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sábado, 26 de março de 2011

UM EXISTENCIALISTA NO SERTÃO

Hélio Bloch em entrevista à Revista Civilização falou sobre a possível influência do pensamento francês na filmografia nacional, e citou a peça O Diabo e o bom Deus de Jean-Paul Sartre, como uma inspiração – “filosófica e estrutural” – para a película Deus e o Diabo na terra do sol de Glauber Rocha.
Essa declaração nos chama a atenção para uma perspectiva ainda pouco analisada: a força que o existencialismo – principalmente o francês – teria sobre este cineasta baiano, um dos expoentes do Cinema Novo e da cinematografia nacional.
Pensamento da moda durante as décadas de 60 e 70, o existencialismo marcou espaço tanto nas discussões filosóficas da época – graças principalmente a Jean-Paul Sartre –, quanto no universo artístico – principalmente no teatro e no cinema.Godard, Truffaut, Eric Rohmer e a própria publicação Cahiers du Cinéma, entre outros, marcaram e definiram o estilo da Nouvelle Vague pelos seus personagens reflexivos e introspectivos, sobre sua realidade.
Hipoteticamente, como seria fazer filmes que representassem uma proposta “existencialista”? Talvez, dentro do que poderíamos chamar de uma práxis cinematográfica, abandonaríamos todos os preceitos técnicos clássicos e, ignoraríamos o possível “espectador-alvo” .Desde o início já teríamos um roteiro que estivesse enquadrado com a visão existencialista de mundo, e que servisse tanto para expor e expandir este ideal filosófico, quanto para tornar as pessoas mais engajadas dentro desta forma de ver e agir. Os personagens certamente seriam pessoas comuns, simples, típicos exemplos do nosso tempo e lugar e, que em seu cotidiano, expressariam as preocupações, dúvidas e soluções de qualquer existencialista; além disso, estariam engajados em discutir a irracionalidade da vida e a segurança artificial concedida pela adesão aos valores convencionais da burguesia.
A proposta do Cinema Novo não era ser existencialista, mas é inegável a presença do existencialismo na postura de alguns personagens. Construções elaboradas por Glauber Rocha corroboram com esta linha filosófica, inclusive isto fica bem claro nas semelhanças entre a peça O Diabo e o bom Deus e a película Deus e o Diabo na terra do sol.
Não achamos na biografia de Glauber citações ou momentos que tornem explícita a presença ou a influência direta de ideais existencialistas sobre o cineasta; contudo, encontramos pontos análogos entre o seu filme e o texto de Sartre. A peça O Diabo e o bom Deus foi encenada pela primeira vez em 1951, logo se tornando um grande sucesso – ficou quase um ano em cartaz na capital francesa. Considerada como a obra que expressa com clareza os ideais ateístas de Sartre, ela afirma violentamente o humanismo sartriano, através da figura do capitão alemão Goetz que, para orientar uma melhor e mais eficaz ação entre os homens, oscila entre valores absolutos e relativos.
Goetz é um gênio militar que, em meio às guerras religiosas da Idade Média insiste em afirmar sua onipotência perante os conceitos do Bem e do Mal, acreditando que seus atos resultam apenas da sua vontade, dos seus desejos; e assim não admite a possibilidade de sofrer influência de qualquer fato ou de qualquer pessoa externa – entre as quais ele inclui Deus e o Diabo.
Goetz pratica o Mal como forma de reafirmar a sua vontade: toda a violência ou massacres que comete são afirmações da sua capacidade de decidir o que vai ou o que não vai fazer, sem se importar com as consequências; é a prática do Mal pelo Mal. Na primeira parte da sua história, quando desafiado a realizar apenas o Bem – atitude “muito mais difícil” que praticar o Mal – Goetz tenta asseverar sua vontade optando por alterar sua conduta; na verdade, ele não crê nem em Deus nem no Diabo: ele sonha com o Absoluto, quer fazer absolutamente o Mal ou absolutamente o Bem, para ser ele mesmo Deus ou o Diabo.
Ao final, o capitão constata que nenhum destes conceitos está completamente desprendido do outro, que o Mal só é compreendido a partir do Bem, além do fato de que para se praticar o Bem, às vezes deve-se utilizar do Mal – e vice-versa -, que pode-se ter as “mãos sujas”2.
Goetz, de certa forma, tem dois companheiros em suas experiências, para vivenciar os conceitos de Bem e de Mal: O revoltado padeiro Nasty, que estimula em Goetz o seu lado Mal, e o padre Heinrich, que questiona o Bem prometido pelo capitão. Entretanto, estes personagens mesclam os valores, não possuem práticas estritamente ligadas ao Bem ou ao Mal: os dois se propõem a defender o Bem, mesmo que para isso, tenham que praticar o Mal; mas Goetz não compreende as posições de Nasty e de Heinrich e por isso, tenta manter a distinção entre os valores.
Ele é um personagem deslocado no tempo e espaço, cujas reflexões e dúvidas não se encaixam com as dos outros personagens, mas na verdade esboçam mudanças no pensamento de Sartre: “Tentei mostrar um personagem tão deslocado junto às massas de seu tempo quanto Hugo, o jovem burguês, herói de Mãos Sujas, e igualmente atormentado” (Sartre, citado em Cohen-Solal, 1986:414). É o período em que Sartre tentar resolver a crise que surge entre o seu constante embate com os marxistas e a sua opção pelo partido comunista, através de um discurso que defenda o “homem de ação”, aquele que realmente tem o poder para mudar a sua realidade.
De certa forma, tanto Glauber quanto Sartre optam por elaborar histórias onde seus protagonistas vivenciassem elementos clássicos representativos do Bem e do Mal; enquanto que o vaqueiro Manoel acompanha a religião e o banditismo, Goetz escolhe seu caminho através de um militarismo sanguinário e um fanatismo religioso. Nas duas obras, estes momentos de confrontação com estes valores estão apresentados em diferentes segmentos da história – de forma alternada é verdade, já que Manoel primeiro se depara com o representante de Deus e depois com o “Diabo Louro”. Ao contrário de Goetz, que primeiro opta viver o Mal absoluto e depois o Bem absoluto, o escritor e o diretor dividem suas obras em partes, cada uma destinada, a refletir e expor os seus pontos de vista sobre estes valores e a relação destes com os homens. O Mal e o Bem, a ordem e a desordem, o santo e o sacrílego, Deus e Diabo, são representações do universo do sagrado; suas relações, ou melhor, suas transmutações, evidenciam o que Durkheim (1989) chamou de “ambiguidade do sagrado”, e é a partir destas relações que se vai se criando, por exemplo, uma simbologia religiosa sertaneja.
Essas obras estão também sob o signo da            violência. Religião e violência são as bases constitutivas das duas histórias, de forma que a violência é como a alma do sagrado. Corisco é o Mal em pessoa, cuja intenção é instaurá-lo. Sua filosofia é libertar os sertanejos da fome e da miséria... com a morte! Desta forma, ele quer o Bem através do Mal, ou melhor, através da violência. Ele é um benfeitor - um Diabo branco ou um Deus branco, dependendo da perspectiva de quem o olha -, que carrega suas graças nas costas da morte. Ele legitima e beatifica a violência: “Um homem nesta terra só tem validade quando pega nas armas pra mudar o destino. Não é com rosário não. É no rifle e no punhal.”, diz Corisco a Manoel. Tal discurso é semelhante às conclusões finais de Goetz, que admite que terá que usar a violência para atingir seu projeto de ser humano, a paz na terra: “O reinado do homem está começando. E começando bem. Vamos, (...), serei carrasco e carniceiro”.
O beato Sebastião não se assemelha aos valores absolutos apontados inicialmente para o Bem por Goetz, já que este, ao se propor a seguir Deus, colocava-o com a expressão pura do Bem, da bondade, do perdão, do amor. É fato que tanto Goetz quanto Sebastião, em seus discursos, vão ter embates com as práticas mercantilistas da Igreja Católica – que se propõe a contratar Antônio das Mortes para matar o beato -, vista como ambiciosa, negligente com a situação de seus fiéis e defensora dos senhores de terra. Contudo, Goetz vê o caminho do Bem, inicialmente, como sendo o de Deus, como algo absoluto, que não admite deslizes ou outras possibilidades – mas destoa das autoridades eclesiásticas -, enquanto que Sebastião demonstra uma concepção de que o caminho dos céus poderia ser mais “tortuoso”, que o Bem. Não é sempre a atitude que leva seus fiéis a Deus, ou aos seus objetivos.
Os homens de ação – aqueles que comandam os seus destinos e os dos outros –, na obra de Glauber, são aqueles que mesclam os valores do Bem e do Mal: Sebastião e Corisco atuam levando em consideração uma relatividade dos valores do Bem e do Mal, misturando-os, alternando seus atos para atingir seus propósitos; desta forma, o beato e o cangaceiro destroem as fronteiras entre estes conceitos e tomam atitudes sem questionar ou refletir sobre as conseqüências e interpretações destes. Estes dois líderes se colocam acima das distinções entre Deus e o Diabo, entre o Bem e o Mal. Para alcançar seus objetivos, os meios não devem ser questionados, mas encarados como momentos intermediários para que se atinja os fins almejados.
Nosso herói glauberiano – Manoel –, que deve atingir o mesmo patamar de Sebastião e Corisco, está sempre diante de uma liderança social, seja ela ancorada no poder religioso, ou mesmo no poder das milícias populares do cangaço. A proposta geral do filme, neste ponto, seria a crença-descrença, o apego/desapego aos ídolos, aos ícones. Algo semelhante que faz Goetz que, para convencer os camponeses de suas “boas intenções” e fazer com que estes o sigam, forja um milagre e, com a força da fé que incorpora, procura desacreditar os líderes populares e religiosos. Deparamos-nos com vários momentos, onde as posições do Bem e do Mal se misturam. Corisco, ao se referir sobre a sua futura disputa com Antônio das Mortes, define a luta como sendo a de Deus e o Diabo; o capitão – imagem do “Diabo Loiro” – critica Sebastião e assume o seu lugar enquanto defensor dos pobres. Da mesma forma, Sebastião que já havia criticado Padre Cícero – num encontro entre o beato e Lampião descrito por Corisco –, procura usurpá-lo do direito de representar Deus. Todos estes “homens de ação” desejam trazer a solução para a miséria, para o descaso ao qual o nordestino está condenado; e para isso, religiosidade e violência podem facilmente ser misturadas3, pois nenhuma base racional ou moral deve ser utilizada para que o indivíduo realize suas escolhas – o que ainda sustentaria uma visão existencialista.
            Goetz se apresenta aparentemente como dono de seu destino: ele age de acordo com suas escolhas individuais. Contudo, no decorrer da história, ele reconhece que não estava livre para realizar suas opções, que na verdade nunca conseguiu fugir de concepções sociais e religiosas. Nasty e Heinrich, de forma análoga a Corisco e Sebastião, são os homens de ação que acompanham Goetz, não na determinação do seu destino, ou na escolha de suas opções, mas como mentores para que este compreenda a ausência de uma barreira rígida entre os valores do Bem e do Mal. Goetz só se torna completamente livre quando admite não se orientar mais pelos valores que lhe são oferecidos, mas agir de forma que o Bem e o Mal possam ser misturados e utilizados indiscriminadamente – da mesma forma que Corisco e Sebastião. Como se nota, suas atitudes podem ser admitidas, incorporadas pelo seu objetivo, mesmo que seja através da violência; esta pode ser o fio condutor que torna os seus atos eficazes: a violência é transformada em algo bom, ela é positiva, neste novo sentido. A violência e a mescla de valores podem tornar a atitude humana mais objetiva, concreta, ao contrário da dispersão causada por conceitos subjetivos e evasivos.
            Manoel terá a chance de optar pelo seu destino graças a outro personagem marcante na obra de Glauber, graças a Antônio das Mortes, um matador de cangaceiros. Não igual aos outros tantos pistoleiros que povoam o sertão, ele não mata por dinheiro, mas mata porque não consegue conviver com a miséria dos nordestinos. A violência de Antônio das Mortes não é direcionada aos outros, mas o matador “propõe a sua própria violência como uma espécie de eutanásia” (Xavier, 1983:103), uma opção pela violência como forma de fazer justiça; este é o senso de justiça que perpassa as suas ações, uma espécie de vontade para ordenar o desordenado.
Para alguns estudiosos a origem de Antônio das Mortes está na sociedade brasileira da década de 60: durante este período, o país passa por grandes agitações; é uma época de estudantes nas ruas, das ligas camponesas, de novas formas culturais, da Arena, da ditadura militar, etc; neste momento, Glauber vê a construção de um novo pensamento sobre o país, de “um cara que vai à direita e à esquerda, que tem má consciência dos problemas políticos e sociais” (Avelar, 1995:107).
Na visão glauberiana, Antônio das Mortes é a expressão reinventada desta consciência. É o antagonismo do personagem de Maurício do Valle que move a história, que possibilitará Manoel achar o seu futuro, descobrir a sua própria vocação – para Kierkegaard, o mais elevado bem de todo indivíduo. A intenção de Glauber seria mostrar, através de Antônio, um povo “preso e imobilizado” (Avelar, 1995:109), que é levado pela consciência ambígua do matador de cangaceiros.
            O mesmo Antônio das Mortes4 talvez seja o melhor representante de uma ideologia existencialista no filme; este declara: “Um dia vai ter uma guerra maior neste sertão, uma guerra grande sem a cegueira de Deus e do Diabo. E pra que esta guerra comece logo, eu que já matei Sebastião, vou matar Corisco”. É bem explícito o discurso do personagem, no que se refere ao fato de que haverá uma revolta no sertão, que uma drástica mudança social ocorrerá, assim que o nordestino esquecer ou perder os padrões absolutos passados pelas imagens de Deus e o Diabo; estas referências alienantes apenas servem para cegá-lo sobre a necessidade de uma “guerra”, sobre a urgência de transformações que seriam comandadas por homens livres destes “mitos”. Mas é Antônio das Mortes que interromperá as experiências de Manoel e acelerará uma revolução no sertão. Mas da mesma forma que uma ambigüidade do sagrado e do profano marca Sebastião e Corisco, Antônio das Mortes também expressa uma: ele é o mercenário que ao mesmo tempo afirma que luta pelo bem do povo.
Antônio das Mortes não consegue enfrentar essa contradição, quanto menos resolvê-la. Ela pode ser dialética para a sociedade, mas não o é para ele. (...) Ele é o incompreensível, não é nem isto nem aquilo, ele é a contradição enigmática, e sua consciência está tão pouco clara que ‘num quero que ninguém entenda nada de minha pessoa. (...)’ Para sublimá-lo, ele tentará transformar-se em ser predestinado. Cumprirá sua função, a qual ele julga histórica (...).(Bernardet, 1978:79)
O propósito de Antônio das Mortes é determinar a liberdade de Manoel, lutar pelo fim da alienação deste; o personagem em si não almeja algo para si, mas cumpre sua função na história como se fosse o “escolhido” para tal. Antônio parece ignorar seu estado, sua condição e seu destino, mas acredita apenas na importância de seu papel para o futuro de Manoel, a ponto de afirmar que não imagina um futuro onde se encaixe, que deve morrer para que seu objetivo seja totalmente alcançado.
Desta forma, será o matador que permitirá a Manoel escolher o que fazer com a sua vida, constituir-se a si mesmo – “chegar ao mar” –, destruindo as causas de sua alienação, e não ter que seguir os outros. Manoel deve realizar suas escolhas a partir de suas experiências e de sua subjetividade – como na teoria existencialista -, e não seguir ou se basear no discurso de Sebastião ou de Corisco; não deve ser a “racionalidade” do “Beato Negro” ou do “Diabo Loiro”, baseada em propostas messiânicas ou do banditismo, que será o alicerce para a formulação da verdade de Manoel, mas sim a sua vivência. Jaspers afirmou que a única escolha que é realmente oferecida ao indivíduo está entre aceitar ou recusar a situação à qual está identificado; no caso de Manoel, até o momento da morte de Corisco, este optava sempre pelas respostas e pelas explicações sobre seu universo que lhe eram oferecidas pelo beato e pelo jagunço, o que significaria que o vaqueiro não rejeitava a realidade a que estaria submetido e se deixar subjugar pela sua falta de liberdade; apenas com a morte de Sebastião e Corisco e o fim da alienação que era proporcionada por estes, que Manoel descobre o seu caminho e parece se opor a sua condição inicial.
            A própria característica de Antônio das Mortes, de renunciar à Igreja e aos senhores de terra, a Manuel ou aos jagunços, exalta o caráter existencialista do personagem que age sem referências ou sem dar explicações – Glauber chega a afirmar que Antônio das Mortes é o único personagem realista5 da película. Como o homem sartriano, a principio, não é nada – este é o momento em que Antônio não entende seu objetivo em um futuro de revolução no sertão, e admite que deve morrer para que seus gestos tenham efeito apenas no decorrer de sua vida, através de seus atos concretos, – e este seria o “primeiro princípio do existencialismo” –, ignorando as leis6 e as obrigações morais, Antônio exaltará ao máximo as formas de sua liberdade. Os atos de Antônio são revolucionários, mesmo que indiretamente: a verdade que Antônio das Mortes permite Manoel alcançar é a mesma que Goetz reconhece na ineficácia de se ver o mundo dividido em valores absolutos: Antônio, agindo sempre de forma solitária, destrói a alienação gerada por Sebastião e Corisco, permitindo Manoel atingir seus objetivos – metaforicamente o mar; Goetz só reconhece que seus atos podem ser válidos, podem gerar os objetivos que almeja, a partir do momento que ignora as barreiras entre o Bem e o Mal, passa a relativizar os valores, destrói a alienação.
            Independente da narrativa construída em Deus e o Diabo ou de uma intencionalidade de expressar o pensamento existencialista, Glauber sempre teve um jeito característico para produzir seus filmes; vem desta inventividade a definição de “gênio” dada por muitos críticos e diretores. Ao finalizar O dragão da maldade contra o santo guerreiro, seu primeiro longa colorido, sentenciou: “É como se estivesse terminando o primeiro. Continuo experimentando, sem dinheiro no bolso, com medo do público e da crítica, com vontade de mudar de profissão. Mas o cinema é uma doença possessiva.” (Coleção Istoé Cinema Brasileiro (1), 1998:14) Na verdade, Glauber foi mais importante que os seus filmes, pelo que ele representou enquanto agitador cultural e provocador. Sua proposta sempre foi inovar, revolucionar as técnicas cinematográficas; apesar disso, ele não questionava que Deus e o Diabo era uma produção com influências externas – Glauber sempre afirmou a inspiração nos westerns de John Ford -, mas já definia Terra em transe como “um filme individual”, sem referências abertas e sem qualquer macaqueamento” (Coleção Istoé Cinema Brasileiro (1), 1998:14). Essa procura por um estilo próprio (livre de qualquer intenção existencialista), uma procura por algo que diferencie seus filmes e produções, por um cinema regional, demonstra bem esta intenção: graças ao “sobre o interior”, “sobre as lendas”, “sobre a religiosidade e o sofrimento do nordestino”, fruto da infância em Vitória da Conquista, Glauber se apresentou sempre como um conhecedor de nossas tradições culturais, as quais ele sempre soube refletir muito bem nas telas.

O autor Vinicius Reis G. Xavier é especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio

Notas
* Este trabalho é uma versão das conclusões da monografia Um existencialista no Sertão, orientada pela Profª. Angeluccia Habert e apresentada ao curso de Especialização lato sensu em Comunicação e Imagem, Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, agosto de 2001.
1. Revista Veja, 28 de abril de 1999, página 156.
2. Mãos Sujas é, inclusive, o título de uma peça de Sartre (Les Mains Sales) de 1948.
3. Rosa também vai esboçar tais contradições através da sua relação com Sebastião e com Corisco: após ela matar o primeiro – aquele que seria o representante do Bem, de Deus –, ama o “Diabo Louro”.
4. É curioso se verificar que Antônio foi o personagem que adquiriu mais popularidade, apesar de não estar inserido na versão original do roteiro.
5. Tal capacidade de refletir uma estrutura e/ou projeto de mudança social, é por demais exaltada por Bernardet (1978), que vê Antônio das Mortes como o mais puro representante das classes médias brasileiras.
6. Incluindo aqui os preceitos religiosos.

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