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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O VENDEDOR DE PIMENTAS

WALMIR MONTEIRO


Sempre observei de longe, mas com grande interesse, o vendedor de mel e pimentas que diariamente monta sua barraquinha na esquina da minha rua. De minha janela posso observá-lo na calçada do outro lado.
O que sempre chamou minha atenção é a calma que acompanha sua imperturbável rotina. Ele chega pontualmente às 10 e recolhe suas mercadorias às 18 h. Todos os dias às 13 h. um garoto que usa boné e na maioria das vezes uma camisa de time de futebol, estaciona um triciclo perto do vendedor de pimentas, tira um conjunto de três pequenas marmitas do bagageiro, entrega ao vendedor e pega um litro de mel.
Aquele homem não parece se incomodar se vende menos ou mais, se poderia estar expondo suas mercadorias em uma loja bonita com balcões sofisticados. Parece que ele não se importa em não estar ganhando mais dinheiro, mais fama, mais conforto. Ele vende pimenta e mel, o que por si parece apontar para lados opostos dos prazeres e sabores. Parece que ele está ali para si mesmo e não para os outros.
Se eu pudesse criar uma história para ele, diria que é apenas um homem que trabalha para sustentar a família. E isto de um jeito bem básico, que é prover alimentação e moradia, desprezando qualquer vaidade. Ele não se incomoda com o barulho da rua, com o frio, com o calor, ou com os respingos que descem da marquise à calçada nos dias de chuva. Ele protege sua barraquinha com enormes plásticos transparentes e se refugia numa grande capa de lona amarela. O garoto que entrega o seu almoço também nunca falta e sempre com seu boné e com a camisa que nem sempre é do mesmo time. Fato que me soa estranho.
Não há ambição, não há ímpeto para grandes reações, e os dias são mais ou menos iguais. Talvez não haja por que ou para que reagir. Ele vende pimentas e sustenta a família, ele vai vivendo a vida sem planos mirabolantes, pois tudo que precisa já tem: alguma mercadoria, a barraca e um garoto que lhe entrega todo santo dia uma marmita de comida em troca de um litro de mel.

TRECHO DO LIVRO "ANTES SÓ" - Leia as cinco primeiras páginas: http://www.clubedeautores.com.br/book/2683--ANTES_SO

2 comentários:

Natália disse...

Gostei de ler este trecho. Bem interessante a observação do sujeito comum que apenas segue levando seus dias como qualquer outro sem reclamar da dificuldade, pois ainda tem como sustentar a família vendendo mel. Agora eu nunca vi alguém vender, apenas, mel e pimenta juntos. De qualquer modo... Sucesso com o livro!

WALMIR MONTEIRO disse...

Pois é, Natália, ele devia diversificar, adicionando mais produtos, criando atrativos, aproveitando melhor o ponto, chegando mais cedo, saindo mais tarde...
Tanta coisa que ele podia fazer...
Podia mandar distribuir uns prospectos, criar uma logomarca, de repente alugar um quiosque... rs!

Obrigado Natália!!