns séculos a ciência se dividir entre “os que querem observar para ver” e “os que querem explicar para resolver”. Sinteticamente, e nos reportando a Dilthey, dizemos que as ciências positivistas (naturais) buscam explicar o objeto (ou fenômeno), enquanto as ciências fenomenológicas (humanas) buscam compreender o objeto (ou fenômeno).
            E é essa atitude positivista que tanto permeia a nossa cultura que nos leva à mania de julgamentos e a buscas às vezes obsessivas de explicações. Insistimos em saber o porquê de tudo, como se tudo tivesse, obrigatoriamente, que fazer um sentido (cartesiano) e assim ser explicado.
            O positivismo foi uma corrente sociológica criada pelo francês Auguste Comte (1789-1857) que surgiu como desenvolvimento do iluminismo, caracterizando-se como uma afirmação das ciências experimentais, e propondo à experiência humana valores completamente materiais. Trata-se de uma corrente de pensamento que influenciou completamente a nossa civilização. O nosso modo comum de pensar é um modo positivista, porquanto é o meio de raciocínio a que estamos habituados, especialmente no Ocidente. Assim o empirismo científico (neopositivismo) que passou a dominar como método científico, influenciou a todos os sistemas organizacionais e às pesquisas, tendo a prerrogativa de conferir status de verdade a qualquer saber que fosse considerado científico, e somente seria científico o que também fosse positivista.
            Já a Fenomenologia olha o fenômeno tal como ele se apresenta, sem qualquer concepção apriorística do “como deveria ser”. É um método que se opõe ao determinismo positivista, propondo que o conhecimento se volte às coisas como fenômenos em si mesmas, valorizando assim a compreensão, não a explicação ou a interpretação.
            Está presente, então, no Renascimento, a proposta da Fenomenologia de observar o fenômeno sem apressar-se em defini-lo ou determiná-lo, como nas palavras de Heidegger, a proposta é adotar uma “atitude serena” diante de todas as coisas, demorando-se a julgar, a concluir, a responder. E essa “serenidade heideggeriana” vem a corresponder com a “redução fenomenológica” husserliana que propõe a aproximação do sujeito ao fenômeno, buscando compreendê-lo e não explicá-lo. 
            No compreender não ocorre uma distinção clara entre sujeito e objeto (pessoa e fenômeno), já que o sujeito do conhecimento toma a si mesmo como seu objeto de conhecimento. Para Ricoeur, compreender é mais que um modo de conhecer, é um modo de ser.
Facilitando o desenvolvimento humano pela integração
            Fritz Perls disse que o critério de um tratamento bem sucedido é atingir o grau de integração que facilite o próprio desenvolvimento. Perls faz diferença entre o que chama de “personalidade espontânea” e “personalidade deliberada”. A personalidade espontânea é formada a partir do respeito aos processos naturais de desenvolvimento, algo que diz respeito, por exemplo, aos ensinamentos do parto humanizado de Leboyer. Desde o nascimento se pode praticar a espontaneidade, mas toda a parafernália hospitalar cheia de luzes, barulhos e procedimentos tão invasivos quanto artificiais impõem uma cultura da “deliberação” em detrimento à cultura da “espontaneidade” de que trata Perls.
            Perls, portanto, fala de integração. A gestalt busca integrar, a psicanálise busca analisar. E a diferença é que a integração faz com que as nossas experiências estejam próximas a nós, tão próximas que nos unificamos com elas. A integração que é o simplesmente nada fazer, mas tudo sentir é um processo singelo, quase banal, mas tremendamente importante. A facilidade da integração se explica porque o homem é parte da natureza, ele é um evento biológico, e ele é um todo, não pode ser partido. Integração, segundo Perls, requer identificação com todas as funções vitais: “toda tentativa de integração está sujeita a trazer para o primeiro plano algum tipo de resistência.”
            Barry Stevens diz que começamos a integrar com eficácia quando aprendemos não somente a relaxar, mas a não controlar o nosso corpo para que possamos compreender o seu modo natural de funcionar e o quanto e como eu interfiro com ele. Ela relata parte de uma sessão assim:
            “Pedi à pessoa que se deitasse de costas no chão e que levantasse os joelhos até que as plantas dos pés estivessem inteiras no chão. Pedi então que se ajeitasse um pouco para ficar o mais confortável possível. Disse que esta era apenas uma posição inicial que parecia funcionar melhor e que a pessoa não precisava se apegar a ela. Na verdade disse que ela não deveria se apegar a coisa alguma naquele momento. Ele fez isso e disse, procurando uma almofada: “Quero uma almofada debaixo da minha cabeça. A minha cabeça dói no lugar que encosta no chão”.
            “Uma almofada, está bem”, disse eu, “mas eu gostaria que antes você tentasse sem ela. Entre em contato com a dor na sua cabeça, por dentro, delicadamente – como se estivesse travando conhecimento com ela. Fique em contato como se fosse um foco de luz que não tira nada do lugar e não mantém nada do jeito que é. ‘Ficar em contato’ significa estar tão leve, que se alguma outra coisa no seu corpo chamar – qualquer tipo de dor, tensão ou desconforto – você pode se mover em direção a ela tão facilmente quanto mover seus olhos da janela para a porta.             Deixe a dor estar. Se ela ficar mais intensa ou menos intensa, deixe que isso aconteça – ou qualquer outra mudança. Deixe ser aquilo que é”. Barry Stevens diz que estamos controlando nossos corpos o tempo todo, e que isto é simplesmente descontrolar – deixar o corpo fazer aquilo que ele quer fazer, já que o meu corpo sabe melhor do que eu o que é melhor para ele, e o simples entrar em contato com sensações corporais desagradáveis já as diminui ou elimina. Uma batida rápida do coração se reduz ao ritmo normal. Uma dor de cabeça desaparece – às vezes depressa, às vezes mais devagar. Dores na parte inferior das costas, onde elas pressionam contra o solo, podem regredir e parecem ir a algum outro lugar.
            A integração na gestalt busca tornar presente todas as sensações físicas e não-físicas, sem a preocupação de separar o que é físico do que é mental, já que num raciocínio organísmico somos uma unidade, um conjunto. Mas para fins didáticos dizemos que tanto uma dor que subitamente surge no pé ou na mão, ou o medo do escuro ou de cobrir o rosto são fenômenos a serem integrados. E a orientação é sempre a mesma: “não evite o que te incomoda, integre”. Ao menos se deve tentar a não-evitação, já que a prova da integração é a não-rejeição, a não-resistência, e sim a aceitação. Não tentar eliminar coisas e pessoas que nos incomodam já é o início da integração, e nesse momento já experimentamos alívio. Posso descobrir que não preciso sofrer com o que não me é agradável, porque posso deixar o desagradável existir e o agradável me tomar.

Considerações fenomenológicas sobre os cinco elementos do renascimento
                Primeiro Elemento: Respiração Circular - Significa que o ar entra e sai pela mesma via (boca ou nariz, e que a respiração acontece sem solavancos, sem pausas - mal termina uma fase (inspiração ou expiração), já começa a outra e elas têm a mesma duração. Ênfase na inspiração e no relaxamento da expiração. Esta orientação, que se constitui no que há de mais fundamental no Renascimento, se dá na disciplina do exercício que permite a ativação para a ultrapassagem de barreiras de urgência – que são dificuldades que podem surgir no desempenho da respiração circular – e o consequente alcance da integração. Aqui é fundamental a postura de atenção ao fenômeno sem produzir pensamentos, julgamentos e tentativas de controle ou qualificação daquilo que se experiencia.
                Segundo Elemento: Relaxamento total - Significa que não há qualquer controle sobre a expiração, aproveitando cada uma delas para permitir que o corpo e a mente se entreguem e se soltem mais e mais profundamente. A expiração relaxada relaciona-se ao “deixar estar”, à entrega total à vivência experienciada no aqui e agora, e também – principalmente - à atitude de aproveitar (ao máximo) com prazer tudo que se deseja desfrutar naquele momento, já que a expiração também pode simbolizar o modo como aproveito a vida, da mesma forma como a inspiração pode significar o modo como busco aquilo que desejo.
                 Terceiro Elemento: Consciência Detalhada - Significa estar presente e percebendo cada sensação do corpo, emoção surgindo, sentimento, imagem, pensamento, som e diálogo interno. Este elemento diz respeito à capacidade que desenvolvo de me desligar de tudo que signifique “ausência” para que eu desfrute de unidade entre mim e a experiência presente.
                  Quarto Elemento: Integração ao Êxtase - Significa não lutar contra nada, mas permitir que tudo se expresse na pessoa - apenas dando as boas vindas a tudo o que acontece da forma como acontece. Este elemento sintetiza bem a expressão “redução fenomenológica” que segundo Edmund Husserl é olhar o fenômeno tal como ele é, buscando compreendê-lo, extraindo dele percepções e sensações não contaminadas por nossos conceitos, preconceitos, experiências pregressas e opiniões pessoais.
                  Quinto Elemento: Faça o que fizer, sempre funciona - Significa que não há uma respiração errada - mesmo que se faça uma respiração bem diferente da do renascimento, pouco eficiente em termos de integração, ainda assim algo irá se integrar. É um elemento que gera relaxamento, pois é necessária uma certa prática para se estar atento a todos os quatro primeiros elementos. E este quinto nos remete à consciência de que toda experiência é válida, é útil, pelo menos como ponto de partida de muitas outras experiências e aprendizagens.

Considerações finais
                        O Renascimento é uma ferramenta preciosa que nos ajuda a pôr em prática diversos fundamentos da Fenomenologia e da Gestalt-terapia, partindo da respiração, nossa mais primária função, a primeira ação do bebê ao nascer, o vínculo do ser humano com o universo.
                        O Renascimento mobiliza de forma poderosa energias às vezes inócuas, às vezes latentes, às vezes confusas, às vezes doentias, contidas ou improdutivas, que se tornam luzes acesas pela circulação da vitalidade gerada por esse respirar que ativa e integra.
                       A respiração é o “elo mágico” entre o corpo, a mente e o observador, assim como o sangue que circula entre os órgãos do corpo permitindo-lhes vitalidade. A respiração, portanto, revitaliza esse conjunto e possibilita a integração do ser com tudo que lhe seja componente.
                       O Renascimento também nos torna mais atentos aos fenômenos vitais sem que isto seja um sacrifício, pelo contrário, torna-se um prazer muitas vezes rotineiro essa capacidade de viver o aqui e agora gestáltico, integrando as sensações, deixando de evitar as experiências e possibilitando que essa prática nos torne muito mais eficazes na arte de viver.

Referências
CHACEL, Khalis e LIMA, Tárika (Orgs). Formação em Renascimento. IRSP: SP, 2008.
DARTIGUES, André. O que é fenomenologia. Centauro: São Paulo, 2005.
LEBOYER, Fréderick. Nascer sorrindo. Brasiliense: RJ, 2000.
LEONARD, Jim. Rebirthing. Trinity, NY, 1993.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Perceção. Martins Fontes: São Paulo, 1999.
MONTEIRO, Walmir. Psicoterapia Existencial. Bookess: São Paulo, 2009.
MONTEIRO, Walmir. Fenomenologia e Humanismo. Bookess: São Paulo, 2010
ORR, Leonard. Renascimento na nova era. Gente: SP, 2000.
PERLS, Fritz. Isto é gestalt. Summus: São Paulo, 1977.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Vozes: Petrópolis, 1997.
STEVENS, Barry. Não apresse o rio. Summus, São Paulo, 1979.
STEVENS, John. Tornar-se presente. Summus: São Paulo, 1988.



[1] monteiro.walmir@gmail.com
[2] Merleau-Ponty. Fenomenologia da percepção. P.504
[3] Opus Cit. P. 502
[4] Mit-machen, em alemão, “fazer com, colaborar”, Sartre, Jean-Paul. O ser e o nada. P. 123 (5ª ed.).