Blog do psicólogo, conferencista e escritor Walmir Monteiro, autor de nove livros de psicologia e literatura. Conferencista nacional em temas de psicologia, especialmente autoconhecimento, motivação, fenomenologia, psicologia existencial, dependência química e transtornos compulsivos. Email: monteiro.walmir@gmail.com
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
EXTENSÃO E CONTRAEXTENSÃO NA ANÁLISE EXISTENCIAL
Walmir Monteiro(*)
A relação analítica existencial se caracteriza pelo encontro que se dá entre o analista e o paciente, um encontro que se pretende autêntico em todas as suas nuances e vertentes. E essa autenticidade estará visível também - e talvez principalmente - na expressão de sentimentos e sensações presentes nesse encontro.
Não é fácil combinar liberdade com responsabilidade, assim como é difícil exercitar uma relação terapêutica como a existencial (que não recorre a expedientes de restrição eivados de regras), com uma profunda consciência de ética e perícia profissional. É que terapeutas ou analistas existenciais não se escudam em regras pré-definidas que os protejam do paciente, de si mesmos ou da própria terapia em seu transcorrer quase sempre imprevisível.
Algumas vezes o paciente pode estender ao terapeuta sentimentos que vive em sua vida cotidiana, fora do setting. E o analista, por seu turno, também pode contraestender sentimentos que são seus, dirigindo-os ao paciente. Pode ser uma extensão ou contraextensão dita positiva (amor, simpatia, cuidado extremo) ou negativa (ódio, raiva, antipatia).
Na perspectiva existencial tanto a extensão quanto contraextensão integram-se naturalmente ao processo analítico, desde que no caso da contraextensão sejam observados os limites éticos.
Mas o que é uma terapia ou uma análise existencial? Talvez seja melhor defini-la a partir do seu propósito, que é sempre o de possibilitar a maximização da consciência, o exercício da autenticidade, a vivência cotidiana da liberdade e da responsabilidade que a acompanha.
A consciência maximizada opera a ampliação da liberdade: consciência da infinita força de uma liberdade existente e inseparável de nós mesmos, consciência da variedade de opções, da presença de um mundo muito maior e muito menos restrito, restando-nos explorá-lo, conhecê-lo, enfrentá-lo. E assim é que iremos nos constituindo a cada passo de nossa existência.
O exercício da autenticidade opera o fortalecimento emocional para que se assuma o desafio de ser igual a si mesmo, estabelecendo um projeto de vida próprio e vivendo consoante suas mais próprias e genuínas inclinações e interesses e não meramente cumprindo desejos de outros.
Tudo isto sem descuidar da intersubjetividade que é a consciência de que a caminhada de um homem entrecruza-se com a de muitos outros homens, e é esse compartilhar, essa troca, que alimenta e realimenta o projeto pessoal de cada um. A fenomenologia, matriz da análise existencial, é para André Dartigues como que um rio de múltiplos braços que se cruzam sem se reunir e sem desembocar no mesmo estuário.
No processo analítico existencial, nesse “face a face” de sentimentos, desafios, desejos, sensações e tudo mais (que sem freios ou disfarces compõem a terapia autenticamente existencial) ocorrem extensões e contraextensões, que equivalem em certo sentido aos conceitos de transferência e contratransferência da psicanálise clássica.
Mas o conceito de transferência tem melhor semântica quando utilizado em seu lugar a expressão “extensão”, já que o processo que chamamos de transferência não transfere efetivamente, mas “estende”.
O analisando estende ao analista sentimentos originados e vivenciados fora da análise. Ele não transfere efetivamente, mas “estende”, porque tais sentimentos permanecem presentes fora, enquanto também emergem na relação com o analista.
(*) Psicólogo Existencial. Mestre. Escritor. Professor Universitário (USS/RJ).
monteiro.walmir@gmail.com
A relação analítica existencial se caracteriza pelo encontro que se dá entre o analista e o paciente, um encontro que se pretende autêntico em todas as suas nuances e vertentes. E essa autenticidade estará visível também - e talvez principalmente - na expressão de sentimentos e sensações presentes nesse encontro.
Não é fácil combinar liberdade com responsabilidade, assim como é difícil exercitar uma relação terapêutica como a existencial (que não recorre a expedientes de restrição eivados de regras), com uma profunda consciência de ética e perícia profissional. É que terapeutas ou analistas existenciais não se escudam em regras pré-definidas que os protejam do paciente, de si mesmos ou da própria terapia em seu transcorrer quase sempre imprevisível.
Algumas vezes o paciente pode estender ao terapeuta sentimentos que vive em sua vida cotidiana, fora do setting. E o analista, por seu turno, também pode contraestender sentimentos que são seus, dirigindo-os ao paciente. Pode ser uma extensão ou contraextensão dita positiva (amor, simpatia, cuidado extremo) ou negativa (ódio, raiva, antipatia).
Na perspectiva existencial tanto a extensão quanto contraextensão integram-se naturalmente ao processo analítico, desde que no caso da contraextensão sejam observados os limites éticos.
Mas o que é uma terapia ou uma análise existencial? Talvez seja melhor defini-la a partir do seu propósito, que é sempre o de possibilitar a maximização da consciência, o exercício da autenticidade, a vivência cotidiana da liberdade e da responsabilidade que a acompanha.
A consciência maximizada opera a ampliação da liberdade: consciência da infinita força de uma liberdade existente e inseparável de nós mesmos, consciência da variedade de opções, da presença de um mundo muito maior e muito menos restrito, restando-nos explorá-lo, conhecê-lo, enfrentá-lo. E assim é que iremos nos constituindo a cada passo de nossa existência.
O exercício da autenticidade opera o fortalecimento emocional para que se assuma o desafio de ser igual a si mesmo, estabelecendo um projeto de vida próprio e vivendo consoante suas mais próprias e genuínas inclinações e interesses e não meramente cumprindo desejos de outros.
Tudo isto sem descuidar da intersubjetividade que é a consciência de que a caminhada de um homem entrecruza-se com a de muitos outros homens, e é esse compartilhar, essa troca, que alimenta e realimenta o projeto pessoal de cada um. A fenomenologia, matriz da análise existencial, é para André Dartigues como que um rio de múltiplos braços que se cruzam sem se reunir e sem desembocar no mesmo estuário.
No processo analítico existencial, nesse “face a face” de sentimentos, desafios, desejos, sensações e tudo mais (que sem freios ou disfarces compõem a terapia autenticamente existencial) ocorrem extensões e contraextensões, que equivalem em certo sentido aos conceitos de transferência e contratransferência da psicanálise clássica.
Mas o conceito de transferência tem melhor semântica quando utilizado em seu lugar a expressão “extensão”, já que o processo que chamamos de transferência não transfere efetivamente, mas “estende”.
O analisando estende ao analista sentimentos originados e vivenciados fora da análise. Ele não transfere efetivamente, mas “estende”, porque tais sentimentos permanecem presentes fora, enquanto também emergem na relação com o analista.
(*) Psicólogo Existencial. Mestre. Escritor. Professor Universitário (USS/RJ).
monteiro.walmir@gmail.com
terça-feira, 12 de julho de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
sexta-feira, 10 de junho de 2011
SOLIDÃO
A solidão, no entendimento existencial, é um tema paradoxal. O homem é um ser-no-mundo, mas um ser solitário. É importante vislumbrar o homem em permanente relação com o mundo, mas o seu mundo é ele quem faz. O mundo não irá socorrê-lo existencialmente, o mundo não irá determiná-lo em nenhuma instância e em nenhum aspecto. O mundo dilui-se no âmago do ser, sendo a todo instante reconstruído nas circunstâncias de escolhas, ações e reações do indivíduo.
No romance “Antes Só” o protagonista sai de casa para curar sua solidão, mas encontra na rua pessoas que ele julga felizes, pessoas que estão acompanhadas e sorridentes, mas ele continua ali sozinho, acompanhado de sua solidão. Este homem amargura-se e mergulha num autocomiseração, sentindo pena de si mesmo, mas não age no sentido de buscar as pessoas, falar com elas, construir vínculos e relações; possivelmente ele espera que as pessoas cheguem até ele para tirá-lo da solidão. Ele não sabe de duas coisas: primeiramente que nada prova que se ele se relacionasse com muitas pessoas seria mais feliz, e outra coisa que ele não sabe é que a solidão é ontológica, inseparável da condição humana. A representação de felicidade que faz é estar rodeado de muitas pessoas, de ter com quem sair para jantar, mas tudo isto está no plano do “fenômeno do ser”, ele não acompanhou estas pessoas antes de elas chegarem àquele restaurante e nem mesmo as acompanhou na saída para conhecê-las em suas realidades particulares e pessoais. Se ele rumasse ao “ser do fenômeno” que inicialmente encontrou naquele cenário e naqueles rostos sorridentes, certamente conheceria a essência do fenômeno, a realidade comum, a solidão daquelas pessoas “felizes”.
Esta não é uma análise pessimista como parece ser, mas realista, dado que apontamos a realidade da solidão imanente ao ser humano. E o fato conclusivo é que jamais nos desprenderemos da solidão, mas nem por isso devemos nos afundar nela. A solidão é nossa companheira, mas ela não precisa ser a tônica da nossa vida. De fato, se entendermos que o contrário da solidão é a vivência de relações que nos permitem uma vida constituída de oportunidades de comunicação e compartilhamento, descobrimos que compartilhar é viver além da solidão, mas que esse compartilhar é formado inclusive das trocas solitárias que fazemos com aqueles a quem queremos bem e a quem escolhemos como parceiros de compartilhamento e de solidão.
A solidão, seria assim, um componente da felicidade de termos com quem dividir nossa existência. O ser-com é isso: ter com quem dividir angústias e prazeres, tristezas e alegrias, que vão formando essa relação dialética entre bom e ruim, positivo e negativo, e tudo isso nos conduz à compreensão de que não existe nada inteiramente bom e nem inteiramente ruim. O ser-com estará sempre prsente, mesmo que ninguém esteja ao nosso alcance, mesmo em uma ilha deserta, já que a nossa referência de ser passa necessariamente ao que pensamos e sabemos acerca do que significa o outro.
Não existe solidão inteiramente solidão se temos obstinação suficiente para nos abrirmos a todas as relações possíveis que possam nos retornar o prazer do compartilhamento. Nossa solidão, portanto, dilui-se no processo de vinculação e abertura ao outro e ao mundo. Sem defesas excessivas, sem autocomiseração e sem a ilusão de que a vida tenha qualquer obrigação de fazer-nos felizes. A solidão compartilhada não pode ser uma afecção de dor, já que é apenas uma partícula de um sem-número de sentimentos e emoções que vão e vem.
(WALMIR MONTEIRO)
No romance “Antes Só” o protagonista sai de casa para curar sua solidão, mas encontra na rua pessoas que ele julga felizes, pessoas que estão acompanhadas e sorridentes, mas ele continua ali sozinho, acompanhado de sua solidão. Este homem amargura-se e mergulha num autocomiseração, sentindo pena de si mesmo, mas não age no sentido de buscar as pessoas, falar com elas, construir vínculos e relações; possivelmente ele espera que as pessoas cheguem até ele para tirá-lo da solidão. Ele não sabe de duas coisas: primeiramente que nada prova que se ele se relacionasse com muitas pessoas seria mais feliz, e outra coisa que ele não sabe é que a solidão é ontológica, inseparável da condição humana. A representação de felicidade que faz é estar rodeado de muitas pessoas, de ter com quem sair para jantar, mas tudo isto está no plano do “fenômeno do ser”, ele não acompanhou estas pessoas antes de elas chegarem àquele restaurante e nem mesmo as acompanhou na saída para conhecê-las em suas realidades particulares e pessoais. Se ele rumasse ao “ser do fenômeno” que inicialmente encontrou naquele cenário e naqueles rostos sorridentes, certamente conheceria a essência do fenômeno, a realidade comum, a solidão daquelas pessoas “felizes”.
Esta não é uma análise pessimista como parece ser, mas realista, dado que apontamos a realidade da solidão imanente ao ser humano. E o fato conclusivo é que jamais nos desprenderemos da solidão, mas nem por isso devemos nos afundar nela. A solidão é nossa companheira, mas ela não precisa ser a tônica da nossa vida. De fato, se entendermos que o contrário da solidão é a vivência de relações que nos permitem uma vida constituída de oportunidades de comunicação e compartilhamento, descobrimos que compartilhar é viver além da solidão, mas que esse compartilhar é formado inclusive das trocas solitárias que fazemos com aqueles a quem queremos bem e a quem escolhemos como parceiros de compartilhamento e de solidão.
A solidão, seria assim, um componente da felicidade de termos com quem dividir nossa existência. O ser-com é isso: ter com quem dividir angústias e prazeres, tristezas e alegrias, que vão formando essa relação dialética entre bom e ruim, positivo e negativo, e tudo isso nos conduz à compreensão de que não existe nada inteiramente bom e nem inteiramente ruim. O ser-com estará sempre prsente, mesmo que ninguém esteja ao nosso alcance, mesmo em uma ilha deserta, já que a nossa referência de ser passa necessariamente ao que pensamos e sabemos acerca do que significa o outro.
Não existe solidão inteiramente solidão se temos obstinação suficiente para nos abrirmos a todas as relações possíveis que possam nos retornar o prazer do compartilhamento. Nossa solidão, portanto, dilui-se no processo de vinculação e abertura ao outro e ao mundo. Sem defesas excessivas, sem autocomiseração e sem a ilusão de que a vida tenha qualquer obrigação de fazer-nos felizes. A solidão compartilhada não pode ser uma afecção de dor, já que é apenas uma partícula de um sem-número de sentimentos e emoções que vão e vem.
(WALMIR MONTEIRO)
Marcadores:
existencialismo,
psicologia,
solidão
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Drogas - Um olhar existencial
MOSAICO
Revista Multidisciplinar de Humanidades
Centro de Ciências Sociais e Humanas - USS (RJ)
ISSN 2178-7719
Volume 1 - Nº 2
Revista Indexada - http://sumarios.org
Autor: Prof. Ms. Walmir S. Monteiromanas
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