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segunda-feira, 21 de março de 2011

TRANSFERÊNCIA OU EXTENSÃO?

O psicoterapeuta tende a atribuir os sentimentos do paciente às suas vivências desde a infância, seus contatos interpessoais ao longo da vida, transferindo vivências inadequadas e frustrantes para todas as suas relações com outras pessoas, incluindo a atualidade do seu contato com pai e mãe. E também, em vez de focar no conflito com a mãe estende esse sentimento para todas as demais mulheres que encontra. Tornou-se vítima da transferência que é a transmissão de sentimentos de uma pessoa para outra.
Independentemente desta evidência, a pergunta justifica-se para comprovar a verdade dos argumentos teóricos que servem de base ao conceito de transferência. De fato, até mesmo um conceito que resulte satisfatório na prática, pode ser baseado em erro. Para comprovar esta teoria, partamos do seguinte exemplo:
Durante a infância, um paciente começa a odiar a sua mãe, porque ela jamais lhe dava a menor liberdade. Agora, odeia a todas as mulheres. A linha de raciocínio é a seguinte: o paciente transfere (na verdade estende) para outras mulheres o ódio que sente pela mãe. Esta estrutura de pensamento pressupõe que um afeto, ou seja, o ódio, possa ser desligado do seu objeto. Deve existir então alguma coisa que se possa chamar “ódio sem objetivo”. Todavia ninguém jamais sentiu algo parecido com “um ódio sem objetivo”. Ninguém pode dizer que sentiu, alguma vez, ódio não dirigido contra alguma pessoa ou coisa. Quando se odeia, odeia-se algo ou alguém. Até mesmo o chamado “ódio cego” é dirigido – cegamente – a alguma coisa ou a todas as coisas. O amor sem alvo é também desconhecido. Esta interpretação destrói a interpretação da transferência que é aparentemente simples.
Sem dúvida, prossegue Van Den Berg, deve existir alguma coisa chamada “transferência”; a evidência é convincente demais para ser negada. Mas o “mecanismo” sugerido pela palavra pode não ser correto. Quem tiver dúvida a respeito deve se colocar no lugar da pessoa que sofre de transferência. Quem odeia sua própria mãe sente que o seu ódio está profundamente ligado, entrelaçado, com sua mãe. É impossível separar o ódio da pessoa dessa mãe, que é objeto desse ódio. Ambos formam uma só coisa. De fato o conceito de transferência na forma como é aplicado na psicologia surgiu de uma cadeia errada de raciocínio. A causa pode ser encontrada no fato de que se tornou costume tratar qualidades mentais como se fossem objetos. Dizer que um afeto é transferido de uma pessoa para outra, é a mesma coisa que observar o transporte de um cinzeiro da mesa para a escrivaninha. Isto está muito certo quando se trata de coisas. Todavia, segundo Van Den Berg, os afetos não são coisas, não podem ser levantados de um lugar para serem colocados em outro. Nesse contexto, as palavras “levantados” e “colocados” não têm sentido. Tampouco tem sentido a palavra “transferência”, cujo conceito pertence à ciência física. (Nota: Para Van Den Berg, se a expressão “transferência” deve fazer sentido em psicologia – e demorada experiência depõe em seu favor - deve ser psicologicamente definida. E para ela não se havia ainda apresentado uma definição que fosse satisfatória). 
A partir dessas considerações, compreendemos que aquilo que a psicanálise indevidamente chama de transferência poderia ser chamado de EXTENSÃO. O processo de nutrir sentimentos indevidos, frutos de uma generalização, é real e adequado. O que nos parece inadequado, e nisto concordamos com Van Den Berg, é o termo transferência, pois se os sentimentos que nutro pelo meu pai ou irmão forem de fato transferidos para o meu terapeuta,  eles não poderiam permanecer presentes na minha relação com meu irmão ou com meu pai. Ora, se transfiro algo do lugar "A" para o lugar "B", este algo não mais poderia ser encontrado em "A", senão não há transferência. Por isso o autor tem razão quando diz que podemos transferir objetos de um lugar para outro, mas não sentimentos. Todo sentimento que nasce em uma relação é por excelência um sentimento novo que não pode ser importado, transportado ou transferido de um outro lugar anterior a este.
É neste sentido que este processo psicológico que consideramos real e existente deve ser chamado de EXTENSÃO, já que na verdade "estendemos" (prolongamos, alongamos) um  sentimento proveniente de outro lugar, fazendo ocorrer um desdobramento; mas tal sentimento não deixa de se fazer presente em seu local de origem. É como um elástico ou algo que se estica de um lugar até outro, criando abrangência, e não transferência.
Do mesmo modo, entendemos que o conceito de contratransferência seria melhor definido como contraextensão, já que os sentimentos do terapeuta ou do analista que se originam em outro lugar de suas relações, mesmo sendo revivenciados com um cliente, não deixam de estar vivamente presentes em seu local de origem. Entretanto, como uma contraextensão isto é perfeitamente possível.

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