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quinta-feira, 9 de junho de 2011

SOLIDÃO

A solidão, no entendimento existencial, é um tema paradoxal. O homem é um ser-no-mundo, mas um ser solitário. É importante vislumbrar o homem em permanente relação com o mundo, mas o seu mundo é ele quem faz. O mundo não irá socorrê-lo existencialmente, o mundo não irá determiná-lo em nenhuma instância e em nenhum aspecto. O mundo dilui-se no âmago do ser, sendo a todo instante reconstruído nas circunstâncias de escolhas, ações e reações do indivíduo.
No romance “Antes Só”  o protagonista sai de casa para curar sua solidão, mas encontra na rua pessoas que ele julga felizes, pessoas que estão acompanhadas e sorridentes, mas ele continua ali sozinho, acompanhado de sua solidão. Este homem amargura-se e mergulha num autocomiseração, sentindo pena de si mesmo, mas não age no sentido de buscar as pessoas, falar com elas, construir vínculos e relações; possivelmente ele espera que as pessoas cheguem até ele para tirá-lo da solidão. Ele não sabe de duas coisas: primeiramente que nada prova que se ele se relacionasse com muitas pessoas seria mais feliz, e outra coisa que ele não sabe é que a solidão é ontológica, inseparável da condição humana. A representação de felicidade que faz é estar rodeado de muitas pessoas, de ter com quem sair para jantar, mas tudo isto está no plano do “fenômeno do ser”, ele não acompanhou estas pessoas antes de elas chegarem àquele restaurante e nem mesmo as acompanhou na saída para conhecê-las em suas realidades particulares e pessoais. Se ele rumasse ao “ser do fenômeno” que inicialmente encontrou naquele cenário e naqueles rostos sorridentes, certamente  conheceria a essência do fenômeno, a realidade comum, a solidão daquelas pessoas “felizes”.
Esta não é uma análise pessimista como parece ser, mas realista, dado que apontamos a realidade da solidão imanente ao ser humano. E o fato conclusivo é que jamais nos desprenderemos da solidão, mas nem por isso devemos nos afundar nela. A solidão é nossa companheira, mas ela não precisa ser a tônica da nossa vida. De fato, se entendermos que o contrário da solidão é a vivência de relações que nos permitem uma vida constituída de oportunidades de comunicação e compartilhamento, descobrimos que compartilhar é viver além da solidão, mas que esse compartilhar é formado inclusive das trocas solitárias que fazemos com aqueles a quem queremos bem e a quem escolhemos como parceiros de compartilhamento e de solidão.
A solidão, seria assim, um componente da felicidade de termos com quem dividir nossa existência. O ser-com é isso: ter com quem dividir angústias e prazeres, tristezas e alegrias, que vão formando essa relação dialética entre bom e ruim, positivo e negativo, e tudo isso nos conduz à compreensão de que não existe nada inteiramente bom e nem inteiramente ruim. O ser-com estará sempre prsente, mesmo que ninguém esteja ao nosso alcance, mesmo em uma ilha deserta, já que a nossa referência de ser passa necessariamente ao que pensamos e sabemos acerca do que significa o outro.
Não existe solidão inteiramente solidão se temos obstinação suficiente para nos abrirmos a todas as relações possíveis que possam nos retornar o prazer do compartilhamento. Nossa solidão, portanto, dilui-se no processo de vinculação e abertura ao outro e ao mundo. Sem defesas excessivas, sem autocomiseração e sem a ilusão de que a vida tenha qualquer obrigação de fazer-nos felizes. A solidão compartilhada não pode ser uma afecção de dor, já que é apenas uma partícula de um sem-número de sentimentos e emoções que vão e vem.
(WALMIR MONTEIRO)

3 comentários:

Angela Lins disse...

Parabéns pelo texto

Ádrivan disse...

" Se ele rumasse ao “ser do fenômeno” que inicialmente encontrou naquele cenário e naqueles rostos sorridentes, certamente conheceria a essência do fenômeno, a realidade comum, a solidão daquelas pessoas “felizes”."


Seria essa umas das grandes dificuldades no caso da abordagem do psicólogo no ato de clinicar?

Anônimo disse...

oi problema, não é vir só e ir só,é ficarmos sozinhos,durante este breve momento em que estamos vivos.