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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CONSCIÊNCIA, INCONSCIENTE E TEMPORALIDADE PSÍQUICA

CONSCIÊNCIA, INCONSCIENTE E TEMPORALIDADE-PARTE I
O CONCEITO MINKOWSKIANO DE INCONSCIENTE PODE SER CONCEBIDO FENOMENOLOGICAMENTE COM O SIGNIFICADO DE UMA “CONSCIÊNCIA-INCONSCIENTE” OU CONSCIÊNCIA DO INCONSCIENTE SEM CAIR NA APARENTE CONTRADIÇÃO QUE O TERMO PODERIA APRESENTAR, POIS, DE UM PONTO DE VISTA FENOMENOLÓGICO O CONCEITO DE ESTRUTURA MENTAL UNA E INDIVISÍVEL NÃO IMPLICA NA EXISTÊNCIA DE PARTES DECOMPOSTAS, ISOLADAS E ANTAGÔNICAS. A APARENTE CONTRADIÇÃO DE TERMOS ENCONTRA-SE, NA FENOMENOLOGIA, NA CONTRADIÇÃO DA FORMULAÇÃO OU NA CONCEITUAÇÃO IMPRÓPRIA QUE O TERMO TRADICIONALMENTE INCORRE.
O objetivo deste artigo é apresentar as linhas gerais da análise fenomenológicoestrutural do filósofo e psiquiatra Eugène Minkowski (1885-1972), na esteira filosófica de Henri Bergson (1859-1941), no que concerne ao problema dos conceitos de consciência, de inconsciente e de vivência psíquica temporo-espacial, no âmbito da continuidade (continuum) do tempo-espaço, inconsciente-consciente e normal-patológico. Para tanto, abordaremos os problemas conceituais decorrentes da vivência psíquica temporal ligada a alguns conceitos fundamentais da fenomenologia da vida psíquica, tais como: contato afetivo ou vital, dados imediatos da consciência, duração ou tempo vivido, instantaneidade ou simultaneidade e sucessividade temporais, intuição, tempo-qualidade, pulsão vital (élan vital), sincronicidade vivida, simpatia, consciência e inconsciente, etc. Iniciaremos apresentando o conceito de tempo ou duração vivencial no contexto da obra “O tempo vivido” (1933), de Eugène Minkowski.
 A seguir, indicaremos brevemente que os conceitos de consciência e de inconsciente para Minkowski estão ligados intimamente ao de tempo presente, tal como desenvolvido por Henri Bergson na terceira parte de sua obra “Matéria e memória”, de 1896.
Finalmente, tentaremos mostrar uma possível relação heurística entre os vários conceitos fenomenológicos ligados ao conceito de tempo vivencial, no contexto da visão bergsonminkowskiana, com destaque para a aparentemente contraditória expressão “consciência do inconsciente”, em oposição à tradicional concepção psicanalítica freudiana, como uma alternativa epistemológica à superação do tradicional problema dos vários dualismos, ditos realistas, idealistas, de substâncias, propriedades, etc.
As conceituações teóricas minkowskianas, aplicadas à psicopatologia trazem uma nova visão da doença mental, sobretudo no diz respeito à concepção de um espectro contínuo que abrange a totalidade da vida psíquica patológica, apontando para a superação do tradicional e secular problema da artificialidade das classificações reducionistas dos transtornos mentais.
Tempo, vivência temporal e intuição
O conceito de tempo apresenta, em suas origens semânticas gregas, sempre um significado que remete a algo dinâmico. Vejamos: o ser (ho ôntos, ‘ο ′οντος) e o devir (ho aión,‘ο αιων) têm o sentido de algo que “é” no instante em que “está sendo”. O verbo ser (eu sou) na primeira pessoa do singular (eimí, ειμι′) e o seu presente do infinitivo (einai, ειναι), tem a significação de futuro (eu irei) e é por isso empregado no lugar do tempo verbal futuro.
O particípio presente do verbo ser corresponde ao gerúndio em português (ón, oúsa, ôn, respectivamente masculino, feminino e neutro:’′ον,’′ουσα,’′οντος), e são declinados na forma ôntos, no masculino e neutro (’′οντος), lembrando-nos a raiz de vários conceitos filosóficos relativos ao “ser”, como ontologia, ontogenia, etc. O particípio futuro do verbo ir (iôn, iôntos, havendo de ir) também expressa movimento, duração (ιων,’′ιον,’′ιοντος), no sentido de estar indo. Tanto o infinitivo quanto o particípio (gerúndio) têm o significado de presente e de futuro. O termo aiónion (αιωνιος,α,ον) tem o sentido de eterno ou de eternidade; o advérbio ontós (’′οντως) significa “realmente, na realidade”; o particípio presente plural de eimí (ειμι′) pode significar as coisas existentes, a realidade, os seres (ta onta, τα ′οντα). O substantivo aión (αιων) diz respeito ao tempo, à duração da vida, à vida em processo de geração, etc.
 Minkowski concebe a duração temporal (aión) com o sentido bergsoniano de élan vital, de força ou pulsão vital, vida psíquica, eternidade, duração da vida, geração, vida durável e eterna, infinitude, etc. A sua principal obra “O Tempo Vivido”, que talvez pudesse ser mais precisamente traduzida por “a vivência psíquica temporal” ou “o tempo vivente”, já que “vivido” pode dar a idéia de algo estático e passado, constitui uma referência importante para os psiquiatras que procuram compreender fenomenologicamente as diversas apresentações de doenças mentais. Na introspecção autista dos assim denominados psicóticos esquizofrênicos o mundo é percebido em função de uma deficiência de intuição e da vivência do tempo, do dinamismo vital com relação à realidade externa, havendo predominância de fatores estáticos, de imobilidade e de hipertrofia dos fatores de ordem espacial e mecanismos de defesa racionais (Minkowski 1995, pp. 255-70).
Já nos indivíduos que apresentam transtornos psíquicos predominantemente afetivos de caráter psicótico ocorrem fenômenos opostos com relação ao contato vital com a realidade ambiente ou social: excitação maníaca (euforia exagerada) e depressão melancólica. As propriedades estruturais e formais dos fenômenos vivenciais esquizofrênicos são “antipáticos”, em franca oposição aos fenômenos simpáticos ou sintônicos da duração vivenciada nos transtornos psicóticos afetivos, antigamente denominados de psicose maníaco-depressiva (monopolar ou bipolar), onde ocorrem fenômenos de deslocamento temporal de caráter obsessivo ou excessivamente controlador como tentativa compensatória de suprir o dinamismo temporal deficitário e a sensação de inibição e de parada do tempo vivenciado. Assim, na depressão afetiva intensa a estrutura fenomênica do tempo aparece na forma de um contraste mais ou menos intenso entre a percepção do tempo imanente e o tempo transitivo (ib., pp. 279-80).
A angústia se liga à idéia de morte e se torna constante. Enquanto a vivência de morte imanente está ligada à vida natural, um outro fenômeno, a vivencia psicopatológica de morte transitiva, com características hostis, negativas, estranhas, proveniente do ambiente, turvando a consciência, barrando o fluxo da vida mental saudável e bloqueando também a vivência imanente de morte e resultando no impulso ao suicídio. Neste ponto, o doente que aspira à cura declara que a morte lhe trará a cura. Vejamos o que nos diz Minkowski a respeito da relação entre a vivência temporal imanente e a transitiva, assim como a sua ligação aos mecanismos psíquicos de defesa:
O tempo imanente se detém, o doente procura suprir uma certa deficiência por um tipo de avanço no tempo transitivo, avanço que ele realiza com a ajuda do cálculo; mas é evidente que esta operação não pode lhe dar satisfação pois ela está tão longe de uma progressão real quanto o tempo transitivo está afastado do tempo do tempo imanente; e ao perseguir esta quimera, o doente é condenado a recomeçar sempre de novo a sua tarefa; o cálculo o obseda (Minkowski 1995, pp. 285)
A obsessão do suicida parece, então, decorrer do fenômeno de privação da vivência temporal imanente e do afastamento do indivíduo do fluxo progressivo do real e a fuga artificial da racionalização e do cálculo das relações estáticas e espaciais no plano transitivo.
Na psicopatologia fenomenológico-estrutural minkowskiana, o conceito de tempo-qualidade ou tempo vivido, desenvolvido principalmente em sua obra “O Tempo Vivido” (1933), assim como o conceito de espaço vivido, permanecem hodiernamente como um fenômeno complexo a ser investigado. A experiência vivida do tempo e do espaço é das mais comuns na existência humana e um exemplo corriqueiro é a experiência de se visitar, na idade adulta, o local onde se viveu na infância: o que era enorme é agora re-vivenciado como pequeno e distante do presente. O problema da instantaneidade e da sucessividade do tempo psíquico, isto é, a questão da percepção da consciência entre a série de objetos simultaneamente escalonados no espaço e a dos estados mentais sucessivamente desenvolvidos no tempo é explicitado por Minkowski através do conceito metafórico de “nada” e do caráter irracional do devir, a partir de uma passagem da obra de Johannes Volkelt, “Fenomenologia e Metafísica do Tempo, como segue:
O passado é passado, logo ele não é mais; o futuro não é ainda; o presente se encontra assim entre dois nadas; mas o presente, o agora, é um ponto sem extensão; no momento que o presente está lá, ele já não é mais; o agora é pois contraditório e deste modo é também um nada. É assim que a realidade sereduz, por um momento, a um nada situado entre dois nadas.
Na concepção minkowskiana, as considerações teóricas de Volkelt sobre o tempo como um nada não provam que ele possa ser reduzido a uma fórmula lógica, a um nada, a um fenômeno inexistente com valor absoluto e exclusivo. O tempo minkowskiano é fenomenológico, vivo, vivente, é um “devir”, algo que é no instante exato em que é e que deixa de ser para ser substituído por um novo e sempre fluente vir a ser (Minkowski 1995, pp 18-9). Em relação à concepção artificial da passagem do tempo vivido ao tempo assimilado ao espaço, Minkowski invoca o critério metodológico bergsoniano:
Fiéis à filosofia de Bergson, temos feito ressurgir o caráter irracional do devir. Mas o que fazer em presença desse desacordo profundo entre o tempo vivido e os procedimentos do pensamento discursivo?”. Sua resposta a esta questão é a seguinte:“Uma solução se impõe ao espírito.
O tempo, em razão do seu aspecto particular, exige, se não é para ser analisado, ao menos para ser posto mais em relevo, um método particular, próprio à sua natureza..
O nome do método de captação intuitiva deste fenômeno imediato da consciência, o tempo vivido, é denominado de método intuitivo ou de “penetração”, a partir das teses bergsonianas, conforme Minkowski afirma nesta passagem de “Le Temps Vécu”:
Bergson preconizou o método intuitivo. (...) Pode-se, como fez o próprio Bergson na sua ‘Evolução criadora’, atribuir ao tempo um substrato mais estável e mais consistente, sob a forma de fenômenos biológicos, e deste modo chegar a uma percepção luminosa do encadeamento dos fatos da natureza.
Também a vivência de prazer e de desprazer tende a influenciar o tipo ou a qualidade da experiência temporo-espacial na medida em que “nos momentos de fadiga, de desencorajamento, de decepção, tudo me parece fugidio, efêmero, imperceptível.”
Além disso, qualquer representação do tempo-espaço psíquico torna-se espacializado, reificado, se não for interpretada como sendo metafórica, já que ao se representar a realidade conceitualmente corre-se o risco de atribuir aos fatos um caráter interpretativo estático, racional, artificial. Assim, Minkowski nos afirma que:
(... o tempo se apresenta, de um lado, como um fenômeno irracional, refratário a toda fórmula conceitual; mas, por outro lado, desde que tentamos representá-lo, ele toma de um modo natural o aspecto de uma linha reta; é preciso pois que existam fenômenos vindo se intercalar e se escalonar entre os dois aspectos extremos do tempo, tornando possível a passagem de um ao outro.
Quanto aos fenômenos da duração e da sucessão temporais, Minkowski nos diz que “tanto quanto os objetos imóveis do mundo exterior duram, sem se penetrarem do fluxo vivo do tempo, assim também duram os nossos estados de consciência e os eventos que se desdobram em torno de nós, em se desdobrando”. (ib., p.23) Assim, conforme Minkowski, “para o fenômeno da duração que flui, as coisas se complexificam, ao menos aparentemente, pelo fato de que nós não temos na nossa linguagem um termo único para designar esse fenômeno. Daí a impressão que ele contém dois elementos distintos, a saber, a duração e o fluxo”. (ib., p.23). A duração é concebida como sendo um momento ou fator não temporal (ausserzeitliches Moment de Johannes Volkelt), que todavia pertence de algum modo ao tempo:“em função do princípio de que tudo o que é tempo deve se modificar, trocar, deslocar-se incessantemente, princípio que como nós vimos anteriormente, constitui uma visão do espírito, mas não repousa de modo algum sobre a natureza mesma do tempo”. (ib., p.23). E sobre a duração vivida ele nos diz que ela constitui um fenômeno simples e indecomponível.
Fiel a Bergson, Minkowski considera que há uma diferença essencial entre a ‘duração pensada’, com os seus pontos justapostos, e a ‘duração vivida’, com a sua constante organização vivente, pois no que tange aos fenômenos da duração e da sucessão “não há diferença essencial entre passar de um estado a um outro e persistir no mesmo estado”, pois pode-se conceber a sucessão como uma intuição, como “uma solidariedade, uma organização íntima de elementos, onde cada um, representativo do todo, disso se distingue e disso se isola para um pensamento capaz de abstrair”. (ib., p.23-4). Em suma, o problema do tempo vivencial ou mental está essencialmente ligado à tese bergsoniana da Consciência, tal como aparece na obra “Matéria e Memória”, como sendo a propriedade essencial dos estados psicológicos. A Consciência, na condição de marca característica do presente atualmente vivido, constituiria o domínio atual de todo fenômeno real. No domínio psicológico, a Consciência seria a ação real, de eficácia imediata, com o papel de presidir a ação e iluminar uma escolha. Ela projeta, assim, a sua luz sobre os antecedentes imediatos da decisão e sobre todas aquelas lembranças passadas capazes de se organizarem utilmente com eles; o resto permanece na sombra. (Bergson 1999, pp. 165-170) No que se segue, indicaremos a relação entre os conceitos de tempo vivido, de Consciência e de Inconsciente na visão bergsonminkowskiana. (CONTINUA).

10 comentários:

israel disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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"Psicoterapia Existencial"
obg! *-*

Guiiu.Moitinho@hotmail.com
-
seu blog esta mto bom! *--*

Rodrigo disse...

muito bom o blog

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Yara disse...

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Anônimo disse...

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