Blog do psicólogo, conferencista e escritor Walmir Monteiro, autor de nove livros de psicologia e literatura. Conferencista nacional em temas de psicologia, especialmente autoconhecimento, motivação, fenomenologia, psicologia existencial, dependência química e transtornos compulsivos. Email: monteiro.walmir@gmail.com
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sábado, 17 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Um conto sobre (des)encontros
ANDANTES
Se sei que o momento mais difícil de uma relação é quando acaba, o mais emocionante é quando recomeça. Fiquei sozinha nesse Café. Charles se foi. Acendendo um cigarro observo pessoas à minha volta. Nem mesmo essa fumaça é capaz de expulsar o perfume abandonado em minhas mãos. Todo perfume tem memória, e esse, sozinho, é capaz de contar da nossa relação a história. Insustentável história de um cara que exibe clássica pinta de executivo, e eu – contraponto - despreocupada “free-lance”.
Não costumo fumar, mas acendo quando acho que mereço. Estava triste, sofri uma perda. Cabia um cigarro, sem culpa. No Café crianças jogam no computador, enquanto solitários – página a página - mexem na internet para matar o tempo. Numa mesa do fundo um casal conversa, ri e troca beijos. Parecem felizes. Já eu, não atino o que fazer. Falta coragem de levantar e descobrir que simplesmente não tenho aonde ir.
Eu - Suzy, fotógrafa, 24 anos - talvez seja louca -- se loucos são os insatisfeitos com a realidade comum, os que não aceitam que cumprir rotinas seja a definição de viver. Passei a curtir uma sensação especial de liberdade, quando eu e Charles decidimos morar em casas separadas. Hoje sou livre. Posso dormir ou não dormir. Jantar ou não jantar. E ficar de luz acesa até quando bem entender. Sobretudo – e isso é o melhor de tudo - posso ficar triste sem ter que dar explicações. E como é difícil, e inútil, e cansativo, explicar a tristeza.
Tenho vontade de ir atrás de Charles para dizer que não é nada disso (seja lá o que for que ele pense que seja isso) e prometer alguma coisa que reverta a situação. Uma pena eu não ser uma mulher daquelas que correm atrás, que dizem coisas que funcionam, que juras fazem e garantias empenham, mesmo que jamais se cumpram. E quem disse que juras de amor são para se cumprir? Outra em meu lugar se jogaria aos seus pés, e no meio da multidão aprontaria uma loucura, para chamar de vez sua atenção e provar que não era nada daquilo. Nada daquele papo cabeça, daquela filosofia besta que desenrolamos no café.
Mas não tenho talento para tanto. Nem com texto decorado conseguiria. E além do mais... ele pertence a um planeta diferente. Ou será que sou eu? Acho que sou de um lugar onde a felicidade se faz de coisas novas, especiais. Tão especiais que nem sei que mistério é esse a que tanto aspiro.
Preciso domar minha ansiedade. O cigarro acabou. Tomo um copo inteiro de água quase gelada. Resolvo andar, porque me faz bem. Caminhando observo as pessoas e imagino seus problemas. Será que elas são facilmente felizes ou imensamente exigentes, como eu?
Está me fazendo bem andar a pé pelo centro do Rio, assim sem motivo, em plena tarde de segunda; quando tantos que hipnotizados com trabalhos e afazeres se envolvem em uma correria louca. Talvez, para ser feliz seja necessário se envolver em alguma correria; mas... e se esta for uma fórmula contrária, feita só para esquecer a infelicidade? Talvez a felicidade seja só isso: não pensar.
Enquanto penso em não pensar, observo pessoas que se movem freneticamente, sem se dar conta de quem passa ao lado. Mecanicamente caminham, como únicas, como solitárias, invisíveis. Entro em um edifício qualquer. De uma janela no 17º andar olho aos meus pés a Rio Branco. Multidões, como um bando de formigas, formam um bloco na beira da calçada. Sinal vermelho dos pedestres. Ali todos se encontram, mas não se acham. Essa forçada convergência não é motivo para que se admirem. Adivinho que não se olham. E que jamais se tocam. No máximo se esbarram. Caminham sós. Continuam sós. Tantos e ninguém. O sinal abre, e rapidamente atravessam a avenida. Blocos humanos, em esquinas de sinais, agem de forma sincrônica, numa harmonia eletrônica, dirigidos por luminosos que abrem e fecham. Verde-amarelo-vermelho, comandando a ação dos que seguem sem olhar para os lados, sem se importar com quem está por perto.
Estou há meia hora dentro de um prédio onde entrei sem ser vista. Vista, quem sabe, talvez. Mas não notada. Não houve quem comigo se importasse, mesmo que por motivos burocráticos ou de segurança. Simplesmente subi. Contei nove pessoas no elevador. Sem precisar que o ascensorista pedisse, ditavam números: onze, oito, vinte e dois, vinte e um. Falei dezessete. Poderia ter dito qualquer número, mas escolhi o 17; um número que ninguém havia falado. Algumas pessoas me olharam rapidamente. Temi que estivessem adivinhando que eu não tinha nada a fazer no dezessete. Mas tudo que sabiam de mim é que eu havia falado dezessete. Não se importavam que meus cabelos agora são ruivos, que meu lábio hoje é rosa e que minha sandália verde combina com o cinto que segura o meu “jeans délavé”. Não notaram que não estou vestida de executiva, e que não se trabalha nesse prédio sem um belo tailleur. Talvez tenham percebido apenas o decote da minha blusa de seda branca. E se deram por satisfeitos.
Ainda absorta em meus pensamentos, ouço o ascensorista olhar para o alto e bradar:
17! Saio intrigada com o fato de que quase todos, no elevador, olhavam o tempo todo para o alto. Concluo definitivamente: nem mesmo minha blusa notaram.
Espiando lá em baixo, tento compreender o movimento da Rio Branco. São 16 horas. Daqui do alto me suponho no papel de uma deusa, de um ser superior, cujas mãos pudessem comportar poder sobre vidas e destinos. Então, se assim fosse, o que eu faria? Pararia a Rio Branco? Faria as pessoas lá embaixo repararem melhor umas nas outras? Já sei... faria todos se abraçarem, se unirem em um protesto pacífico contra todo tipo de guerra e violência. Ah, mas nada disso seria necessário. Tão poderosa assim, eu – direto - poria fim às guerras e a toda forma de dor e injustiça. Proclamaria o amor. Decretaria a paz, dando força a todo sentimento bom e, assim, destruiria o mal. Isto alcançaria não só a Rio Branco, mas todo o Rio, o Brasil, o mundo inteiro.
E se não for possível ser feliz sem dor? E se a angústia for necessária à plenitude da existência? Imagino que existir sem angústia é existir sem emoção e sentido, como a vida sem a morte, o som sem o silêncio. E se para tudo há um oposto que o complementa, no lugar de acabar com a angústia o melhor seria aprender o seu manejo. E o poder, que me imagino tendo, serviria para multiplicar as sementes da paz. Entretanto, minha sincera vontade nesse momento seria usar algum poder que me trouxesse Charles de volta, mas não como antes. Já que posso escolher livremente, gostaria de tê-lo liberal em relação às minhas manias e predileções.
Acho que estou egoísta, e amar é o contrário disso. Charles é meu contrário, e esse tipo de amor só emplaca quando aprendemos a renunciar, a abrir mão. Não sei se dá para ser moderna, valente, politizada ... e amar. Ele não quer, definitivamente não quer, que vivamos em casas separadas. Sem perceber preferi me separar dele à minha nova casinha. Pensei que sair da casa seria como separar de mim mesma. E agora não quero mais a casa, mas ele.
Nunca pensei, forte como sempre me soube, parar um dia no 17º andar de um prédio desconhecido só para ruminar dores de separação. De nariz colado na vidraça meus olhos acham a maçaneta dessa grande janela que me separa do abismo. Aqui penso que sou livre, tão livre que posso atirar-me lá embaixo. Nada me impede. Ninguém pode ser protegido de si mesmo. Mas o medo é maior que tudo. Maior que a curiosidade de saber o que é se espatifar no asfalto dessa avenida. Maior que o imã que me atrai. Agradeço meu medo. Sinto que vou chorar. Mas antes disso acontecer, resolvo sair do prédio.
Desço em um elevador ainda mais lotado, porém mais silencioso. Agora ninguém cita qualquer número. Todos vão para o térreo. Mas também não avisam. Acho que não precisa. Gente compenetrada, cansada de mais um dia de trabalho. Eu, frila, sinto que me falta um contrato a cumprir, um horário a obedecer. Talvez assim não tivesse tempo de pensar. Quem não sabe pensar, não sabe sofrer. Charles não sofre.
A porta se abre. O povo sai quase que em um só bloco. Todos, como sempre, apressados. Também isto me diferencia. Subo a Rio Branco. Contemplo a bela arquitetura do Teatro Municipal. Do outro lado, a Biblioteca Nacional. Caminho pelas escadarias da Câmara e depois me sento em um barzinho para tomar um chope. Peço uma água, não muito gelada. Eu devia comer alguma coisa, mas não quero nada. A comida disfarçaria a dor de uma solidão que quero sentir até o fim. Preciso dar o máximo de atenção ao meu sofrimento, pois talvez a solução esteja em algum ponto cego desse meu drama interno, e esse ponto me escapa se não me mantenho atenta.
Ando pela Lapa, Arcos da Lapa, e entro na sala Cecília Meireles. Um pianista ensaia um andante que me atrai. Aproximo-me para ouvir melhor, como que hipnotizada por aquele teclado suave e reconfortante. Sento-me em uma poltrona na última fila e de olhos fechados recosto a cabeça em um braço macio.
De repente me sinto bem, muito bem. Tenho a sensação de sentir o perfume de Charles. Mantenho-me de olhos fechados para não me fugir à memória essa fragrância que dá tanta saudade. Alguém me beija os lábios.
Sem entender, mas já desfrutando e me entregando a essa sensação, tão surpreendente quanto agradável, escuto a voz de Charles dizer: caminhemos.
(Autor: Walmir Monteiro. Email: monteiro.walmir@gmail.com)
(Autor: Walmir Monteiro. Email: monteiro.walmir@gmail.com)
segunda-feira, 22 de março de 2010
JEAN GENET
Trecho do artigo HERÓIS BASTARDOS de Ariane Ewald
A história do escritor Jean Genet foi intensamente analisada por Sartre (2002), e representou uma crítica aos condicionamentos sociais da época e suas influências na vida de uma pessoa. A obscura trajetória de Genet pode ser resumida assim: ele nasceu em Paris em 1910, seu pai era desconhecido e foi abandonado pela mãe em um orfanato. Foi adotado por uma família camponesa do interior da França, que o surpreendeu roubando em várias ocasiões enviando-o a um reformatório. Após alguns anos nesta instituição, escapou e incorporou-se à Legião Estrangeira, da qual desertou. Durante toda a vida andou errante pela Europa, como vagabundo e ladrão e passou por prisões de vários países. Sartre coloca que, no momento em que foi pego roubando, Genet se deu conta pela primeira vez do objeto que era frente ao olhar do outro; um objeto desprezado por todos, e ele próprio passa a se confundir com esse olhar tornando-se aquilo que fazem dele: “Sob esse olhar o menino volta a si. Ainda não era ninguém; subitamente, torna-se Jean Genet”. (2002, p.29).
Segundo Sartre (2005), o Outro faz parte de nosso modo de ser, como aquele que me revela aquilo que sou para ele, daí sua importância. Certos aspectos nossos só podem ser aprendidos pela objetividade que somos para o outro e tais aspectos são também constituintes de nosso modo de ser, como diz o filósofo: “o outro não apenas revelou-me o que sou: constituiu-me em novo tipo de ser que deve sustentar qualificações novas”.(p.290). Além disso, preciso me diferenciar do outro, por saber que ele não sou eu, para que possa me definir enquanto existente; o que faz de mim a síntese desta intersubjetividade eu-outro que sinto constantemente a cada instante em que o Outro “me olha”. Este momento é tão importante para a teoria sartriana, que poderíamos até arriscar dizer que é uma de suas chaves fundamentais, pois para o filósofo “o olhar é, antes de tudo, um intermediário que remete de mim a mim mesmo” (2005, p.334). O olhar do outro, para Sartre, nos transformas profundamente, pois somos arrancados de nossa interioridade quando nos damos conta de que somos vistos. A maneira pela qual apareço para o outro sempre me escapa e faz parte de uma consciência que é para mim inacessível, e não posso ser indiferente a ela visto que por ela sou situado objetivamente no mundo. Portanto, sou também esse ser que aparece para o outro, e assim vivo a experiência de ser objeto de seu olhar, que é livre, pois o que sou para ele nunca pode ser, por mim, previsto. Decorrente disto surge o inferno sartriano: a batalhas de consciências que caracteriza o conflito das relações humanas, onde efetuamos a rotulação de subjetividades, através de olhares que, como o da medusa, transformam o outro em pedra.
Esta profunda transformação decorrente do fato de ser visto teve sua expressão máxima em Genet, que passa a definir, pela experiência de seu ser visto, seu projeto existencial. A importância do efeito do rótulo público em um indivíduo foi também analisada e ressaltada pelo sociólogo Howard Becker (1977) em seu estudo sobre “marginais e desviantes”. Segundo o autor, ser rotulado publicamente como desviante constitui em um fator crucial para manter um padrão neste tipo de comportamento, pois tal situação implica em conseqüências na identidade pública do indivíduo, levando-o a mudanças em relação aos seus grupos sociais. O indivíduo rotulado passa a um novo status social e isso modifica sua interação com o meio, ele passa então a moldar-se pelo olhar dos outros, caracterizando uma espécie de profecia auto-realizadora. Para este autor, é importante saber quem faz as regras e para quem, para entender o que é considerado desviante, pois um desvio só poder ser definido como tal de acordo com uma relação, ou seja, ele não é uma qualidade que exista no próprio comportamento, mas sim na interação entre a pessoa que comete o ato e aqueles que respondem a ela. Na visão de Sartre, este processo corresponde à objetivação da subjetividade decorrente do “ser olhado pelo outro”, do Outro como absoluto, sendo que, ao falarmos de uma criança, este Outro é ainda mais poderoso frente à ínfima certeza que possa ter de si. Para Sartre, no caso de Genet, esta foi sua metamorfose, no sentido kafkiano, quando a criança que era aos poucos se transformou em um bicho horrível para os outros:
Genet fica sabendo o que ele é, objetivamente. É essa passagem que vai determinar a sua vida inteira. (...) Genet é um ladrão: essa é a sua verdade, a sua essência eterna. E, se ele é ladrão, conseqüentemente, é preciso que ele o seja sempre, em todo lugar, não só quando rouba, mas também quando come, quando dorme, quando beija sua mãe adotiva. Cada um dos seus gestos o trai, revela à luz do dia sua natureza infecta; a qualquer momento, o professor pode interromper o ditado, olhar Genet nos olhos e exclamar com voz forte: “Este aqui é um ladrão” Em vão ele pensaria merecer indulgência confessando as faltas, dominando a perversidade dos seus instintos; todos os movimentos do seu coração são igualmente culpados, porque todos expressam igualmente a sua essência. (SARTRE, 2002, p.30).
A vida de Genet se caracterizou pelo desprezo social e seu movimento foi um eterno retorno às instituições, reformatórios, prisões, lugares aos quais pertenceu desde o nascimento. Porém, ao fazer poesia e tornar-se escritor, expressou que mesmo diante de tais condições encontrou um meio de fazer-se liberdade, uma solução de “desesperado”. Segundo Laing & Cooper (1972), através de Genet, Sartre tenta mostrar que a realidade concreta da vida de um homem só pode ser entendida mediante a uma consideração da dialética da liberdade atuante em condições materiais. Isto quer dizer que a liberdade deve ser compreendida em situação, e mais ainda, ao compreender este projeto em particular podemos entender as ambigüidades pertencentes à condição de ser liberdade. Por isso, compreender Genet significa aceitar a condição comum a todos nós: o “mal” não está fora, ele faz parte de nós. Há, portanto, para Sartre (2002), uma função em eleger um “bode expiatório” na tentativa de projetar essa negatividade, nossa falta de ser, em algo, ou alguém. Assim, existe uma função de utilidade social de um rótulo, ou seja, há um aspecto tranqüilizador em descobrir onde “o Mal” está, o que, segundo, Jeanson (1987), por um efeito de contraste, nos “santifica” aos nossos próprios olhos. Se tomarmos como exemplo o caso de Genet como o mal encarnado, ou seja, a maldade em carne, vemos que ele foi visto como a representação de toda essa projeção social e seus atos e comportamentos eram atribuídos como inerentes ao seu caráter. Caso possamos compreender, ao invés de explicar, uma pessoa “má”, isso nos levaria a admitir a possibilidade de também o ser, pois se assumo que sou liberdade como ele, sou também ambíguo, portanto.
Este aspecto recai nas questões levantadas por Sartre[1] no que diz respeito a um pensar ético baseado na aceitação da liberdade do homem ambíguo. A negação da ambigüidade pressupõe a negação da própria condição humana, pois o ser do homem inclui positividade (ser pleno; concreto) e negação. Isto significa que ao identificarmos no homem somente seu aspecto positivo, suprimimos o principal diferencial do seu modo de ser – a sua falta de ser. O homem é um ser que coloca a si próprio em questão (ser para-si), e isto significa que há uma distância de si fundamental, diferentemente do ser em-si (ser das coisas materiais) que existe em uma total coincidência consigo mesmo. Para Beauvoir (2005), as morais tradicionais, idealistas e materialistas, suprimiam a condição ambígua do homem por valorizar ora a natureza ora o espírito. Mas já Hegel salientava que a condição do homem é justamente a inquietude do espírito, fato que a autora expressa da seguinte maneira:
(...) a cada instante a verdade vem à luz: a verdade da vida e da morte, de minha solidão e de minha ligação com o mundo, de minha liberdade e de minha servidão, da insignificância e da soberana importância de cada homem e de todos os homens (...). Uma vez que não logramos escapar à verdade, tentemos, pois olhá-la de frente. Tentemos assumir nossa fundamental ambigüidade. (BEAUVOIR, 2005, p.15).
O que é necessário, portanto, é assumir a ambigüidade, o que é equivalente à aceitação da condição de liberdade. Na visão sartriana, a liberdade é esta indeterminação que tem origem na falta de ser, no que o filósofo chama de Nada. Desta forma, não é possível falar de uma essência prévia do existente, o que descarta a idéia de natureza humana, mas sim de uma condição humana onde a existência precede a essência. De acordo com Silva (2007), na tradição filosófica do conhecimento, buscava-se primeiramente conhecer a essência de algum objeto, para depois entender a existência como o campo de manifestação das qualidades que o definem. Para este autor, esta visão acarreta no determinismo do ser, onde todas as suas manifestações se reduzem ao que ele essencialmente é. Sendo assim, seria possível conhecer a essência de uma pessoa para identificar ou até prever seus comportamentos. Também Becker (1977) expôs uma crítica a esta visão, aos mostrar que há uma busca constante de supostas causas dos comportamentos desviantes inerentes à personalidade daqueles que os cometem, tais características tornariam assim necessário ou inevitável que estes agissem desta determinada maneira. O autor segue dizendo que a sociedade aceita os rótulos de desviantes como dado e esquece que estes fazem parte de um grupo que faz o julgamento e que constrói as regras. Para Sartre, tal exemplo se enquadra em uma tentativa de determinar o que o ser é, como essência dada, suprimindo assim a sua falta de ser, a sua liberdade. Frente a isso, Silva ressalta:
É de extrema importância notar que indeterminação e ausência são as vias de compreensão da existência, porque isso significa que a realidade humana deve ser abordada muito mais na perspectiva da negatividade do que pelas determinações afirmativas de seus possíveis atributos. E há uma razão para isso: visto que o ser humano é processo de existir e não essência dada, ele se caracteriza muito mais pela mudança do que pela permanência; interessa compreender não o que o homem é (porque, precisamente ele não é nada antes do processo existencial), mas o que ele se torna no percurso da existência. (2007, p.56).
Diante de tais condições o único dever de homem é tornar-se Ser, mas sem se identificar totalmente com nenhum atributo, daí a dificuldade de seu projeto, de sua “paixão inútil”. O homem age, portanto, para dar sentido a si e ao mundo e o valor nasce justamente das escolhas realizadas na ação. Sendo assim, o valor como dado absoluto foi contestado por Sartre na sua visão moral, ao dizer que os sistemas de valores apriorísticos constituem uma moral fundada no imperativo, fonte de alienação do homem, pois torna suas possibilidades condicionadas e suas ações, conseqüentemente, repetitivas. Quando a ação perde o seu caráter criativo e transformador, expressão máxima da liberdade autêntica, o homem torna-se alienado e não age para modificar a situação objetiva na qual está inserido, suas ações resultam em uma “prática-inerte” e o futuro dos possíveis torna-se um futuro-passado. Eis aqui uma questão fundamental no pensamento sartriano: o caráter transcendente do homem não pode ser entendido sem a facticidade de sua situação, a sua liberdade se faz sobre um fundo de mundo contingente, sem o qual cairíamos no puro idealismo. Desta forma, Sartre propõe uma moral da ação e da mudança, e nos mostra o perigo de uma eterna repetição da “moral dos bons costumes”, pois, para ele, “os bons costumes: nunca são bons porque são costumes” (SARTRE apud REIMÃO, 2005, p.420).
Podemos entender agora que na visão sartriana o maniqueísmo seria uma forma de suprimir toda a problemática levantada pela moral da ambigüidade e da liberdade. Ao tentar dar ao mundo uma visão estática separando o Bem do Mal, e tentar identificar, na convivência cotidiana, quem está de que lado.
Atualmente, não é difícil encontrar atitudes não muito distantes das analisadas por Becker (1977) e Sartre (2002) através de Genet, como por exemplo, o debate sobre a maioridade penal. Em carta recente ao jornal O globo, um leitor expressou que considera os
menores infratores “sociopatas perigosíssimos” e acima de tudo “irrecuperáveis”. Isto nos leva a questionar a facilidade com que se distribuem rótulos, e nos remete diretamente às questões até aqui levantadas. Além disso, vimos que literatura engajada de Sartre, assim como outras, podem continuar a nos ajudar na compressão da questão ao invés de simples classificação. Ao identificarmos que há um aspecto confortador em localizar e rotular o mal no outro, devemos estar atentos aos nossos próprios movimentos e assim questionar as classificações sociais já estabelecidas, visando uma aproximação com o outro ao invés de aumentar a distância existente. Ao perseguir o objetivo sartriano de estudar o “abstrato concretamente”, este estudo se abastece da filosofia existencial para entender e questionar o mundo em que hoje vivemos e criamos. [1] 1 Ver: REIMÃO,C. Terceira parte: Ética. In: Consciência, dialética e ética em Jean-Paul Sartre. 2005, p.369.
sábado, 20 de março de 2010
O NADA SARTRIANO
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