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segunda-feira, 15 de março de 2010

A FENOMENOLOGIA DO RENASCIMENTO

Walmir Monteiro[1]
 Resumo
            O que conduz este artigo é uma verificação daquilo que fundamenta os princípios gerais do rebirthing de Leonard Orr e uma análise teórica da descrição da execução dessa ferramenta terapêutica conhecida entre nós como “Renascimento” tal como foi introduzido no Brasil por Samvara Bodewig. A partir de uma completa descrição conceitual e prática do “Renascimento” verificamos a existência de dois pilares teóricos que lhes concedem formal sustentação teórica e prática. Trata-se da “Fenomenologia” de Edmund Husserl e Merleau-Ponty e do conceito de integração tal como nos ensina a “Gestalt-terapia”. Parece-nos, então, que o “Renascimento”, prática há muito tida como alternativa, na verdade apresenta uma fundamentação além da simples fisiologia da respiração, quando finca fortemente suas raízes em conceitos fenomenológicos.
Objetivo     
            O objetivo deste artigo foi o de analisar as fundamentações do Renascimento, uma técnica de respiração circular e consciente. Circular porque obedece a ciclos de inspiração e expiração. E consciente porque durante todo o tempo o próprio cliente comanda sua própria respiração. Esse processo não objetiva a regressão e alcançar lembranças, memórias ou reflexões acerca de conteúdos mentais. O processo, durante todo o tempo de uma sessão é focado somente na respiração, para que a pessoa experimente novas sensações, emoções e experiências ao soltar todas as tensões da inspiração, permitindo uma expiração relaxada dentro da proposta de uma respiração ampla, consciente e conectada com toda e qualquer sensação física ou mental que deve ser integrada durante o processo.
            O exercício não é indutor e nem se propõe à resolução de coisa alguma, apenas se respira e se permite entrar em contato com aquilo que está presente, tendo como objetivo a integração, já que o organismo é mobilizado em sua necessidade de reorganização para que tudo se acomode em nosso corpo e mente, permitindo certo realinhamento, reorganização, fruto da integração proporcionada pela respiração que nos faz apenas entrar em contato com uma série de coisas que na verdade se modificam sozinhas quando acolho tudo o que sinto em mim, tudo o que sinto na minha respiração.
            Todas as coisas do mundo que me cerca constituem perceptualmente um cogito pré-reflexivo, mas, fora dos moldes cartesianos, Merleau-Ponty afirma que o que descubro e reconheço pelo Cogito “é o movimento profundo de transcendência que é meu próprio ser, o contato simultâneo com meu ser e com o ser do mundo”.[2]. Segundo Merleau-Ponty as percepções somente se tornam possíveis se habitadas por um espírito capaz de reconhecer, de identificar e de manter diante de nós o seu objeto intencional. A coisa vista é em si mesma aquilo que dela penso:
            “Quando estou seguro de ter sentido, a certeza de uma coisa exterior está envolvida na própria maneira pela qual a sensação se articula e se desenvolve diante de mim: trata-se de uma dor da perna, ou é uma sensação de vermelho e, por exemplo, do vermelho opaco em um único plano ou, ao contrário, de uma atmosfera avermelhada. A interpretação que dou de minhas sensações deve ser motivada, e ela só pode sê-lo pela própria estrutura dessas sensações”[3]
            Ver, sentir e interpretar (as coisas exteriores) são ocorrências possíveis e necessárias quando não interferimos, mas apenas permitimos que ocorram e se integrem à nossa compreensão. Esta não interferência se propõe a possibilitar que haja um reconhecimento da coisa a partir do contato efetivo que ela desperta em mim.  O nível reflexivo em que isto se dá, dentro das considerações fenomenológico-existenciais sartrianas, equivale a uma redução fenomenológica, um “colocar entre parênteses, e recusar o que Husserl denomina mit-machen”[4]
            A proposta da técnica do Renascimento é que este “desenvolvimento” se dá via intergração e não produto de algum mentalismo, ou de nossas considerações de consciência. E nisto reafirmamos que respirar profundamente é um modo de suspender a minha ansiedade de interferência e julgamento de bom ou ruim, de bem ou mal, em relação a todas as coisas.
            Durante o exercício, a respiração é prioritária em relação a qualquer outra sensação ou manifestação, já que tudo que ocorre faz parte do processo de integração e por isso não devemos interferir. É desse modo que procuramos (o quanto possível) não interferir e priorizamos a respiração para a ativação (inicial) e a integração (conclusiva).
            O Renascimento e sua técnica de respiração não visam “deixar a pessoa bem”, mas possibilitar a autopercepção corporal que produz a integração. E é a integração que torna as coisas claras para o observador e o prepara para uma condição relaxada, fluida, que acaba por tornar a vida mais leve. Se formos pensar na relação que pode haver entre a respiração consciente e a solução dos nossos problemas poderíamos dizer que o Renascimento (embora não se proponha diretamente) ele trata a tensão do problema, mas não o problema em si.
            Jim Leonard aperfeiçoou um aspecto central no Renascimento ao valorizar mais a integração e menos a liberação, já que o Renascimento começou como uma técnica (catártica) de liberação e nas mãos de Jim evoluiu para deixar de ser uma catarse e se tornar mais meditativo e menos psicológico. O pensamento de Jim Leonard é que liberar significa “se livrar”, mas a melhor proposta do Renascimento, segundo ele, iria na direção do “entrar em contato e acolher as sensações”, aconteça o que acontecer, tornando consciente toda sensação desejada ou indesejada, agradável ou desagradável.

Atenção ao fenômeno: atitude serena.
            No Renascimento o papel do Renascedor, ou do terapeuta, é o de tão-somente observar o processo de respiração circular. A riqueza do movimento de inspiração em seu máximo e confortável alcance e o relaxamento que deve acompanhar a expiração, observando se ambas se compatibilizam e se sincronizam, especialmente no que se refere às suas elasticidades, intensidades e tamanhos, é uma atuação técnica importante. Mas, simplesmente, observar atentamente ao fenômeno, acompanhando todo o decorrer do processo da sessão,  é, na verdade, a principal função do Renascedor.
            O cliente, por sua vez, é instruído a permitir que suas sensações se integrem a partir dos efeitos proporcionados pela respiração circular. E isto ocorre quando não interferimos, mas permitimos que o fenômeno continue ocorrendo tal como surge, tal como se move, tal como é. E que ele se transforme por si mesmo, no seu próprio modo, do seu próprio jeito.
            A Fenomenologia se dedica a descrever o fenômeno tal como ele ocorre em si mesmo. Segundo a etimologia, a Fenomenologia é o estudo ou a ciência do fenômeno. Somos tomados, fisicamente, o tempo todo, por uma série de fenômenos. Desde uma brisa suave que nos toca o rosto, até um fio de cabelo que incomoda os olhos, passando por uma garganta que arde, um lábio que seca ou alguns dedos que estremecem. Tudo é fenômeno.
            Também são fenômenos as coisas que acontecem fora de mim. Tudo o que vejo, tudo o que penso, tudo a que assisto. Quando nos habituamos a nos relacionar com os fenômenos de maneira simples, direta, clara e sem grande pretensões explicativas e curativas, acabamos nos aproximando de nós mesmos e da natureza que impera em nós.
            É desse modo que vemos há alguns séculos a ciência se dividir entre “os que querem observar para ver” e “os que querem explicar para resolver”. Sinteticamente, e nos reportando a Dilthey, dizemos que as ciências positivistas (naturais) buscam explicar o objeto (ou fenômeno), enquanto as ciências fenomenológicas (humanas) buscam compreender o objeto (ou fenômeno).
            E é essa atitude positivista que tanto permeia a nossa cultura que nos leva à mania de julgamentos e a buscas às vezes obsessivas de explicações. Insistimos em saber o porquê de tudo, como se tudo tivesse, obrigatoriamente, que fazer um sentido (cartesiano) e assim ser explicado.
            O positivismo foi uma corrente sociológica criada pelo francês Auguste Comte (1789-1857) que surgiu como desenvolvimento do iluminismo, caracterizando-se como uma afirmação das ciências experimentais, e propondo à experiência humana valores completamente materiais. Trata-se de uma corrente de pensamento que influenciou completamente a nossa civilização. O nosso modo comum de pensar é um modo positivista, porquanto é o meio de raciocínio a que estamos habituados, especialmente no Ocidente. Assim o empirismo científico (neopositivismo) que passou a dominar como método científico, influenciou a todos os sistemas organizacionais e às pesquisas, tendo a prerrogativa de conferir status de verdade a qualquer saber que fosse considerado científico, e somente seria científico o que também fosse positivista.
            Já a Fenomenologia olha o fenômeno tal como ele se apresenta, sem qualquer concepção apriorística do “como deveria ser”. É um método que se opõe ao determinismo positivista, propondo que o conhecimento se volte às coisas como fenômenos em si mesmas, valorizando assim a compreensão, não a explicação ou a interpretação.
            Está presente, então, no Renascimento, a proposta da Fenomenologia de observar o fenômeno sem apressar-se em defini-lo ou determiná-lo, como nas palavras de Heidegger, a proposta é adotar uma “atitude serena” diante de todas as coisas, demorando-se a julgar, a concluir, a responder. E essa “serenidade heideggeriana” vem a corresponder com a “redução fenomenológica” husserliana que propõe a aproximação do sujeito ao fenômeno, buscando compreendê-lo e não explicá-lo. 
            No compreender não ocorre uma distinção clara entre sujeito e objeto (pessoa e fenômeno), já que o sujeito do conhecimento toma a si mesmo como seu objeto de conhecimento. Para Ricoeur, compreender é mais que um modo de conhecer, é um modo de ser.
 Facilitando o desenvolvimento humano pela integração
            Fritz Perls disse que o critério de um tratamento bem sucedido é atingir o grau de integração que facilite o próprio desenvolvimento. Perls faz diferença entre o que chama de “personalidade espontânea” e “personalidade deliberada”. A personalidade espontânea é formada a partir do respeito aos processos naturais de desenvolvimento, algo que diz respeito, por exemplo, aos ensinamentos do parto humanizado de Leboyer. Desde o nascimento se pode praticar a espontaneidade, mas toda a parafernália hospitalar cheia de luzes, barulhos e procedimentos tão invasivos quanto artificiais impõem uma cultura da “deliberação” em detrimento à cultura da “espontaneidade” de que trata Perls.
            Perls, portanto, fala de integração. A gestalt busca integrar, a psicanálise busca analisar. E a diferença é que a integração faz com que as nossas experiências estejam próximas a nós, tão próximas que nos unificamos com elas. A integração que é o simplesmente nada fazer, mas tudo sentir é um processo singelo, quase banal, mas tremendamente importante. A facilidade da integração se explica porque o homem é parte da natureza, ele é um evento biológico, e ele é um todo, não pode ser partido. Integração, segundo Perls, requer identificação com todas as funções vitais: “toda tentativa de integração está sujeita a trazer para o primeiro plano algum tipo de resistência.”
            Barry Stevens diz que começamos a integrar com eficácia quando aprendemos não somente a relaxar, mas a não controlar o nosso corpo para que possamos compreender o seu modo natural de funcionar e o quanto e como eu interfiro com ele. Ela relata parte de uma sessão assim:
            “Pedi à pessoa que se deitasse de costas no chão e que levantasse os joelhos até que as plantas dos pés estivessem inteiras no chão. Pedi então que se ajeitasse um pouco para ficar o mais confortável possível. Disse que esta era apenas uma posição inicial que parecia funcionar melhor e que a pessoa não precisava se apegar a ela. Na verdade disse que ela não deveria se apegar a coisa alguma naquele momento. Ele fez isso e disse, procurando uma almofada: “Quero uma almofada debaixo da minha cabeça. A minha cabeça dói no lugar que encosta no chão”.
            “Uma almofada, está bem”, disse eu, “mas eu gostaria que antes você tentasse sem ela. Entre em contato com a dor na sua cabeça, por dentro, delicadamente – como se estivesse travando conhecimento com ela. Fique em contato como se fosse um foco de luz que não tira nada do lugar e não mantém nada do jeito que é. ‘Ficar em contato’ significa estar tão leve, que se alguma outra coisa no seu corpo chamar – qualquer tipo de dor, tensão ou desconforto – você pode se mover me direção a ela, tão facilmente quanto mover seus olhos da janela para a porta.            Deixe a dor estar. Se ela ficar mais intensa ou menos intensa, deixe que isso aconteça – ou qualquer outra mudança. Deixe ser aquilo que é”.
Barry Stevens diz que estamos controlando nossos corpos o tempo todo, e que isto é simplesmente descontrolar – deixar o corpo fazer aquilo que ele quer fazer, já que o meu corpo sabe melhor do que eu o que é melhor para ele, e o simples entrar em contato com sensações corporais desagradáveis já as diminui ou elimina. Uma batida rápida do coração se reduz ao ritmo normal. Uma dor de cabeça desaparece – às vezes depressa, às vezes mais devagar. Dores na parte inferior das costas, onde elas pressionam contra o solo, podem regredir e parecem ir a algum outro lugar.
            A integração na gestalt busca tornar presente todas as sensações físicas e não-físicas, sem a preocupação de separar o que é físico do que é mental, já que num raciocínio organísmico somos uma unidade, um conjunto. Mas para fins didáticos dizemos que tanto uma dor que subitamente surge no pé ou na mão, ou o medo do escuro ou de cobrir o rosto são fenômenos a serem integrados. E a orientação é sempre a mesma: “não evite o que te incomoda, integre”. Ao menos se deve tentar a não-evitação, já que a prova da integração é a não-rejeição, a não-resistência, e sim a aceitação. Não tentar eliminar coisas e pessoas que nos incomodam já é o início da integração, e nesse momento já experimentamos alívio. Posso descobrir que não preciso sofrer com o que não me é agradável, porque posso deixar o desagradável existir e o agradável me tomar.
 Considerações fenomenológicas sobre os cinco elementos do renascimento
                Primeiro Elemento: Respiração Circular - Significa que o ar entra e sai pela mesma via (boca ou nariz, e que a respiração acontece sem solavancos, sem pausas - mal termina uma fase (inspiração ou expiração), já começa a outra e elas têm a mesma duração. Ênfase na inspiração e no relaxamento da expiração. Esta orientação, que se constitui no que há de mais fundamental no Renascimento, se dá na disciplina do exercício que permite a ativação para a ultrapassagem de barreiras de urgência – que são dificuldades que podem surgir no desempenho da respiração circular – e o consequente alcance da integração. Aqui é fundamental a postura de atenção ao fenômeno sem produzir pensamentos, julgamentos e tentativas de controle ou qualificação daquilo que se experiencia.
                Segundo Elemento: Relaxamento total - Significa que não há qualquer controle sobre a expiração, aproveitando cada uma delas para permitir que o corpo e a mente se entreguem e se soltem mais e mais profundamente. A expiração relaxada relaciona-se ao “deixar estar”, à entrega total à vivência experienciada no aqui e agora, e também – principalmente - à atitude de aproveitar (ao máximo) com prazer tudo que se deseja desfrutar naquele momento, já que a expiração também pode simbolizar o modo como aproveito a vida, da mesma forma como a inspiração pode significar o modo como busco aquilo que desejo.
                 Terceiro Elemento: Consciência Detalhada - Significa estar presente e percebendo cada sensação do corpo, emoção surgindo, sentimento, imagem, pensamento, som e diálogo interno. Este elemento diz respeito à capacidade que desenvolvo de me desligar de tudo que signifique “ausência” para que eu desfrute de unidade entre mim e a experiência presente.
                  Quarto Elemento: Integração ao Êxtase - Significa não lutar contra nada, mas permitir que tudo se expresse na pessoa - apenas dando as boas vindas a tudo o que acontece da forma como acontece. Este elemento sintetiza bem a expressão “redução fenomenológica” que segundo Edmund Husserl é olhar o fenômeno tal como ele é, buscando compreendê-lo, extraindo dele percepções e sensações não contaminadas por nossos conceitos, preconceitos, experiências pregressas e opiniões pessoais.
                  Quinto Elemento: Faça o que fizer, sempre funciona - Significa que não há uma respiração errada - mesmo que se faça uma respiração bem diferente da do renascimento, pouco eficiente em termos de integração, ainda assim algo irá se integrar. É um elemento que gera relaxamento, pois é necessária uma certa prática para se estar atento a todos os quatro primeiros elementos. E este quinto nos remete à consciência de que toda experiência é válida, é útil, pelo menos como ponto de partida de muitas outras experiências e aprendizagens.
Considerações finais
                        O Renascimento é uma ferramenta preciosa que nos ajuda a pôr em prática diversos fundamentos da Fenomenologia e da Gestalt-terapia, partindo da respiração, nossa mais primária função, a primeira ação do bebê ao nascer, o vínculo do ser humano com o universo.
                        O Renascimento mobiliza de forma poderosa energias às vezes inócuas, às vezes latentes, às vezes confusas, às vezes doentias, contidas ou improdutivas, que se tornam luzes acesas pela circulação da vitalidade gerada por esse respirar que ativa e integra.
                       A respiração é o “elo mágico” entre o corpo, a mente e o observador, assim como o sangue que circula entre os órgãos do corpo permitindo-lhes vitalidade. A respiração, portanto, revitaliza esse conjunto e possibilita a integração do ser com tudo que lhe seja componente.
                       O Renascimento também nos torna mais atentos aos fenômenos vitais sem que isto seja um sacrifício, pelo contrário, torna-se um prazer muitas vezes rotineiro essa capacidade de viver o aqui e agora gestáltico, integrando as sensações, deixando de evitar as experiências e possibilitando que essa prática nos torne muito mais eficazes na arte de viver.


Referências
CHACEL, Khalis e LIMA, Tárika (Orgs). Formação em Renascimento. IRSP: SP, 2008. DARTIGUES, André. O que é fenomenologia. Centauro: São Paulo, 2005.
LEBOYER, Fréderick. Nascer sorrindo. Brasiliense: RJ, 2000.
LEONARD, Jim. Rebirthing. Trinity, NY, 1993.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Perceção. Martins Fontes: São Paulo, 1999.
MONTEIRO, Walmir. Psicoterapia Existencial. Clube de Autores: São Paulo, 2009.
MONTEIRO, Walmir. Fenomenologia e Humanismo. Clube de Autores: São Paulo, 2010
ORR, Leonard. Renascimento na nova era. Gente: SP, 2000.
PERLS, Fritz. Isto é gestalt. Summus: São Paulo, 1977.
SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Vozes: Petrópolis, 1997.
STEVENS, Barry. Não apresse o rio. Summus, São Paulo, 1979.
STEVENS, John. Tornar-se presente. Summus: São Paulo, 1988.
Internet:www.renascimento.com.br. Acessado em 04 de março de 2010


[1] monteiro.walmir@gmail.com
[2] Merleau-Ponty. Fenomenologia da percepção. P.504
[3] Opus Cit. P. 502
[4] Mit-machen, em alemão, “fazer com, colaborar”, Sartre, Jean-Paul. O ser e o nada. P. 123 (5ª ed.).

quinta-feira, 11 de março de 2010

SER COMPULSIVO


Olhar em volta e ver gente que não está presa
no visgo desse hábito que me persegue
E tentar imaginar como seria viver sem ter que dar satisfação
à compulsão
Sem fazer minha vida girar paupérrima em torno de uma coisa
que me coisifica. Minha praga, minha peste, minha atração.
Algo que me distancia do humano e me faz funcionar em torno
de um instinto, mas tal instinto nem é meu.
É o que me me dopa, me anima e me definha
É o que me convida e me barra 
E sempre, sempre me seduz. Escraviza.
Arrastando-me anos a fora
Me impedindo de viver a experiência de 
ser livre, de mandar em meu próprio nariz,
boca, estômago e todos os órgãos
que me completam
E sobretudo me impede de mandar em minha própria
mente, em meu desejo.
E assim perco a oportunidade de viver, de ensaiar, de errar, de tentar.
É que nem errar mais posso, já que tudo é tão previsível
Minha rotina é ceder à cadeia, às correntes, ao cansaço.
Tentando transformar essa merda em poesia
Tentando inventar uma explicação inteligente, filosófica se der.
Tentando fazer isso tudo virar política, sociologia, psicologia
Mas no fim das contas não passa de uma merda de escravidão.
um arrastão sem fim
Um jeito de não viver, mas de apenas deitar no leito
do rio da vida e se ver arrastar.
Enquanto isso tento fingir que não é nada disso.
E quanto mais finjo mais o tempo passa e não vivo.
Talvez a outra opção para essa dor seja fingir que não a sinto.
Ou tentar ver nessa morte lenta algum charme. 
Quem sabe?

(Walmir Monteiro, a partir do desabafo de um paciente)
março de 2010

domingo, 7 de março de 2010

JEAN-PAUL SARTRE



Jean-Paul Charles Aymard Sartre
Nascimento21 de Junho de 1905
ParisFrança
Falecimento15 de Abril de 1980
Paris
NacionalidadeFrancês 
OcupaçãoFilósofo, escritor
Magnum opusO ser e o nada
Escola/tradiçãoExistencialismoMarxismo
Principais interessesEpistemologiaÉticaPolítica,OntologiaMetafísica,Fenomenologia
Idéias notáveis"A existência precede a essência"
InfluênciasKantMarxNietzsche,KierkegaardCamusHegel,HeideggerHusserl
InfluenciadosDeleuzede BeauvoirFanon,ButlerShariati


Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris21 de Junho de 1905 — Paris15 de Abril de 1980) foi um filósofo existencialista francês do início do século XX. Dizia vir a existência antes da essência. Assim, no existencialismo (que começa com Kierkegaard1813-1855 - Ou até mesmo antes com Blaise Pascal1623-1662 ou Santo Agostinho 354-430), o papel da filosofia é invertido. Desde Platão, quando temos o nascimento da linguagem filosófica (em forma de diálogos), a preocupação desta é o universal em detrimento do particular. E, agora, a existência toma seu lugar na discussão filosófica, partindo de questões cotidianas, e caminhando em direção à universalidade.

Índice


Biografia

Órfão de pai desde os dois anos, Sartre sofreu as primeiras influências por parte de sua mãe e de seu avô Charles Schweitzer, que o iniciou na literatura clássica desde cedo.
Fez seus estudos secundários em Paris, no Lycée Henri IV, onde conheceu Paul Nizan. De 1922 a 1924, estudou no curso preparatório do lycée Louis-le-Grand. Nessa época despertou seu interesse pela Filosofia, influenciado pela obra de Henri Bergson. Em 1924 ingressou na École Normale Supérieure, onde conheceu, em 1929Simone de Beauvoir que se tornaria sua companheira e colaboradora até o fim de sua vida.
Sartre e Beauvoir não formavam um casal comum de acordo com padrões da época. Ambos possuíam amantes, e partilhavam confidências sobre suas relações com outros parceiros. Este modo de vida violava os valores da tradicional sociedade francesa, que se escandalizou com essa relação.
Apresentado à fenomenologia de Husserl por Raymond Aron, Sartre fica fascinado por essa escola que permite estudar filosoficamente cada aspecto da vida humana. Vai então a Berlim como bolsista do Institut Français. Durante esta viagem, conhece a obra de Martin Heidegger que se tornaria a base da primeira fase de sua carreira filosófica.
De 1936 a 1939, ele ensina em Havre, Laon e Paris. Nesta época escreve suas primeiras obras filosóficas: L'Imagination (A Imaginação) (1936) e La Transcendence de l'égo (A Transcendência do ego) (1937). Em 1938 publica La Nausée (A Náusea), um romance que é uma espécie de estudo de caso existencialista e que apresenta, em forma de romance, algumas das idéias que ele posteriormente desenvolveria em sua obra filosófica.
Em 1939 Sartre se engaja no exército francês, e serve na Segunda Guerra Mundial como meteorologista. Em Nancy é aprisionado no ano de 1940 pelos alemães, e permanece na prisão até abril de 1941. De volta a Paris, alia-se à Resistência Francesa, onde conhece e se torna amigo de Albert Camus (Do qual já conhecia a obra e já havia até escrito um ensaio extremamente elogioso sobre o livro do Camus "O Estrangeiro"). A amizade entre Sartre e Camus perdurará até 1952, quando os dois rompem a relação públicamente devido à publicação do livro do Camus "O Homem Revoltado" no qual Camus ataca criticamente o marxismo e a URSS. Sartre defendia uma relação de colaboração critica com o regime da URSS e permitiu a publicação de uma critica desastrosa sobre o livro do Camus em sua revista "Les Temps Modernes" (critica esta que Camus respondeu de maneira extremamente dura) e que foi a gota d´água para o fim da relação de amizade). Mas até o final da vida Sartre admirará Camus, como ele mesmo expressa nas entrevistas que teve com Simone de Beauvoir em 1974 - e que ela publicou postumamente.
Em 1943 publica seu mais famoso livro filosófico, L'Être et le néant (O ser e o nada), ensaio de ontologia fenomenológica, que condensa todos os conceitos importantes da primeira fase de seu sistema filosófico.
Sua participação na Resistência não é aceita por todos, e o filósofo Vladimir Jankélévitch o reprova por sua "falta de engajamento político" durante a ocupação alemã, e vê em seus posteriores combates em prol da liberdade uma tentativa de se redimir por esta atitude. Em 1945, ele cria e passa a dirigir junto a Maurice Merleau-Ponty a revista Les Temps Modernes (Tempos Modernos), onde são tratados mensalmente os temas referentes à Literatura, Filosofia e Política. Além das contribuições para a revista, Sartre escreve neste período algumas de suas obras literárias mais importantes.
Sempre encarando a literatura como meio de expressão legítima de suas crenças filosóficas e políticas, escreve livros e peças teatrais que tratam a respeito das escolhas que os homens tomam frente às contingências às quais estão sujeitos. Entre estas obras destacam-se a peça Huis Clos (Entre quatro paredes) (1945) e a trilogia Les Chemins de la liberté (Os caminhos da Liberdade) composta pelos romances L'age de raison (A idade da razão) (1945), Le Sursis (Sursis) (1947) e Le mort dans l'âme(Com a morte na alma) (1949).
No período mais prolífico de sua carreira escreve ainda várias peças de teatro e ensaios. Na década de 1950 assume uma postura política mais atuante, e abraça ocomunismo. Torna-se ativista, e posiciona-se publicamente em defesa da libertação da Argélia do colonialismo francês. A aproximação do marxismo inaugura a segunda parte da sua carreira filosófica em que tenta conciliar as idéias existencialistas de auto-determinação aos princípios marxistas. Por exemplo, a idéia de que as forças sócio-econômicas, que estão acima do nosso controle individual, têm o poder de modelar as nossas vidas. Escreve então sua segunda obra filosófica de grande porte, La Critique de la raison dialectique (A crítica da razão dialética) (1960), em que defende os valores humanos presentes no marxismo, e apresenta uma versão alterada do existencialismo que ele julgava resolver as contradições entre as duas escolas.
Considerado por muitos o símbolo do intelectual engajado, Sartre adaptava sempre sua ação às suas idéias, e o fazia sempre como ato político. Em 1964 Sartre escreveLes Mots (As palavras), relato autobiográfico que seria sua despedida da literatura. Após dezenas de obras literárias, ele conclui que a literatura funcionava como um substituto para o real comprometimento com o mundo. No mesmo ano vence o prêmio Nobel de literatura, que ele recusa pois segundo ele "nenhum homem merece ser consagrado em vida".
Morre em 15 de abril de 1980 no Hospital Broussais em (Paris). Seu funeral foi acompanhado por mais de 50 000 pessoas. Está enterrado no Cemitério de Montparnasseem Paris.

Cronologia

  • 1905 - Sartre nasce em Paris em 21 de junho.
  • 1907 - Morte de seu pai. Muda-se para a casa do avô materno, em Meudon; retorna a Paris quatro anos depois.
  • 1924 - Sartre matricula-se na Escola Normal Superior, em Paris. Conhece Simone de Beauvoir.
  • 1931 - É nomeado professor de filosofia no Havre.
  • 1936 - Sartre publica A Imaginação e A Transcendência do Ego.
  • 1940 - Servindo na guerra, Sartre é feito prisioneiro pelos alemães e enviado a um campo de concentração.
  • 1941 - Liberto, volta à França e entra para a Resistência. Funda o movimento Socialismo e Liberdade.
  • 1943 - Publica O Ser e o Nada.
  • 1945 - Sartre dissolve Socialismo e Liberdade e funda, com Merleau-Ponty, a revista Les Temps Modernes.
  • 1952 - Sartre ingressa no Partido Comunista Francês.
  • 1956 - Rompe com o Partido Comunista. Escreve O Fantasma de Stálin.
  • 1960 - Sartre publica Crítica da Razão Dialética.
  • 1964 - Publica As Palavras. Recusa o Prêmio Nobel de Literatura.
  • 1968 - Durante a revolta estudantil na França e em várias partes do mundo, Sartre põe-se ao lado dos estudantes da barricada.
  • 1970 - Sartre assume simbolicamente a direção do jornal esquerdista La Cause de Peuple, em protesto à prisão de seus diretores.
  • 1971 - Publica O Idiota da Família.
  • 1973 - Colabora na fundação do jornal libertário Libération.
  • 1980 - Morre.

O existencialismo de Sartre

existencialismo de Sartre é um projecto ambicioso: a interpretação total do mundo. Baseado principalmente na fenomenologia de Husserl e em 'Ser e Tempo' deHeidegger, o existencialismo sartriano procura explicar todos os aspectos da experiência humana. A maior parte deste projeto está sistematizada em seus dois grandes livros filosóficos: "O ser e o nada" e "Crítica da razão dialética".

O Em-si

Segundo a fenomenologia e o existencialismo, o mundo é povoado de seres Em-si. Podemos entender um Em-si como qualquer objeto existente no mundo e que possui uma essência definida. Uma caneta, por exemplo, é um objeto criado para suprir uma necessidade: a escrita. Para criá-lo, parte-se de uma ideia que é concretizada, e o objeto construído enquadra-se nessa essência prévia. Um ser Em-si não tem potencialidades nem consciência de si ou do mundo. Ele apenas é. Os objetos do mundo apresentam-se à consciência humana através das suas manifestações físicas (fenómenos).

O Para-si

A consciência humana é um tipo diferente de ser, por possuir conhecimento a seu próprio respeito e a respeito do mundo. É uma forma diferente de ser, chamada Para-si. É o Para-si que faz as relações temporais e funcionais entre os seres Em-si e ao fazer isso constrói um sentido para o mundo em que vive. O Para-si não tem uma essência definida. Ele não é resultado de uma idéia pré-existente. Como o existencialismo sartriano é ateu, ele não admite a existência de um criador que tenha predeterminado a essência e os fins de cada pessoa. É preciso que o Para-si exista, e durante essa existência ele define, a cada momento o que é sua essência. Cada pessoa só tem como essência imutável, aquilo que já viveu. Posso saber que o que fui se definiu por algumas características ou qualidades, bem como pelos atos que já realizei, mas tenho a liberdade de mudar minha vida deste momento em diante. Nada me compele a manter esta essência, que só é conhecida em retrospecto. Podemos afirmar que meu ser passado é um Em-si, possui uma essência conhecida, mas essa essência não é predeterminada. Ela só existe no passado. Por isso se diz no existencialismo que "a existência precede e governa a essência". Por esta mesma razão cada Para-si tem a liberdade de fazer de si o que quiser.

A liberdade

Em decorrência disso, uma das afirmações mais conhecidas de Sartre é que o ser humano está condenado à liberdade. Isso significa que cada pessoa pode a cada momento escolher o que fará de sua vida, sem que haja um destino previamente concebido. Ao invés disso, as escolhas de cada um são direcionadas por projetos. Há vários tipos de projeto, como escrever um artigo na Wikipedia ou comprar uma casa, mas Sartre considerava que todas as pessoas são movidas por um projeto fundamental, o projeto de auto-realização, da transcendência. Todos temos o sonho de sermos pessoas que já realizaram todas as suas potencialidades, todos os projetos. Um ser que realizou tudo o que podia, esgota suas potencialidades, torna-se um Em-si. Isso pode acontecer, por exemplo quando morremos. Nesse momento a consciência deixa de existir, e nos tornamos um ser de essência conhecida, completo e acabado. Mas a morte é uma contingência, algo que acontece sem que possamos evitar e impede a concretização de nossos projetos. Não é a morte a transcendência desejada. Sartre nos diz que o projeto fundamental é tornar-se um ser que já realizou tudo, mas preserva sua consciência, um ser Em-si-Para-si. Tal ser corresponde à noção que temos de Deus, um ser completo, sem limitações e com todas as suas potencialidades já realizadas, mas ainda consciente de si e do mundo. Em outras palavras, para Sartre, o homem é um ser que "projeta tornar-se Deus".
A liberdade é que torna possível escolher dentre todas as alternativas possíveis, aquela que vai nos levar a um caminho mais curto em direção ao projeto fundamental. Obviamente as pessoas estão sujeitas a limitações e contingências. Ela não pode sobrepujar seu limite físico e escolher que a partir de agora pode voar, mas pode agir, apesar destas limitações. Sartre explica que isso não diminui a liberdade. Pelo contrário, são as limitações que tornam a liberdade possível, pois se pudéssemos realizar instantaneamente qualquer coisa que quiséssemos, nós estaríamos no universo do sonho. No mundo real, são as limitações que me impõem escolhas. Mesmo um homem preso a uma cama pode ter a liberdade de querer se curar e andar. Esta é, para Sartre, a verdadeira liberdade da qual nenhum homem pode escapar: "não é a liberdade de realização, mas a liberdade de eleição". O importante não é o que o mundo faz de você, mas o que você faz com aquilo que o mundo fez de você.

A responsabilidade

Cada escolha carrega consigo uma responsabilidade. Se escolho ir a algum lugar, falar alguma coisa, escrever um artigo, tenho que ter consciência de que qualquer conseqüência desses atos terá sido resultado de minha própria escolha. E cada escolha ao ser posta em ação provoca mudanças no mundo que não podem ser desfeitas. Não posso, segundo o existencialismo, atribuir a responsabilidade por estes atos a nenhuma força externa, ao destino ou a Deus. Em cada momento, diante de cada escolha que faço, torno-me responsável não só por mim, mas por toda a humanidade. E faço isso por minha própria escolha, para que o mundo se torne mais como eu o projetei. Eis a essência da responsabilidade segundo os existencialistas: eu, por minha vontade e escolha ajo no mundo e afeto o mundo todo. É uma responsabilidade da qual não podemos fugir. Ser livre também tem que ser responsável, liberdade so dá certo quando o indivíduo age com responsabilidade.

A angústia

A responsabilidade por todo o mundo é um fardo pesado para qualquer pessoa. A angústia existencial decorre da consciência de que são as escolhas dessa pessoa que definem o que ela é ou se tornará. E também por saber que estas escolhas podem afetar, de maneira irreparável, o próprio mundo. A "angústia" decorre portanto, da consciência da liberdade e do receio de usar essa liberdade de forma errada.
É muito mais fácil acr que existe um plano, um propósito no universo, e que nossos atos são guiados por uma mão invisível em direção a esse propósito. Neste caso, meus atos não seriam responsabilidade minha, mas apenas o meu papel em um roteiro maior. Mas Sartre nos dá mais um de seus conceitos em oposição a essa crença: Não há um propósito ou um destino universal. E o homem diante desta constatação se desalenta. O desalento é a constatação de que nada fora de nós define nosso próprio futuro. Apenas nossa liberdade.

A má-fé

Segundo Sartre, a má-fé é uma defesa contra a angústia e o desalento, mas uma defesa equivocada. Pela má-fé renunciamos à nossa própria liberdade, fazendo escolhas que nos afastam do projeto fundamental e atribuindo conformadamente estas escolhas a fatores externos, ao destino, a Deus, aos astros, a um plano universal. Sartre também considerava a idéia freudiana de inconsciente como um exemplo de má-fé.
Ma-fé, no existencialismo, não é mentir para outras pessoas, mas mentir para si mesmo e permitir-se fugir de sua própria auto-determinação.
Quando Sartre fala de má fé, o faz no sentido de que a má-fé é a mentira para si mesmo. Porém o fato de deixar de fazer uso dela leva o individuo a angustia porque ele nao mente mais para si e toma consciencia de que tudo que ocorre de bom ou mal em sua vida é culpa dele, portanto, nao há ninguem responsavel pelos acontecimentos de sua vida quer sejam eles bons ou ruins.
Ao tomar consciencia disto o homem sai do estado de má-fé e passa a estar em angústia pois, ele deixou de se enganar restando apenas a sua real situacao. Esta passagem do estado de má-fé para a angústia é extremamente importante para que o sujeito possa ser livre.

O outro

As outras pessoas são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem. Mas Sartre não defende, como muitos pensam, o solipsismo. O homem por si só não pode se conhecer em sua totalidade. Só através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro. "O ser Para-si só é Para-si através do outro", idéia que Sartre herdou de Hegel. Cada pessoa, embora não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse reconhecimento. Por mim mesmo não tenho acesso à minha essência, sou um eterno "tornar-me", um "vir-a-ser" que nunca se completa. Só através dos olhos dos outros posso ter acesso à minha própria essência, ainda que temporária. Só a convivência é capaz de me dar a certeza de que estou fazendo as escolhas que desejo. Daí vem a idéia de que "o inferno são os outros", ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de meus projetos, colocando-se sempre no meu caminho, não posso evitar sua convivência. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria sentido.

Sartre e Kant: convergências

Immanuel Kant afirma que o ser racional tem a causalidade na vontade da mesma maneira como nos irracionais é a necessidade natural. Isso porém não serve para demonstrar a essência da liberdade do ser racional (Fundamentos da Metafísica dos Costumes, p. 101). Partindo da física mecânica onde a relação causa-conseqüência é dado universal, a vontade autônoma seria a causa, e a liberdade, a conseqüência. Assim, a vontade está submetida à lei moral ou o imperativo categórico, e, desta forma Kant, define sua máxima "age de modo que a máxima de tua vontade possa valer sempre, ao mesmo tempo, como princípio de legislação universal" tornando o dever uma possibilbidade. Num hipotético diálogo entre Sartre e Kant, o pensador francês diria ser mera ilusão a natureza humana, pois o homem é projeto inacabado de si mesmo, inserido num mundo absurdo e fadado a uma condição intransponível: ser livre! Partindo disso, deve-se entender que o ser livre é condição universal humana e esta condição não resulta em outra coisa senão o querer, sujeito livre, almejar a liberdade de todos os homens. Ambos colocam o ser humano na condição de sujeitos que não podem agir em conformidade com a má-fé, seja pelo dever ou pela liberdade.´´ O inferno são os outros``

Críticas ao existencialismo sartriano

O existencialismo ateu de Sartre, por sua natureza avessa aos dogmas da igreja e da moral constituída, atraiu muitos grupos que viam na defesa da liberdade e da vida autêntica um endosso à vida desregrada - obviamente, por um erro na compreensão do que há de essencial na concepção de liberdade elaborada pelo filósofo francês. Por razões semelhantes foi vista por muitos como uma filosofia nociva aos valores da sociedade e à manutenção da ordem. Seria uma filosofia contra a humanidade. Esta é uma das razões porque toda a obra de Sartre foi incluída no Index de obras proibidas pela Igreja Católica.
Sartre responde a isso na conferência "O existencialismo é um humanismo" em que afirma que o existencialismo não pode ser refúgio para os que procuram o escândalo, a inconseqüência e a desordem. O movimento, segundo este texto, não defende o abandono da moral, mas a coloca em seu devido lugar: na responsabilidade individual de cada pessoa. O existencialismo prega uma moral laica em que nossas escolhas não são determinadas pelo medo da punição divina, mas pela consciência de nossa responsabilidade.
No meio acadêmico, o existencialismo foi criticado por tratar exclusivamente de questões ontológicas, e por sua defesa da auto-determinação. O existencialismo seria uma filosofia excessivamente preocupada com o indivíduo, sem levar em conta os fatores sócio-econômicos, culturais e os movimentos históricos coletivos que, segundo o marxismo e o estruturalismo, determinam as escolhas e diminuem a liberdade individual.
Em resposta a esta crítica, Sartre fez alterações ao seu sistema, e escreveu "A crítica da razão dialética" como tentativa de compatibilizar o existencialismo ao marxismo. Dos dois tomos planejados, apenas o primeiro foi publicado em vida em 1960. O segundo tomo, inacabado, foi publicado postumamente. Neste texto, afirma que "o marxismo é a filosofia insuperável de nosso tempo", e admite que enquanto a humanidade estiver limitada por leis de mercado e pela busca da sobrevivência imediata, a liberdade individual não poderia ser totalmente alcançada.
Mas, se do ponto de vista filosófico e político o existencialismo foi superado, não se pode negar sua duradoura influência sobre os mais variados ramos do conhecimento humano. Por ser muito voltado à discussão de aspectos formadores da personalidade humana, o existencialismo exerceu influência na psicologia de Carl RogersFritz PerlsR. D. Laing e Rollo May. Na literatura, influenciou a poesia da Geração Beat, cujos maiores expoentes foram Jack KerouacAllen Ginsberg e William S. Burroughs, além dos dramaturgos do chamado Teatro do absurdo. Sartre prova sua relevância até na TV contemporânea, onde o cultuado produtor Joss Whedon costuma inserir o existencialismo em seus projetos Buffy, a Caça VampirosAngel e Firefly - o que, através da repetição descontextualizada dos jargões existencialistas, acaba por contribuir para a incompreensão e reforça preconceitos já existentes. Através de suas contribuições à arte, Sartre conseguiu inserir a filosofia na vida das pessoas comuns. Esta continua a ser sua maior contribuição à cultura mundial.

Bibliografia

  • L'imagination (A imaginação), ensaio filosófico - 1936
  • La transcendance de l'égo (A transcendência do ego), Ensaio filosófico - 1937
  • La nausée (A náusea), romance - 1938
  • Le mur (O muro), contos - 1939
  • Esquisse d'une théorie des émotions (Esboço de uma teoria das emoções), ensaio filosófico - 1939
  • L'imaginaire(O imáginário), ensaio filosófico - 1940
  • Les mouches (As moscas), teatro - 1943
  • L'être et le néant (O ser e o nada), tratado filosófico - 1943
  • Réflexions sur la question juive (Reflexões sobre a questão judaica), ensaio político - 1943
  • Huis-clos (Entre quatro paredes), teatro - 1945
  • Les Chemins de la liberté (Os caminhos da liberdade) trilogia, compreendendo:
    • L'age de raison (A idade da razão), romance - 1945
    • Le sursis (Sursis), romance - 1947
    • La mort dans l'Âme (Com a morte na alma), romance - 1949
  • Morts sans sépulture (Mortos sem sepultura), teatro 1946
  • L'Existentialisme est une humanisme (O existencialismo é um humanismo), transcrição de uma conferência proferida em 1946 - Texto posteriormente rejeitado por Sartre.
  • La putain respectueuse (A puta respeitosa), teatro - 1946
  • Qu'est ce que la littérature? (O que é a literatura), ensaio - 1947
  • Baudelaire - 1947
  • Les jeux sont faits (Os dados estão lançados), romance - 1947
  • Situations, Vários volumes que reúnem ensaios políticos literários e filosóficos - 1947 a 1965
  • Les mains sales (As mãos sujas), teatro - 1948
  • L'Engrenage (A engrenagem), teatro - 1948
  • Orphée noir (Orfeu negro), teatro - 1948
  • Le diable et le bon dieu (O diabo e o bom Deus), teatro - 1951
  • Saint Genet, comédien et martyr (Saint Genet, ator e mártir), biografia de Jean Genet - 1952
  • Les séquestrés d'Altona (Os seqüestrados de Altona) - 1959
  • Critique de la raison dialectique - Tome I: théorie des ensembles pratiques (Crítica da razão dialética, Tomo I), tratado filosófico - 1960
  • Les mots (As palavras), Autobiografia - 1964
  • L'idiot de la famille - Gustave Flaubert de 1821 à 1857 (O idiota de família), biografia inacabada de Gustave Flaubert. Apenas dois dos quatro volumes planejados foram escritos - 1971 (Vol I) – 1972 (vol II)

Obras póstumas

  • Carnets de la drôle de guerre (Diário de uma guerra estranha), Diário escrito entre setembro de 1939 e março de 1940 - 1983. Reedição ampliada em 1995.
  • Cahiers pour une morale (Cadernos por uma moral). Esboço inacabado de uma teoria moral existencialista preconizada em O ser e o nada. Escrito em 1947 e 1948 - 1983.
  • Lettres au Castor et à quelques autres. Dois volumes abarcando correspondência de 1926 a 1963. Organizado por Simone de Beauvoir -1983
  • Le scènario Freud (Freud, além da alma), Roteiro do filme de John Huston realizado por Satre entre 1959 e 1960 e não utilizado integralmente devido a conflitos com o diretor - 1984
  • Critique de la raison dialectique - Tome II: l'inteligibilité de l'histoire (Crítica da razão dialética - Tomo II: a inteligibilidade da história), Ensaio filosófico. Escrito em1958 e publicado em 1985.
  • Sartre no Brasil: a conferência de Araraquara. Edição bilíngue (português e francês) contendo a transcrição da conferência na Faculdade de Filosofia de Araraquaraem 4 de setembro de 1960 - 1986.
  • Verité et Existence (Verdade e Existência), fragmentos de um ensaio filosófico escrito em 1948 - 1989
  • Écrits de jeunesse (Escritos da juventude), textos escritos entre 1922 e 1928 - 1990

Referências e textos

  • Lévy, Bernard Henri (2001). O Século de Sartre (Tradução de Jorge Bastos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ISBN 852091229X
  • Moutinho, Luiz Damon S. (1996). Sartre - Existencialismo e Liberdade (Coleção Logos). São Paulo: Moderna. ISBN 8516012263
  • Perdigão, Paulo (1995). Existência e Liberdade. Porto Alegre: L&PM. ISBN 8525405027
  • Ribeiro, Renato Janine (2005). "O Pensador que Engajou a Filosofia na Política." Revista Cult Especial Filosofia. São Paulo: Editora Bregantini, novembro, ano 8, número 97, páginas 52-55. ISSN 1414707-6.

Ligações externas

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

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domingo, 31 de janeiro de 2010

Modernidade líquida de Bauman e Internet

Para Zygmunt Bauman, estamos presenciando a acelerada “liquefação” das estruturas e instituições sociais. A modernidade anterior, “sólida” regida por laços estáveis e estruturas sociais verticalizadas, dá lugar a uma modernidade “líquida”, onde as estruturas e os laços sociais não conseguem se manter por muito tempo; são fluidos, instáveis, mais efêmeros e menos duradouros. Nessa sociedade, nada permanece, nada é certo ou definitivo: pessoas de destaque são relegadas ao anonimato, novidades se tornam velhas e descartáveis, grandes empresas e corporações vão à falência ou são engolidas por outras mais poderosas, carreiras promissoras desaparecem de uma hora para outra, softwares caríssimos se tornam obsoletos e são substituídos por outros em pouco tempo.
Se na era industrial, as relações amorosas tinham o ideal de serem eternas, os casamentos eram para a vida toda, hoje, na globalização, um relacionamento amoroso é como qualquer outro produto: é facilmente descartado quando não se está mais satisfeito com ele. Ao mesmo tempo em que o homem se sente aliviado pela quebra da rigidez dos vínculos, sente-se também angustiado porque não encontra mais a suposta segurança de que antes dispunha.
Bauman acredita que, ante a fragilidade dos relacionamentos, as pessoas estão privilegiando a quantidade ao invés da qualidade. Assim, multiplicam-se e acumulam-se relacionamentos, buscando-se a salvação nas redes, “cuja vantagem sobre os laços fortes e apertados é tornarem igualmente fácil conectar-se e desconectar-se", como no Orkut.
Há muitas vantagens, entre elas, que no mundo todo, protestos têm sido organizados através da Internet, reunindo milhares de pessoas. Um exemplo é a Petição pró-células-tronco embrionárias, assinada por mais de 100 mil internautas. Acreditamos que a tecnologia pode ser boa ou ruim, o que vai definir será o uso feito dela.
(Jorge Forbes)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

FENOMENOLOGIA DA INVEJA
Adriana Tanese
A inveja é a cobiça do ser, como a ganância é a cobiça do ter. Pessoas gananciosas agarram tudo o que encontram, buscam arrancar a fatia maior do bolo. São movidas por uma força cega e pouco se importam em quem pisam para conseguir o que querem. Seu desejo é obeso. A angústia que precisam aplacar internamente é muito grande, pois neste vazio existencial jogam tudo quanto é possível para acalmar seu deus voraz.
Agora, a inveja é diferente e menos escandalosa, porém mais perigosa. Seu alvo não é o que os outros têm, mas o que os outros são. O invejoso, que não tem personalidade própria mas vive de luz refletida, está encantado pelo outro. A pessoa que suscita sua inveja possui qualidades psicológicas que o atraem, literalmente, o fascinam. Isso poderia gerar uma relação positiva, de complementariedade, troca e amizade. Ou de mestre-discípulo, dependendo da situação. Mas o invejoso, em lugar disso, nega o fascínio que sente e busca sujar a imagem do outro.
Por que ele faz isso? Porque se sente ameaçado. Como o invejoso se coloca muito abaixo da pessoa cuja personalidade admira, ele sequer cogita ser como ela (do seu jeito). No final das contas, o invejoso tem uma autoestima baixíssima, ele mesmo se coloca fora do jogo. Eliminando a possibilidade de jogar, nada lhe resta a não ser tentar estragar o jogo dos outros.
E aqui começa a tristeza. O invejoso não vai declarar o que sente. Inveja é um sentimento do qual se tem vergonha. E também ele não pode reconhecer os valores que vê no outro, a não ser de forma superficial, fingida, como alguém que constata que o céu é azul e que há uma árvore no parque. Reconhece sem valorizar. E só quando for realmente necessário.
Fora os casos em que circunstâncias infortuitas da vida tornam impossível avançar e a pessoa tem mais talentos daqueles que consegue expressar, o problema do invejoso contumaz é que ele simplesmente não têm condições psicológicas para alcançar outros níveis. Falta-lhe estrutura psíquica e cultural porque, infelizmente, esse tipo de pessoa não quer se dar ao trabalho real de chegar onde sonha. Quer ela seja preguiçosa, quer prefira manipular os outros ou enfim seja totalmente incapaz, o fato é que há uma triste e fatal discrepância entre o que deseja e o que é.
Para começar qualquer trabalho de aprendizado, desde estudar matemática ou iniciar uma terapia, a pessoa precisa reconhecer que não sabe, que há algo que ela não sabe e quer ou precisa descobrir. E aí começa o rolo: o invejoso se dá o luxo de ser tão orgulhoso a ponto de não poder enfrentar suas próprias lacunas, as quais desta forma nunca poderá preencher.
Assim, preso num círculo vicioso, ao invejoso só resta tentar solapar a pessoa que desperta sua inveja. E fará isso de forma sutil, esdrúxula e "o mais por baixo dos panos possível". De maneira escondida e camuflada, exatamente como seu real sentimento é.
O meio mais usado é a difamação. O invejoso mente e torce a verdade, começando por sua própria percepção das coisas. De fato, o trabalho de difamação e solapamento do outro se instaura dentro da própria psique do invejoso antes de alcançar o outro. Ele enxerga as coisas de forma distorcida e acredita tanto no que vê que quando comenta com os demais parece sincero, e pior, parece uma vítima.
O invejoso é, portanto, um fingido. Ele sufocou a tal ponto seu real sentir que está “convencido” do que fala. E precisa fazer isso, pois poucos aguentariam simplesmente reconhecer sua própria inveja e agir mal. Quem se percebe é a pessoa consciente que se trabalha. Esta não vai prejudicar a vida de ninguém. Sofre em silêncio. Agora, o invejoso real cria uma bola de neve venenosa e apetitosa que fará rolar impiedosamente sobre o objeto de sua inveja com o intuito é eliminá-lo do território.
Finalizando, a inveja maléfica é o sinal de um coração obscurecido pela vontade de poder.


"AMBICIONAR É QUERER TER. INVEJAR É, ALÉM DE QUERER TER, QUERER QUE O OUTRO NÃO TENHA".
(Zuenir Ventura)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

NIETZSCHE - ECCE HOMO




              A filosofia em cada etapa histórica revela alguma personagem que se torna um marco divisório, como o foram Sócrates, Descartes, Kant, Heidegger e Nietzsche. Este último um verdadeiro divisor de águas na filosofia, embora certa vez Heidegger o tenha identificado  como “o último dos filósofos metafísicos”, atribuindo a si mesmo  a titulação de “primeiro filósofo não-metafísico” da história da filosofia ocidental.
                          Em outubro de 1888, ao completar 44 anos de idade, Friedrich Nietzsche resolveu fazer um balanço de sua vida escrevendo Ecce Hhomo, um dos mais belos livros de filosofia na língua alemã.
                        Ecce Homo é sobretudo uma confissão dos seus conflitos e uma síntese inestimável da sua obra.
                            Este grande pensador, um dos mais influentes entre os chamados filósofos modernos, fala de suas paixões, influências, e de como surgiram suas obras. Fala também do seu modo de vida e dos seus objetivos - uma original e desconcertante introdução a si mesmo.
                    Curiosamente, algumas semanas após Nietzsche sofre  a perda completa da razão,ficando Ecce Homo como a sua  última palavra enquanto filósofo, psicólogo e "anticristo".
                     Eu recomendo.